[1] A tradição dos seus anciãos que afectavam observar como lei, era contrária à Lei dada por Moisés. Por isso Isaías diz: “Os teus taberneiros misturam água ao vinho”, indicando que os anciãos misturavam uma tradição aguada ao mandamento austero de Deus, isto é, adulteravam e contrafaziam a Lei, como o Senhor lhes declarou com estas palavras: “Por que transgredis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição?”
[2] Não somente violaram a Lei pela transgressão, misturando água ao vinho, mas lhe contrapuseram uma lei própria, que até hoje se chama farisaica. Com ela, tiram, acrescentam ou interpretam como querem; coisas que fazem particularmente os seus mestres.
[3] Querendo defender estas tradições, não quiseram submeter-se à Lei de Deus que os preparava para a vinda de Cristo e acusaram o Senhor de operar curas em dia de sábado, o que a Lei não proibia como já dissemos, porque, de certa forma, ela própria curava, prescrevendo a circuncisão naquele dia; mas não acusavam a si mesmos de desobedecer, em nome de sua tradição e de tal lei farisaica, ao mandamento de Deus, o principal, que eles não observavam, de amar a Deus.
[4] O Senhor ensinou que este é o primeiro e maior mandamento e o segundo é o amor ao próximo e que toda a Lei e os profetas dependem destes dois mandamentos. Ele próprio não apresentou nenhum mandamento maior do que este, mas o renovou, mandando aos seus discípulos amar a Deus com todo o seu coração e ao próximo como a si mesmos.
[5] Se ele tivesse vindo de outro Pai, nunca teria assumido da Lei este primeiro e máximo mandamento, mas ter-se-ia esforçado por apresentar outro maior da parte do Pai perfeito e não usar o que fora dado pelo Deus da Lei.
[6] Paulo também diz que a caridade é o cumprimento da Lei, e, enquanto tudo o resto desaparece, permanecem a fé, a esperança e o amor, e o amor é o maior de todos; e o conhecimento sem o amor de Deus não é nada, nem o entendimento dos mistérios, nem a fé, nem a profecia: tudo é vazio e supérfluo sem a caridade.
[7] A caridade torna o homem perfeito e quem ama a Deus é perfeito neste e no outro mundo; porque nunca deixaremos de amar a Deus, mas quanto mais o contemplarmos tanto mais o amaremos.
[8] Visto que tanto na Lei como no Evangelho o primeiro e maior mandamento é o mesmo, isto é, amar ao Senhor Deus com todo o coração, como é o mesmo o segundo, amar o próximo como a si mesmo, fica provado que um só e o mesmo é o Autor da Lei e do Evangelho.
[9] Sendo os mandamentos essenciais da vida, sendo os mesmos nos dois Testamentos, indicam que o mesmo Senhor deu a ambos preceitos particulares apropriados, mas também mandou a ambos as mesmas coisas quando se tratava das coisas mais importantes, essenciais e necessárias à salvação.
[10] Haverá alguém que não ficaria confundido pelo Senhor quando mostrava que a Lei não vinha de outro Deus ao ensinar aos discípulos e à multidão que “sobre a cátedra de Moisés sentaram-se os escribas e os fariseus; observai e cumpri tudo o que vos dizem, mas não façais segundo as suas ações; pois eles dizem e não fazem; amarram pesados fardos e os colocam nos ombros dos homens, mas eles não querem movê-los sequer com um dedo”.
[11] Portanto, não condenava a Lei de Moisés, visto que convidava a observá-la enquanto Jerusalém subsistisse, mas repreendia os que, mesmo proclamando as palavras da Lei, não tinham amor e por isso eram injustos para com Deus e o próximo.
[12] Como diz Isaías: “Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; inutilmente me honram enquanto ensinam doutrinas e preceitos humanos”. Ele não chama de preceitos humanos à Lei de Moisés, mas às tradições de seus sacerdotes; tradições que eles criaram e reivindicaram, frustrando a lei de Deus e por causa disso não se submeteram ao seu Verbo.
[13] Isso é também o que Paulo diz acerca deles: “Ignorando a justiça de Deus e querendo estabelecer sua própria justiça, não se submeteram à justiça de Deus. Fim da Lei é Cristo para a justificação de todo aquele que crê”.
[14] Como o Cristo seria o fim da lei se não fosse também o princípio? Quem a levou ao fim este mesmo realizou o princípio, e é ele que diz a Moisés: “Observei atentamente a opressão do meu povo no Egito e desci para libertá-los”, a fim de indicar que desde o princípio o Verbo de Deus se acostumara a subir e descer para a salvação dos que estavam em más condições.
[15] A Lei ensinara antecipadamente ao homem que devia seguir o Cristo; e ele próprio o manifestou àquele que lhe perguntava o que devia fazer para entrar na vida eterna, dizendo-lhe: “Se quiseres entrar na vida, observa os mandamentos”.
[16] E à sua pergunta: “Quais?” o Senhor respondeu: “Não cometerás adultério; não matarás; não furtarás; não darás falso testemunho; honrarás o pai e a mãe e amarás o próximo como a ti mesmo”; propondo os mandamentos da Lei como degraus para entrar na vida aos que o queriam seguir; porque, ao falar para um, falava para todos.
[17] Quando o outro disse: “Eu fiz tudo” — talvez não tenha feito, pois de outra forma o Senhor não lhe teria dito: “Observa os mandamentos” —, o Senhor, ao censurar-lhe a avareza, disse: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, distribui-o aos pobres, e depois vem e segue-me”.
[18] Ele promete o quinhão dos apóstolos aos que agissem assim, e não anunciava aos que o seguiam Deus diverso do que fora anunciado pela Lei desde o princípio, nem outro Filho, nem Mãe, Entímese do Éon caído na paixão e na degradação, nem o Pleroma dos 30 Éões, que foi demonstrado vazio e inconsistente, nem as outras histórias inventadas pelos hereges; mas ensinava a observar os mandamentos prescritos por Deus desde o início, a destruir com as boas obras a antiga cobiça e a seguir o Cristo.
[19] Que a distribuição aos pobres do que se possui é a solução para eliminar a cobiça antiga, Zaqueu o proclamou explicitamente, dizendo: “Eis que distribuo a metade dos meus bens aos pobres e, se furtei alguma coisa a alguém, restituo o quádruplo”.

