[1] Esta é, portanto, a teoria deles, que nem os profetas pregaram, nem o Senhor ensinou, nem os apóstolos transmitiram e pela qual se gloriam de ter conhecimentos melhores e mais abundantes do que os outros. Lêem coisas que não foram escritas e, como se costuma dizer, trançando cordas com areia, procuram acrescentar às suas palavras outras dignas de fé, como as parábolas do Senhor ou os oráculos dos profetas ou as palavras dos apóstolos, para que as suas fantasias não se apresentem sem fundamento.
[2] Descuidam a ordem e o texto das Escrituras e enquanto lhes é possível dissolvem os membros da verdade. Transferem, transformam e fazendo de uma coisa outra seduzem a muitos com as palavras do Senhor atribuídas indevidamente a fantasias inventadas. É como se a um autêntico retrato do rei, realizado cuidadosamente em rico mosaico por hábil artista, alguém desmanchasse a figura de homem e fizesse com as pedras deslocadas e mal dispostas a figura de cão ou de raposa e depois dissesse e confirmasse que aquela era a autêntica imagem do rei feita pelo hábil artista.
[3] Mostrando aquelas mesmas pedras que, bem dispostas pelo primeiro artista, apresentavam a imagem do rei e, mal dispostas pelo segundo artista, transformavam-na em figura de cão, pelo brilho das pedras enganam os simples que não conhecem o aspecto do rei e os convencem que a ridícula imagem da raposa é o autêntico retrato do rei. Assim, costurando fábulas de velhinhas e tomando daqui e dali palavras, sentenças e parábolas, procuram adaptar as palavras de Deus às suas fábulas.
[4] Já falamos do que aplicam aos que estão dentro do Pleroma.
[5] Eis agora o que eles tentam encontrar nas Escrituras acerca dos que estão fora do Pleroma. Dizem que o Senhor veio nestes últimos tempos do mundo para sofrer, a fim de mostrar a paixão do último Éon e, pelo fim dele, manifestar o fim da produção dos Éões.
[6] A menina de doze anos, filha do chefe da sinagoga, sobre a qual o Senhor se curvou ressuscitando-a dos mortos, era, contam eles, o tipo de Acamot, à qual o seu Cristo, debruçando-se, deu forma e a levou a sentir a Luz que a abandonara.
[7] Dizem que o Salvador se mostrou a Acamot quando se encontrava fora do Pleroma, como um aborto, e que a afirmação disso se encontra nas palavras de Paulo na primeira carta aos Coríntios: “Em último lugar, apareceu também a mim, como a um abortivo”.
[8] À vinda do Salvador e de seus companheiros coetâneos a Acamot se referiria na mesma carta ao escrever: “a mulher deve trazer sobre a cabeça o sinal de sua dependência por causa dos Anjos”.
[9] E que quando o Salvador veio a ela, Acamot se cobriu com um véu, por reverência, Moisés o deu a entender quando cobriu a face com véu.
[10] As paixões por ela experimentadas foram indicadas pelo Senhor quando na cruz disse: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” querendo indicar que Sofia foi abandonada pela Luz e impedida pelo Limite de lançar-se para o lugar de antes; foi significada a tristeza quando disse: “minha alma é oprimida pela tristeza”; seu temor, dizendo: “meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice”; a angústia, ao dizer: “Não sei o que direi”.
[11] O Senhor, ensinam eles, também teria indicado as três raças de homens desta forma: a hílica quando respondeu ao que lhe disse: Eu te seguirei, ele respondeu: “O Filho do Homem não tem onde pousar a cabeça”.
[12] A psíquica, quando respondeu ao que lhe dizia: “Eu te seguirei, Senhor, mas permite-me primeiro que me vá despedir dos que estão em minha casa”, ele respondeu: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino de Deus”. Este seria, como dizem, do Intermediário e o outro que confessava ter cumprido grande parte da sua justiça e depois não quis seguir o Salvador, vencido pela riqueza que o impedia de tornar-se perfeito, seria da raça psíquica.
[13] A pneumática, por sua vez, teria indicado quando diz: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos, quanto a ti, vai anunciar o reino de Deus”; e ao publicano Zaqueu: “Desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa”. Estes homens — dizem eles — pertenciam à raça pneumática.
[14] Também a parábola do fermento que a mulher escondeu em três medidas de farinha se refere, segundo eles, às três raças. A mulher é Sofia, as três medidas de farinha são as três raças de homens, pneumáticos, psíquicos e terrenos, e o fermento é o próprio Salvador.
[15] Também Paulo teria falado claramente de homens terrenos, psíquicos e pneumáticos. Num lugar ele diz: “Qual foi o homem terrestre, tais são também os terrestres”; noutro: “O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito”, e noutro ainda: “O homem espiritual julga a respeito de tudo”.
[16] A frase: “O homem psíquico não aceita o que vem do Espírito” é uma referência — segundo eles — ao Demiurgo, que por ser psíquico não conheceu a Mãe, que é pneumática, nem a sua semente, nem os Éões do Pleroma.
[17] Paulo afirma ainda que o Salvador assumiu as primícias dos que salvaria: “E se as primícias são santas a massa também o será”, entendendo como primícias o elemento pneumático e como massa a nós, isto é, a Igreja psíquica de quem assumiu a substância e que faz crescer em si por ser ele o fermento.
