[1] Outros ainda dizem coisas mirabolantes. Havia na Potência do Abismo uma primeira Luz, bem-aventurada, incorruptível, infinita, que é o Pai de todas as coisas e se chama Primeiro Homem. A Enóia emitida por ele dizem que é seu filho, o Filho do Homem, o Segundo Homem. Abaixo deles há o Espírito Santo, e debaixo do Espírito do alto os elementos separados, como a água, as trevas, o abismo e o caos, sobre os quais pairava o Espírito que eles chamam Primeira Mulher. Aconteceu depois que o Primeiro Homem, junto com seu filho, exultou por causa da formosura do Espírito, Primeira Mulher, irradiou-a e gerou dela uma Luz incorruptível, o Terceiro Homem, que chamam Cristo, filho do Primeiro e do Segundo Homem e do Espírito Santo, a Primeira Mulher.
[2] O Pai e o Filho uniram-se à Mulher, que eles chamam também Mãe dos Viventes, a qual foi incapaz de suportar e de compreender a grandeza da Luz, que, dizem, transbordou e jorrou do lado esquerdo. Assim somente o Cristo foi o filho deles por ser da direita e para ser criado nas regiões superiores, foi levado com a sua Mãe ao Éon incorruptível. E a verdadeira e santa Igreja é esta: a convocação, a convenção e a união do Pai de todas as coisas, do Primeiro Homem, do Filho Segundo Homem, do Cristo filho deles e da Mulher de que falamos.
[3] Ora, a Potência que jorrou da Mulher, possuindo o orvalho de Luz, se lançou para baixo abandonando os Pais, por sua vontade, levando o orvalho de Luz. Ela é chamada Esquerda, Prunico, Sofia, Macho-Fêmea. Desceu simplesmente às águas tranquilas, agitou-as e desceu arrojadamente aos abismos onde tomou um corpo. Todas as coisas, dizem, acorreram para o orvalho de Luz que havia nela, apegaram-se-lhe e a envolveram de todos os lados; se não tivesse esse orvalho de Luz, seria totalmente absorvida e submergida na matéria.
[4] Presa a este corpo de matéria e muito gravada por ele, foi finalmente tomada de resipiscência e então tentou sair das águas e voltar junto à Mãe, mas não lhe foi possível por causa do peso do corpo que a envolvia. Sentindo-se muito mal, pensou em esconder a Luz do alto, temerosa de que ela também viesse a ser estragada pelos elementos inferiores, como aconteceu com ela. Foi-lhe então comunicada uma força pelo orvalho de Luz que havia nela que a fez saltar e elevar-se às alturas.
[5] Chegada ao alto, desenvolveu-se, cobriu-se e fez este céu visível, tirando-o de seu corpo e permaneceu debaixo dele, num corpo de aparência molhada. Depois, ao desejar a Luz do alto, recebeu nova força que lhe permitiu abandonar o corpo e se ver livre dele. Dizem que se desvestiu do corpo e a chamam Mulher tirada de Mulher.
[6] Afirmam que o filho dela recebeu da Mãe também a aspiração à incorruptibilidade que o fazia agir. Tornado poderoso ele também emitiu das águas, como dizem, um filho sem a Mãe que ele não teria conhecido. E o filho dele, à imitação do Pai, emitiu também um filho; o terceiro, um quarto; o quarto, um quinto; o quinto, um sexto; o sexto, um sétimo, completando-se assim, no dizer deles, a Hebdômada, e a Mãe ocupou o oitavo lugar. Como na geração, assim também eles conservam entre si uma hierarquia na dignidade e no poder.
[7] Eis os nomes que deram a esta mentira: ao primeiro filho da Mãe deram o nome de Jaldabaoth; ao deste, Iao; ao deste, Sabaoth; ao quarto, Adonai; ao quinto, Elohim; ao sexto, Horeu; ao sétimo e último, Astafeu. Estes Céus, Virtudes, Potestades, Anjos e Criadores estão sentados ordenadamente no céu segundo a ordem de geração e, permanecendo invisíveis, governam as coisas celestes e terrestres.
