[1] O Senhor mostrou claramente aos seus discípulos que não somente os profetas, mas também muitos justos, conhecendo, por inspiração divina, a sua vinda, pediram que chegasse o tempo em que poderiam ver face a face o seu Senhor e ouvir as suas palavras: “Muitos profetas e justos desejaram ver o que vós vedes e não o viram, e ouvir o que vós ouvis e não o ouviram”.
[2] Como poderiam ter desejado ver e ouvir se não tivessem conhecido de antemão a sua vinda?
[3] E como o poderiam saber antecipadamente se não tivessem recebido dele o anúncio?
[4] E como as Escrituras lhe poderiam dar o testemunho, se um só e único Deus não tivesse, desde sempre, revelado e mostrado todas estas coisas aos que crêem por meio do Verbo, ora conversando com a sua criatura, ora dando-lhe a Lei, ora repreendendo, ora encorajando e finalmente libertando o escravo e tornando-o seu filho e, concedendo-lhe, no tempo oportuno, a herança da incorruptibilidade para a perfeição do homem?
[5] Com efeito ele o fez para o crescimento e desenvolvimento, segundo a palavra da Escritura: “Crescei e multiplicai-vos”.
[6] Nisto Deus difere do homem: Deus faz, o homem é feito.
[7] Aquele que faz é sempre o mesmo e quem é feito tem necessariamente início, meio, aumento e desenvolvimento.
[8] Deus faz o bem, o homem recebe o bem.
[9] Deus é perfeito em tudo, igual e idêntico a si mesmo, é por inteiro luz, pensamento, substância e fonte de todos os bens, enquanto o homem recebe o progredir e o crescer para Deus.
[10] Enquanto Deus é sempre o mesmo, o homem que se encontra em Deus progredirá sempre em direção a Deus.
[11] Deus não cessa de beneficiar e enriquecer o homem e o homem de ser beneficiado e enriquecido por Deus.
[12] O homem agradecido ao seu Criador é o receptáculo da sua bondade e objeto da sua glorificação; o ingrato, que despreza o Criador, é objeto do justo juízo, por ser rebelde ao Verbo de Deus, que prometeu dar sempre mais aos que frutificam ao máximo e possuem capital maior de Deus: “Entra, diz, servo bom e fiel, por que foste fiel no pouco eu te confiarei o muito, entra na alegria do teu Senhor”.
[13] É o mesmo Senhor que fez estas grandes promessas.
[14] Como, portanto, prometeu dar a máxima recompensa a quem agora mais produz por dom da sua graça e não pela mudança do conhecimento — ele fica sempre o mesmo Senhor e sempre o mesmo Pai será revelado —, assim, pela sua vinda, um só e mesmo Senhor deu aos pósteros dom de graça maior que no Antigo Testamento.
[15] Estes ouviram pelos servos que o Rei viria e exultaram de pequena alegria, na proporção de sua expectativa, mas os outros que o viram presente e obtiveram a liberdade e gozaram dos seus dons, provam alegria maior, júbilo mais intenso por gozar da presença do Rei, como diz Davi: “A minha alma exultará no Senhor, e se alegrará na sua salvação.”
[16] Por isso, no seu ingresso em Jerusalém, todos os que se encontravam na rua e que, à semelhança de Davi, o desejavam ardentemente nas suas almas, reconheceram o seu Rei, estenderam os seus mantos abaixo de seus pés e adornaram o caminho com ramos verdes, aclamando com grande exultação e letícia: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana nas alturas!”
[17] Aos invejosos e maus administradores que queriam enganar os inferiores e dominar sobre os fracos e por isso não queriam que o rei viesse, e que lhe diziam: “Ouves o que eles dizem?” o Senhor respondeu: “Não lestes: dos lábios das crianças e dos lactentes preparastes o louvor?”
[18] Demonstrando que o que Davi disse do Filho de Deus se realizava nele e dava a entender que eles não conheciam o sentido das Escrituras, nem a economia de Deus e que ele era o Cristo anunciado pelos profetas, aquele cujo nome é louvado em toda a terra porque o seu Pai “havia preparado um louvor da boca das crianças e dos lactentes”, e por isso a “sua glória elevou-se acima dos céus”.
[19] Se, portanto, veio aquele que foi pregado pelos profetas, Deus e Senhor nosso Jesus Cristo, e se a sua vinda trouxe aos que o receberam graça mais plena e dom maior, está claro que o Pai é o mesmo anunciado pelos profetas, e que o Filho, ao vir, não reconheceu Pai diferente do que foi pregado desde o início.
[20] E que concedeu a liberdade aos que leal, cordial e humildemente o servem.
[21] E aos que, em vista de glória humana, afectavam observar purificações exteriores — concedidas como figura das coisas vindouras, porque a Lei dava, nas coisas temporais, o modelo das eternas e nas terrestres o modelo das celestes — e que nestas práticas afectavam ir além do que fora prescrito, como se movidos por zelo maior do que o de Deus, mas por dentro estavam cheios de hipocrisia, de desejos e de toda malícia, trouxe a ruína definitiva, excluindo-os da vida.