[18] Quanto a Acamot, que se degradou fora do Pleroma, que recebeu a forma de Cristo, que foi procurada pelo Salvador, dizem que é isso que o Salvador entendia quando declarou que viera procurar a ovelha desgarrada.
[19] Essa ovelha seria a Mãe deles, da qual derivou a Igreja daqui, o extravio dessa ovelha é a permanência fora do Pleroma com todas as paixões das quais foi formada a matéria.
[20] A mulher que varre a casa e encontra a dracma dizem que é a Sofia do alto que perdeu a sua Entímese e que, mais tarde, a reencontrou quando foram purificadas todas as coisas pelo advento do Salvador, porque ela deve ser reconduzida ao Pleroma.
[21] Simeão, que tomou o Cristo em seus braços e bendisse a Deus, dizendo: “Agora, soberano Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra”, é a figura do Demiurgo que à vinda do Salvador ficou sabendo de sua mudança de lugar e agradeceu ao Abismo.
[22] Quanto à profetisa Ana, de quem no evangelho se diz ter vivido sete anos com seu marido e ter ficado viúva pelo resto da vida, até que viu o Salvador, o reconheceu e falou dele a todos, ela — dizem eles — manifestamente significa Acamot que, após ter visto por pouco tempo o Salvador com seus coetâneos, ficou depois pelo tempo todo no Intermediário à espera da volta dele, para que a reconduzisse à sua sizígia.
[23] O Salvador indicou também o seu nome dizendo: Sofia é justificada por todos os seus filhos; e Paulo: “Nós falamos de Sofia aos perfeitos”.
[24] Dizem que Paulo também falou das sizígias que há no Pleroma quando manifestou uma delas ao escrever sobre o casamento nesta vida: “é grande este mistério: refiro-me à relação entre Cristo e a Igreja”.
[25] Ensinam que também João, o discípulo do Senhor, lembrou a primeira Ogdôada e o dizem com as seguintes expressões: João, o discípulo do Senhor, querendo expor a origem de todas as coisas, isto é, como o Pai tudo produziu, propõe por primeiro Princípio gerado por Deus, quem ainda agora chamam Filho e Deus Unigênito no qual o Pai produziu, em germe, todas as coisas.
[26] Dele, diz João, foi produzido o Logos e nele toda a substância dos Éões, à qual depois o Logos deu a forma. Justamente porque fala da primeira origem ele expõe corretamente a doutrina do Princípio, isto é, de Deus e do Logos.
[27] Ele diz: “No Princípio era o Logos e o Logos estava com Deus e o Logos era Deus. No Princípio ele estava com Deus”. Antes de tudo distingue os três: Deus, Princípio e Logos, depois une-os novamente para indicar a procriação de cada um, isto é, do Filho e do Logos, e a sua união entre si e com o Pai.
[28] O Princípio está de fato no Pai e do Pai; e no Princípio e do Princípio, o Logos. Disse, portanto, corretamente: “No Princípio era o Logos”, de fato estava no Logos, e “o Logos estava com Deus”, assim como estava o Princípio, e o Logos era Deus, por consequência, porque o que nasceu de Deus é Deus.
[29] “No Princípio ele estava com Deus” indica a ordem da emissão. “Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”; de fato, o Logos foi a causa da formação e do nascimento de todos os Éões que vieram depois dele. O que foi feito nele era a vida, ele diz, para manifestar uma sizígia; de fato, “todas as coisas”, diz, “foram feitas por meio dele”, mas a Vida estava nele.
[30] Portanto esta que está nele lhe é mais íntima do que aquela feita por seu meio: ela lhe está unida e frutifica por ele. De fato, João continua: “E a Vida era a Luz dos Homens”. Aqui ao dizer “Homens”, indica com este nome a “Igreja”, para sublinhar com o único nome a comunhão da sizígia.
[31] De Logos e Vida, com efeito, derivam o Homem e a Igreja. João chama a Vida de Luz dos Homens porque foram iluminados por ela, isto é, formados e manifestados. É o mesmo que diz Paulo: “É Luz tudo o que é manifesto”, porque a Vida manifestou e gerou o Homem e a Igreja e por isso é chamada a sua Luz.
[32] João, portanto, com estas palavras, indica claramente, entre outras coisas, a segunda Tétrada: Logos e Vida, Homem e Igreja. Mas indica também a primeira Tétrada.
[33] Falando do Salvador e dizendo que todas as coisas fora do Pleroma foram formadas por ele, diz também que ele é fruto de todo o Pleroma. De fato, ele o chama de Luz que brilhou nas trevas e não foi reconhecido por elas porque, mesmo organizando todos os produtos da paixão, permaneceu desconhecido delas.
[34] João chama ainda este Salvador de Filho, Verdade, Vida e Logos feito carne, do qual vimos a glória, diz ele, e a sua glória era como aquela do Unigênito, aquela que lhe foi dada pelo Pai, cheio de Graça e de Verdade.
[35] Eis as palavras de João: “E o Logos se fez carne e habitou entre nós e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai, como Filho único, cheio de graça e de verdade”.
[36] É, portanto, com exatidão que João falou da primeira Ogdôada, Mãe de todos os Éões com os nomes de Pai e Graça, Unigênito e Verdade, Logos e Vida, Homem e Igreja. E Ptolomeu diz também assim.