[8] O primeiro deles, Jaldabaoth, desprezou a Mãe por ter gerado filhos e netos sem o seu consentimento, isto é, os Anjos e os Arcanjos, as Virtudes, as Potestades e as Dominações. Mal começaram a existir, estes filhos se voltaram contra ele na peleja e no conflito para disputar o primeiro lugar. Então Jaldabaoth, triste e desanimado, olhou para as escórias da matéria que estava abaixo dele, seu desejo tomou consistência nela, e daí, dizem, lhe nasceu um filho, Nous, contorcido como serpente. Deste procederam os elementos pneumáticos, psíquicos e cósmicos; e depois surgiram o Esquecimento, a Maldade, o Ciúme e a Morte. Este Nous, na forma de serpente contorcida, dizem, perverteu ainda mais o Pai com sua tortuosidade quando estava com o Pai deles no céu, no paraíso.
[9] Jaldabaoth, cheio de contentamento, vangloriava-se motivado por todas estas coisas que lhe estavam submetidas, dizendo: “Eu sou o Pai e Deus, acima de mim não há ninguém”. Ao ouvir isto a Mãe lhe gritou: Não mintas, Jaldabaoth, porque acima de ti há o Pai de todas as coisas, o Primeiro Homem, e o Homem, Filho do Homem. Todos se conturbaram por esta nova voz e pela revelação inopinada e procuraram a sua origem.
[10] Então Jaldabaoth, para desviá-los e atraí-los a si, disse: Vinde, façamos o homem à nossa imagem. Mas as seis Potências, ouvindo isto, juntaram-se e fizeram um homem de largura e altura imensas, conforme a ideia de homem, inspirada nelas pela Mãe, para esvaziá-las com isso de seu poder original.
[11] Como só fosse capaz de se arrastar no solo, levaram-no ao Pai delas, enquanto Sofia encarregava-se da tarefa de eliminar dele o orvalho de Luz, para que, desprovido do poder, não se pudesse mais levantar contra os que lhe estão acima. Enquanto soprava no homem o hálito da vida, sem se aperceber, era-lhe tirado o poder. O homem, porém, possui desde então a inteligência e o pensamento — dizem que é isto que o salvará — e logo agradeceu ao Primeiro Homem, sem se importar com seus Criadores.
[12] Cheio de ciúmes, Jaldabaoth quis então arruinar o homem por meio da mulher, por isso a tirou do pensamento dele; mas Prunico tomou-a e invisivelmente a esvaziou do poder. Os outros se aproximaram, admiraram a sua beleza, deram-lhe o nome de Eva e, apaixonados, geraram dela filhos que, dizem, são os Anjos.
[13] A Mãe deles então procurou por meio da serpente induzir Adão e Eva a desobedecer à ordem de Jaldabaoth. Eva acreditou facilmente, como se tivesse escutado a voz do Filho de Deus, e convenceu Adão a comer do fruto da árvore que Deus lhes proibira comer. Depois de o terem comido, dizem, conheceram a Potência que está acima de todas as coisas e se afastaram de seus Criadores. Prunico, vendo que tinha sido vencido por obra dela, ficou muito contente e gritou novamente que, existindo já um Pai incorruptível, Jaldabaoth mentira ao se atribuir o nome de Pai e que existindo já um Homem e uma Primeira Mulher, pecara ao fazer uma cópia falsificada deles.
[14] Jaldabaoth, porém, por causa do esquecimento em que estava envolvido, não tomou conhecimento destas palavras e afastou Adão e Eva do Paraíso porque tinham infringido a sua ordem. Ele queria que Eva lhe gerasse filhos, mas não o conseguiu, porque a Mãe o contrariava em tudo. Às escondidas, ela esvaziou Adão e Eva do orvalho de Luz para que o Espírito tirado da Potência Suprema não participasse da maldição, nem do opróbrio.
