[1] Quando toda a semente atingir a perfeição, a Mãe deles, Acamot, passará do lugar do Intermediário para entrar no Pleroma e receberá como esposo o Salvador, proveniente de todos os Éões, de modo que se formará a sizígia do Salvador e Sofia‑Acamot.
[2] Eles são o Esposo e a Esposa e o quarto nupcial será todo o Pleroma. Então os pneumáticos, despojados das suas almas e tornados espíritos intelectuais, estarão, incompreensível e invisivelmente, dentro do Pleroma para serem dados como esposas aos Anjos companheiros do Salvador.
[3] O Demiurgo também passará para o lugar da sua Mãe Sofia, isto é, ao Intermediário e também as almas dos justos encontrarão repouso no lugar Intermediário, porque nada de psíquico pode entrar no Pleroma.
[4] Quando isso se realizar, o fogo latente no mundo se atiçará e, envolvendo-o, consumirá toda a matéria, e consumindo-a passará com ela para o nada. Eles asseguram que o Demiurgo não sabia nada de tudo isso antes da vinda do Salvador.
[5] Há dos que dizem também que ele gerou um Cristo, filho seu, mas psíquico, e que falou disso pelos profetas.
[6] É ele que passou por Maria como a água passa por tubo, é ele sobre o qual desceu, no batismo, em forma de pomba, o Salvador que está no Pleroma, proveniente de todos os Éões, é nele que foi depositada a semente pneumática de Acamot.
[7] Portanto, nosso Senhor seria composto, ao que dizem, por quatro elementos, conservando o tipo da Tétrada primigênia e primordial: o pneumático, proveniente de Acamot; o psíquico, do Demiurgo; o econômico, organizado com arte inefável; e o Salvador, que era a pomba que desceu sobre ele.
[8] Ele permaneceu sempre impassível e, portanto, quando o Cristo foi entregue a Pilatos, lhe foi tirado o Espírito, depositado nele. Assim, da mesma forma, não sofreu a semente derivada da Mãe, dizem eles, por ser ela também impassível e por ser pneumática e invisível até para o próprio Demiurgo.
[9] Segundo eles, quem sofreu, no mistério, foi o Cristo psíquico e o econômico: por meio dele, a Mãe manifestava a figura do Cristo do alto, aquele que se estendeu na cruz e que deu a Acamot uma forma substancial.
[10] Com efeito, dizem, as coisas daqui de baixo são o tipo daquelas do alto.
[11] Afirmam eles que as almas que possuíam a semente de Acamot eram melhores do que as outras e, por isso mesmo, mais amadas pelo Demiurgo, ignorando ele o motivo, e por pensar que elas assim o fossem por ser produzidas por ele.
[12] Por isso as distribuiu entre profetas, sacerdotes e reis. Muitas palavras, pensam eles, foram proferidas por esta semente, por meio dos profetas, por ser de natureza superior; também pretendem que a Mãe disse muitas das que se referem às coisas do alto e que outras o foram pelo Demiurgo e pelas almas derivadas dele.
[13] Separam assim as profecias, afirmando que parte delas foram pronunciadas pela Mãe, parte pela semente e parte pelo Demiurgo. Jesus, por sua vez, disse alguma coisa da parte do Salvador, outras da Mãe e outras do Demiurgo, como indicaremos ao longo de nossa exposição.
[14] O Demiurgo, ignorando as coisas do mundo superior a ele, estava admirado pelas palavras em questão; mas não fazia caso delas, atribuindo-lhes ora uma causa ora outra; quer o espírito profético, que age onde lhe apraz, quer o homem, quer mistura de elementos inferiores.
[15] Assim ficou na ignorância até o advento do Salvador, mas com a sua vinda, o Demiurgo aprendeu dele todas as coisas — dizem eles — e se aproximou dele exultando com todas as forças.
[16] Ele seria o centurião do evangelho que disse ao Salvador: “também eu tenho às minhas ordens soldados e servos que cumprem o que eu mandar”.
[17] Ele levará à perfeição o governo do mundo no tempo preestabelecido, sobretudo pela diligência e os cuidados da Igreja e também pelo conhecimento do prêmio que lhe está preparado, isto é, a passagem ao lugar da Mãe.
[18] Distinguem três espécies de homens: pneumáticos, psíquicos e terrenos, como foram Caim, Abel e Set e, a partir deles, querem estabelecer a existência de três naturezas, não nos indivíduos, mas no conjunto do gênero humano.
[19] O terreno acabará na corrupção; o psíquico se escolher o melhor, repousará no Intermediário, mas, se escolher o pior, acabará com os seus semelhantes; os pneumáticos, porém, que Acamot desde então e até agora põe como semente nas almas justas, são aqui educados, desenvolvidos, por serem emitidos bem pequenos, e depois, feitos dignos de perfeição, serão dados em casamento aos Anjos que acompanham o Salvador, enquanto suas almas serão necessariamente refrigeradas no Intermediário com o Demiurgo e eternamente.
[20] Dizem também que as próprias almas se subdividem em duas categorias: as boas por natureza e as más por natureza; são boas as que foram feitas capazes de receber a semente, são más as que, por natureza, nunca a poderão receber.

