[1] Pelas palavras do Senhor mostra-se que ele não aboliu, mas ampliou e completou os preceitos da lei natural que justifica o homem; preceitos que eram observados, mesmo antes do dom da lei, pelos que eram justificados pela fé e agradavam a Deus.
[2] “Foi dito aos antigos”, ele diz, “Não cometerás adultério. Mas eu vos digo que todo aquele que olhar uma mulher com desejo de possuí-la, já praticou adultério no seu coração”.
[3] E ainda: “Foi dito: ‘não matarás’. Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encolerizar com seu irmão, sem motivo, será réu de juízo”.
[4] Ainda: “Foi dito: não jurarás falso. Eu, porém, vos digo: não jureis de forma alguma. Que a vossa palavra seja: sim sim, e não não”.
[5] E assim a seguir. Estes preceitos não implicam contradição nem abolição dos precedentes, como vão dizendo os seguidores de Marcião, mas o seu completamento e sua ampliação, como o próprio Senhor diz: “Se a vossa justiça não for maior do que a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos céus”.
[6] Em que consiste este ser mais? Primeiramente, em crer não só no Pai, mas também no Filho já manifestado, porque é ele que leva o homem à comunhão e união com Deus.
[7] Em segundo lugar: não somente crer com as palavras, mas atuar — com efeito, eles falavam, mas não cumpriam — não somente em se abster das más ações, mas até do desejo delas.
[8] Ensinava estas coisas não como contrárias à Lei, e sim como completamento e interiorização das prescrições dela em nós.
[9] Contradizer a Lei seria dar ordens aos seus discípulos para fazer tudo o que a Lei proibia, mas, ao contrário, prescrever a abstenção, não somente dos atos proibidos, mas até do seu desejo, não é coisa de quem é contrário ou quer abolir a Lei, como já o demonstramos, senão de alguém que a cumpre, estende e amplifica.
[10] A Lei, imposta a escravos, por meio das coisas temporais externas, educava a alma, conduzindo-a, como presa a uma corrente, à obediência aos mandamentos, para que o homem aprendesse a obedecer a Deus.
[11] Mas o Verbo, libertando a alma, ensinou também a purificar o corpo voluntariamente, por meio dela.
[12] Feito isso, era preciso desamarrar as correntes da escravidão às quais o homem já se acostumara; era preciso que seguisse a Deus, sem correntes; que fossem amplificados os preceitos da liberdade e aumentada a submissão ao Rei, para que ninguém, voltando-se para trás, se mostrasse indigno do seu Libertador.
[13] O respeito e a obediência ao pai de família são os mesmos para os servos e para os filhos, mas os filhos têm confiança maior, pois o serviço da liberdade é maior e mais glorioso do que a docilidade dos servos.
[14] Por isso, o Senhor, em lugar do não cometerás adultério, ordenou não olhar com desejo de possuir; no lugar do não matarás, nem mesmo se encolerizar; em vez de pagar simplesmente o dízimo, distribuir todos os bens aos pobres; amar não somente os próximos, mas também os inimigos; não somente ser generosos e prontos na partilha, mas, ainda mais, dar graciosamente do que é nosso aos que no-lo tiram.
[15] “A quem te tira a túnica deixa também o manto, a quem te tira o que é teu não o reclames; e o que quereis que os homens façam a vós, fazei-o a eles”.
[16] Não nos entristeçamos como quem foi defraudado contra a vontade, mas, ao contrário, alegremo-nos como quem voluntariamente deu, por ter feito dom gratuito ao próximo mais do que ceder a uma necessidade.
[17] “E se alguém, diz ele, te obriga a andar uma milha”, vai com ele mais duas, para que não o sigas como escravo, mas o precedas como homem livre, tornando-te útil a teu próximo em todas as coisas, não olhando para sua malícia e chegando ao mais alto de tua bondade te tornes semelhante ao Pai “que faz o seu sol levantar sobre os maus e os bons e chover sobre os justos e injustos”.
[18] Tudo isso, como já dissemos acima, não é coisa de quem quer abolir a Lei, mas de quem a leva a cumprimento e aperfeiçoa-a em nós.
[19] É como dizer: é maior o serviço da liberdade, que uma submissão e uma piedade mais plenas se enraízam em nós em relação ao nosso libertador.
[20] Com efeito, ele não nos libertou para que nos afastássemos dele — pois ninguém pode procurar para si os alimentos da salvação fora dos bens do Senhor — mas para que, tendo recebido mais abundantemente a sua graça, mais o amemos; e quanto mais o amaremos tanto maior glória receberemos dele quando estaremos para sempre na presença do Pai.
[21] Enquanto todos os preceitos naturais são comuns a nós e a eles, neles tiveram o princípio e a origem, em nós recebem o aumento e o acabamento — obedecer a Deus, seguir o seu Verbo, amá-lo sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos (o homem é o próximo do homem), abster-se de toda má ação, e todos os preceitos semelhantes que são comuns a nós e a eles — demonstram um único e mesmo Deus.
[22] E este Deus é nosso Senhor, o Verbo de Deus que primeiro conduziu os homens a Deus como servos, libertou, em seguida, os que lhe estavam sujeitos, conforme ele mesmo disse a seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vo-lo dei a conhecer”.
[23] Dizendo: “já não vos chamo servos”, mostra bem claro que foi ele que inicialmente impôs aos homens, por meio da Lei, uma servidão para com Deus e que, depois, foi ele também quem lhes deu a liberdade.
[24] Dizendo: “porque o servo não sabe o que faz o seu senhor”, acentua a ignorância do povo escravo sobre a sua vinda.
[25] Finalmente, tornando os seus discípulos amigos de Deus, mostra claramente que ele é o Verbo de Deus, que Abraão seguiu voluntariamente e sem correntes pela generosidade de sua fé, tornando-se “amigo de Deus”.
[26] Mas não foi por causa de indigência que o Verbo de Deus aceitou a amizade de Abraão, porque era perfeito desde o princípio — “Antes que Abraão fosse, eu sou”, ele diz — mas para poder conceder, ele que é bom, a vida eterna a Abraão, porque aos que a obtêm, a amizade de Deus concede a imortalidade.