[15] Assim ensinam, que esvaziados da substância divina, foram amaldiçoados por ela e lançados do céu para este mundo. E a serpente que tinha agido contra o Pai foi também lançada no mundo inferior. Submetendo ao seu poder os Anjos que ali estavam, gerou seis filhos para imitar, sendo ela o sétimo elemento, a Hebdômada que está junto ao Pai. E estes são os sete demônios cósmicos que sempre contrariam e obstaculizam o gênero humano, porque foi por causa de Adão e Eva que o Pai deles foi precipitado aqui em baixo.
[16] Adão e Eva, no princípio, tinham corpos leves, luminosos, como que espirituais, porque é assim que foram criados, mas chegados aqui, tornaram-se mais obscuros, gordos e pesados. Também suas almas ficaram moles e lânguidas porque possuíam somente o sopro cósmico recebido do Criador, até que Prunico teve piedade deles e lhes devolveu o suave perfume do orvalho da Luz.
[17] Com ele voltaram a si e descobriram que estavam nus e que tinham corpos materiais, conheceram que traziam em si a morte e se tornaram pacientes, sabendo que este corpo os envolvia temporariamente. Guiados por Sofia, encontraram alimento e, saciados, uniram-se carnalmente e geraram Caim.
[18] Mas a serpente decaída e seus filhos logo se apoderaram dele, perverteram-no, encheram-no de esquecimento cósmico e o lançaram às raias da loucura e da desfaçatez; e ao matar o irmão Abel, foi o primeiro a mostrar o Ciúme e a Morte.
[19] Depois deles, dizem, conforme os planos de Prunico, foram gerados Set e Norea dos quais nasceu a restante multidão dos homens, os quais foram imersos pela Hebdômada inferior em toda espécie de malícia, na apostasia da superior Hebdômada santa, na idolatria, no desprezo de tudo, enquanto a Mãe não parava de contrariá-los invisivelmente para salvar o que lhe pertencia, isto é, o orvalho da Luz.
[20] A Hebdômada santa, dizem que são as sete estrelas, que chamam planetas, e a Serpente decaída tem dois nomes: Miguel e Samael.
[21] Jaldabaoth, irado contra os homens porque não o adoravam e não o honravam como Pai e Deus, enviou-lhes o dilúvio para destruí-los a todos de uma vez. Mas pela oposição de Sofia foram salvos Noé e os que estavam com ele na arca, por causa do orvalho de Luz que vinha dela e graças ao qual este mundo foi novamente enchido de homens.
[22] Dentre estes, o próprio Jaldabaoth escolheu um, Abraão, com quem fez uma aliança: se a sua descendência perseverasse em servi-lo, lhe daria a terra em herança. Depois, por meio de Moisés, tirou do Egito os descendentes de Abraão, deu-lhes uma Lei e fez deles o povo hebreu. Dentre eles escolheu sete deuses que chamam de Hebdômada santa e cada um deles escolheu o seu arauto para o glorificar e anunciar como deus, a fim de que os restantes, ao ouvir essas glorificações, também sirvam aos deuses que os profetas anunciavam.
[23] Eis como distribuem os profetas: de Jaldabaoth eram Moisés, Jesus, filho de Nave, Amós e Habacuc; de Iao: Samuel, Natã, Jonas e Miquéias; de Sabaoth: Elias, Joel e Zacarias; de Adonai: Isaías, Ezequiel, Jeremias e Daniel; de Eloim: Tobias e Ageu; de Hor: Miquéias e Naum; de Astafeu: Esdras e Sofonias.
[24] Cada um deles glorifica o seu Pai e Deus; e a própria Sofia, dizem, através deles manifestou muitas coisas acerca do Primeiro Homem, do Éon incorruptível, do Cristo do alto; prevenindo e lembrando os homens da Luz incorruptível, do Primeiro Homem e da descida do Cristo.
[25] Diante do espanto e da admiração das Potências, causados pelas novidades contidas no anúncio dos profetas, Prunico, agindo por meio de Jaldabaoth e sem que ele se desse conta, fez com que acontecessem duas emissões de homens, um da estéril Isabel e o outro da Virgem Maria.
