[1] Vês, portanto, amigo caríssimo, as invenções a que põem mãos para seduzir a si mesmos, malversando as Escrituras e os esforços que fazem para dar consistência a seus fantasmas. Foi justamente por isso que transcrevi as suas próprias expressões para que possas julgar por ti mesmo a esperteza de seus artifícios e a malícia do erro. Antes de mais nada, se João tivesse o propósito de indicar a Ogdôada do alto, respeitaria a ordem das emissões. E se, como dizem, a primeira Tétrada é a mais venerável, a teria posto com os primeiros nomes e depois faria seguir a segunda, para indicar, pela sequência dos nomes, a ordem da Ogdôada, e não mencionaria no final a primeira Tétrada, depois de intervalo tão grande como se a tivesse esquecido e a seguir se lembrado improvisamente dela. E se quisesse indicar as sizígias não deixaria de nomear a Igreja; ou se contentaria, nas outras sizígias, de dar o nome dos Éões masculinos, podendo ser subentendidos os femininos, para guardar perfeitamente a unidade; ou então, ao elencar as outras sizígias devia indicar a consorte do Homem e não deixar adivinhar o nome dela.
[2] É clara a arbitrariedade da exegese deles. João proclama um único Deus todo-poderoso e um só Unigênito, Jesus Cristo, por meio do qual foram feitas todas as coisas; dele, diz que é o Verbo de Deus, o Filho único, a origem de todas as coisas, a verdadeira Luz que ilumina todos os homens, o criador do cosmos, aquele que veio para o que era seu, se fez homem e habitou entre nós. Eles, porém, falsificando o texto com exegese capciosa, dizem que pela emissão, outro é o Unigênito, que também chamam Princípio, outro o Salvador, outro o Logos, filho do Unigênito, outro, finalmente, o Cristo, produzido para corrigir o Pleroma. Torcendo toda palavra da Escritura, desviando-a de seu verdadeiro significado, usando nomes de forma arbitrária, adaptando-a às suas teorias de tal forma que em tudo isso João sequer lembra nosso Senhor Jesus Cristo. Ao nomear o Pai e a Graça, o Unigênito e a Verdade, o Logos e a Vida, o Homem e a Igreja, segundo a sua hipótese, falou da primeira Ogdôada, na qual não há Jesus nem Cristo, o mestre de João. Que não fale da sizígia deles, mas de nosso Senhor Jesus Cristo que ele conhece como o Verbo de Deus, o manifestou o próprio Apóstolo. Voltando àquele de quem disse mais acima estar no princípio, isto é, o Verbo, acrescenta: “E o Verbo se fez homem e habitou entre nós”. Ora, segundo a teoria deles, não é o Verbo que se fez carne, porque nunca saiu do Pleroma, mas o Salvador que foi produzido por todos os Éões e é posterior ao Verbo.
[3] Aprendei, portanto, ó insensatos, que Jesus, que sofreu por nós, que habitou entre nós, é ele próprio o Verbo de Deus. Se outro Éon se fizesse homem pela nossa salvação, deveríamos admitir que o Apóstolo falava de outro. Mas se o Verbo do Pai que desceu é o mesmo que subiu, único Filho do único Deus, que se encarnou em favor dos homens, segundo o beneplácito do Pai, então João não fala de Outro nem da Ogdôada, mas do Senhor Jesus Cristo. De fato, segundo eles e falando com propriedade, o Logos não se fez homem, mas o Salvador se revestiu de um corpo psíquico derivado da economia com inenarrável providência, para ser visível e palpável. A carne é a matéria antiga, plasmada da terra por Deus para Adão, e João indicou que é verdadeiramente esta que se tornou o Verbo de Deus. Com isso dissolve-se a sua primeira e fundamental Ogdôada. Uma vez demonstrado que o Logos, o Unigênito, a Vida, a Luz, o Salvador, o Cristo, o Filho de Deus que se encarnou por nós são uma única e idêntica coisa, desfaz-se a composição da Ogdôada e, desfeita esta, cai por terra toda a sua teoria, este sonho fantástico, em defesa da qual retorcem as Escrituras.
[4] Depois de reunir frases e nomes espalhados aqui e acolá, eles os transformam, como dissemos, de um sentido natural a um que não é o seu, fazendo como os que se propõem um argumento e depois procuram encontrá-lo nos versos de Homero, levando os inexpertos a acreditar que Homero compôs os versos precisamente sobre aquela teoria que eles inventaram e, por causa da sequência bem ordenada dos versos, muitos se perguntam se Homero não seria efetivamente o autor daqueles versos.
[5] É como se alguém descrevesse com versos homéricos a missão de Hércules enviado por Euristeu para amarrar o cão infernal. Nada nos impede de usar exemplo como este, porque nos dois casos a argumentação é a mesma: tendo assim ele falado, foi afastado de casa, chorando Hércules, nobre, habituado a façanhas para sempre famosas, por este Euristeu, nascido de Estênelo, raça Perseida, para tirar do Érebo o cão cruel do Hades.
[6] Ele vai como leão montanhês, confiando nas grandes suas forças, celeremente, através da cidade, acompanhado por todos os amigos. As moças solteiras, os jovens e os velhos desafortunados. Sem parar, com choro convulso, como os que vão para a morte. E Hermes ia com eles e a de olhos cerúleos Atena: seu coração lhe dizia a pena que o irmão padecia.
[7] Qual a pessoa simples que não se impressionaria com estes versos e duvidaria que Homero os tenha composto assim como são para falar daquele mito? Mas quem conhece os textos de Homero reconheceria os seus versos, mas não o assunto tratado, porque sabe que alguns deles falam de Ulisses, outros de Hércules, outros de Príamo e outros de Menelau e Agamenon. Se os inserisse cada um no exato lugar da obra de que foram tirados, faria desaparecer o argumento em questão.
[8] Assim, quem possui a indefectível Regra da verdade aprendida no batismo reconhecerá os nomes, as expressões, as parábolas que são das Escrituras, mas não a teoria blasfema deles. Reconhecerá as pedras do mosaico, mas na figura da raposa não verá a imagem do rei. Recolocando cada uma das palavras no seu lugar, ajustadas ao corpo da verdade, desvendará e mostrará a inconsistência das suas fantasias.
[9] Faltando a esta comédia a solução com a qual alguém explique o seu discurso destrutivo, pensamos ser necessário mostrar primeiro em que os autores desta comédia discreparam entre si, inspirados, como são, por diversos espíritos do erro. E daqui pode-se entender, mesmo antes de demonstrá-lo, que a Igreja anuncia a verdade segura e que eles propõem um amontoado de erros.

