[1] Com este quarto livro que te enviamos, ó caríssimo amigo, da obra de denúncia e refutação da pseudognose, confirmaremos com as palavras do Senhor, conforme nossa promessa, o que foi exposto precedentemente, para que, conforme o teu pedido, tenhas, de nossa parte, todos os meios para refutar os hereges e, derrotados, não os deixes afundar no abismo do erro, mas dirigindo-os ao porto da verdade, os faças chegar à salvação.
[2] Quem os quiser converter deve conhecer perfeitamente a doutrina e os argumentos deles, porque não se pode curar um enfermo se não se conhece a doença que o acometeu. Por isso, os nossos predecessores, melhores até do que nós, não puderam responder adequadamente aos discípulos de Valentim, pois não conheciam a doutrina deles, aquela mesma que expusemos diligentemente no primeiro livro que te entregamos, onde demonstrávamos que ela era a recapitulação de todas as heresias.
[3] Por isso, no segundo livro, nós os mantivemos como alvo de toda a nossa refutação; de fato, os que se lhes opõem convenientemente, opõem-se também a todos os detentores de opiniões falsas e quem os refuta, refuta todas as heresias.
[4] Com efeito, a doutrina deles é a mais blasfema de todas, pois dizem que o Autor e Criador do universo, — que é o único Deus, como demonstramos — foi emitido por uma desviação ou por uma degradação.
[5] Mas eles blasfemam também contra o nosso Senhor, separando e distinguindo Jesus do Cristo e o Cristo do Salvador, e ainda o Salvador do Verbo e o Verbo do Unigênito.
[6] E como dizem o Criador ser emitido a partir de uma desviação ou degradação, assim também ensinam que o Cristo e o Espírito Santo foram emitidos por causa desta degradação e que o Salvador é o fruto dos Éões que se encontraram nesta degradação: enfim não há nada neles que não seja blasfêmia.
[7] No livro precedente, portanto, foi mostrado o pensamento dos apóstolos sobre estes pontos e como não somente não pensaram nada disso “os que foram, desde o início, as testemunhas oculares e ministros da palavra da verdade”, mas nos pregaram que se fugisse de tais opiniões, prevendo no Espírito que estes seduziriam os mais simples.
[8] “Como a serpente seduziu Eva”, prometendo-lhe o que ela não possuía, assim estes, a pretexto de gnose mais alta e de mistérios inenarráveis e com a promessa da assunção no seio do Pleroma, levam à morte os que acreditam neles, tornando-os apóstatas daquele que os criou.
[9] O Anjo rebelde, que outrora provocara, por meio da serpente, a desobediência dos homens, julgou fugir aos olhares de Deus e por isso Deus lhe deu aquela forma e aquele nome.
[10] Porém, nestes que são os últimos tempos, o mal se propaga entre os homens não somente tornando os apóstatas, mas ainda blasfemadores contra quem os criou, por meio de muitas maquinações, isto é, por todos os hereges de que falamos.
[11] Todos, com efeito, mesmo provindo de lugares diversos e ensinando doutrinas diferentes, convergem no mesmo propósito blasfemo: ferir mortalmente, ensinando a blasfemar Deus, nosso Criador e Nutridor, e a não crer na salvação do homem.
[12] O homem é composto de alma e de corpo, uma carne formada à imagem de Deus e modelada pelas suas mãos, isto é, pelo Filho e o Espírito, aos quais disse: “Façamos o homem”.
[13] Este é o propósito daquele que inveja a nossa vida: tornar os homens incrédulos da sua salvação e blasfemos contra o Deus que os criou.
[14] Sejam quais forem as declarações solenes que fazem, todos os hereges chegam por fim a isto: a blasfemar o Criador e a negar a salvação desta criação de Deus, que é o homem, pelo qual precisamente o Filho de Deus atuou toda a economia como mostramos de muitos modos, salientando que nenhum outro é chamado Deus pelas Escrituras, a não ser o Pai de todas as coisas, o Filho e os que receberam a adoção filial.
[15] Sendo certo e indiscutível que ninguém mais foi proclamado Deus e Senhor pelo Espírito a não ser o Deus que tem autoridade sobre todas as coisas com o seu Verbo e os que recebem o Espírito de adoção, isto é, os que crêem no verdadeiro Deus e em Cristo Jesus, Filho de Deus; que os apóstolos, por sua vez, nunca chamaram a alguém, por sua conta, de Deus e Senhor; e muito menos nosso Senhor, que nos ordenou não reconhecer ninguém como Pai, a não ser aquele que está nos céus, que é o único Deus e o único Pai, fica claramente provada a falsidade das afirmações de sofistas enganadores e perversos segundo os quais é naturalmente Deus e Pai aquele que eles imaginaram e não o Criador, que não é Deus nem Pai por natureza, e que é chamado assim, por modo de dizer, porque tem autoridade sobre a criação, como dizem esses gramáticos depravados que sofisticam a respeito de Deus, e, repudiando o ensinamento de Cristo e excogitando falsas adivinhações, argumentam contra toda a economia de Deus.
[16] Com efeito, dão o nome de deuses, pais, senhores e até de céus aos seus Éões; e à Mãe, que eles chamam também Terra e Jerusalém, atribuem muitos outros nomes.
[17] Mas quem não entende que se o Senhor tivesse conhecido muitos pais e deuses não teria mandado aos seus discípulos não reconhecer senão um único Deus e chamar somente a este de Pai?
[18] E até distinguiu os assim chamados deuses do verdadeiro Deus para que não se enganassem, seguindo a sua doutrina, em tomar um pelos outros.
[19] Se ele nos tivesse mandado chamar Pai e Deus a um só e depois tivesse reconhecido ora um ora outro como Pai e Deus no mesmo sentido, mostrar-se-ia como mandando uma coisa aos discípulos e ele fazendo o contrário.
[20] Isso não seria próprio de bom mestre, mas de enganador e invejoso.
[21] E os apóstolos, segundo eles, se mostrariam transgressores do mandamento, reconhecendo o Criador como Senhor, Deus e Pai, como demonstramos, se ele não fosse o único Deus e Pai.
[22] Seria para eles a causa desta transgressão o Mestre que lhes prescreveu chamar Pai a um só, obrigando-os a reconhecer o Criador como Pai, como foi mostrado.