[26] Mas não encontrando paz nem no céu nem na terra, angustiada invoca a ajuda da Mãe, a Primeira Mulher, que teve compaixão da pena da filha e pediu ao Primeiro Homem que enviasse o Cristo em socorro. Este desceu à irmã em vista do orvalho de Luz.
[27] Tendo sabido que o irmão descia a ela, a Sofia de baixo anunciou esta vinda por meio de João, preparou o batismo de penitência e predispôs Jesus para que o Cristo, na sua vinda, encontrasse um vaso puro e pelo filho de Jaldabaoth a Mulher fosse anunciada por Cristo.
[28] Então o Cristo desceu, passando pelos sete céus, tornando-se semelhante aos seus filhos e esvaziando-os gradualmente do seu poder, porque, dizem, todo o orvalho de Luz acorreu para ele. Ao descer a este mundo, o Cristo se revestiu da irmã Sofia e ambos exultaram e repousaram um no outro; e definem: estes são o Esposo e a Esposa.
[29] Ora, Jesus, por ter nascido de uma Virgem por obra de Deus, era o mais sábio, puro e justo de todos os homens e nele desceu o Cristo unido à Sabedoria: foi assim que se fez Jesus Cristo.
[30] Muitos dos discípulos de Jesus não souberam que o Cristo descera nele. Quando houve esta descida, Jesus começou a fazer milagres e curas, a anunciar o Pai desconhecido e a declarar-se abertamente o Filho do Primeiro Homem. Irritados, os Principados e o Pai de Jesus fizeram de tudo para matá-lo e quando era levado à morte o Cristo e Sofia se retiraram no Éon incorruptível, afirmam eles, e somente Jesus foi crucificado.
[31] Cristo, porém, não se esqueceu do que era seu e do alto enviou a Jesus uma potência que o ressuscitou num corpo que eles dizem ser psíquico e pneumático; os elementos cósmicos, Jesus os abandonou no mundo. Os discípulos, quando o viram depois da ressurreição, não foram capazes de o reconhecer, nem o próprio Jesus ficou sabendo quem o ressuscitara.
[32] Dizem que este foi o erro maior em que caíram os discípulos: o de acreditar que ele tinha ressuscitado no corpo cósmico, porque não sabiam que a carne e o sangue não podem empossar-se do reino dos céus.
[33] O argumento apresentado para explicar a descida e a subida de Cristo é que, segundo os seus discípulos, antes do batismo e depois da ressurreição não fez nada de extraordinário. É que os discípulos não sabiam da união de Jesus com o Cristo e do Éon incorruptível com a Hebdômada e tomaram o corpo psíquico por corpo cósmico.
[34] Jesus ficou com eles por dezoito meses depois da ressurreição e, tendo recebido a compreensão, ensinou o que já era evidente. Mas somente a poucos discípulos, que sabia capazes de mistérios tão grandes, ensinou estas coisas.
[35] Depois disto Jesus foi recebido no céu onde está sentado à direita do Pai Jaldabaoth, para acolher em si, depois que depuseram a carne cósmica, as almas dos que o conheceram. Assim vai-se enriquecendo, sem que o Pai o saiba e nem mesmo o veja, de forma tal que na proporção que Jesus se enriquece com estas almas santas o Pai enfraquece e diminui pela perda do seu poder, por causa destas almas.
[36] E lhe vêm a faltar as almas santas para reenviar a este mundo, restando-lhe somente as que derivam da sua substância, isto é, da sua expiração. A consumação final dar-se-á quando todo o orvalho do espírito de Luz será reunido e levado ao Éon da incorruptibilidade.
[37] Estas são as doutrinas deles, de que surgiu, como hidra de Lerna, a besta das muitas cabeças, que é a escola de Valentim. Alguns dizem que a própria Sofia se transformou em serpente e por isso se levantou contra o Criador de Adão e deu a gnose aos homens e foi julgada a mais sábia de todos.
[38] Até o enrolado dos nossos intestinos pelos quais passa o alimento, por ter esta figura, apresenta escondida em nós a substância geradora da Serpente.

