[1] Portanto, Deus, no início, não plasmou Adão porque precisava do homem, mas para ter em quem depositar os seus benefícios.
[2] Com efeito, não somente antes de Adão, mas antes de qualquer coisa criada o Verbo glorificava o Pai, ficando nele, e era glorificado pelo Pai, como ele próprio diz: “Pai, glorifica-me com a glória que tive junto de ti antes que o mundo existisse”.
[3] Nem nos mandou segui-lo porque precisasse do nosso serviço, e sim para nos dar a salvação, porque seguir o Salvador é participar à salvação e seguir a luz é obter a luz.
[4] Não são os que estão na luz que a iluminam, mas são eles iluminados e feitos resplandecentes por ela; longe de lhe proporcionar alguma coisa são eles a receber os benefícios e a ser iluminados por ela.
[5] Assim é com o serviço a Deus, nada lhe proporciona nem Deus precisa do serviço dos homens.
[6] Mas aos que o seguem e o servem, Deus concede a vida, a incorrup-tibilidade e a glória eterna.
[7] Ele proporciona seus benefícios aos que o servem porque o servem e aos que o seguem porque o seguem, mas não recebe deles nenhum benefício, porque é rico, perfeito e não precisa de nada.
[8] Se Deus solicita o serviço dos homens é porque, sendo bom e misericordioso, quer beneficiar os que perseveram em seu serviço.
[9] Tanto Deus não precisa de nada quanto o homem precisa da comunhão com Deus.
[10] É esta, pois, a glória do homem: perseverar e permanecer no serviço de Deus.
[11] Por esse motivo dizia o Senhor a seus discípulos: “Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu quem vos escolhi”, mostrando assim que não eram eles que o glorificavam seguindo-o, mas, por terem seguido o Filho de Deus, eram glorificados por ele.
[12] E ainda: “Quero que, onde eu estiver, também eles estejam, para verem a minha glória”, não por presunção vazia, mas pela vontade de que os seus discípulos participassem da sua glória.
[13] É acerca destes que o profeta Isaías diz: “Do oriente reconduzirei a tua descendência e te reunirei do ocidente. Direi ao aquilão: Traze-os! e ao austral: Não os retenhas! Traze-me os filhos de longe e minhas filhas das extremidades da terra, todos os que foram chamados em meu nome. Porque é para minha glória que o preparei, modelei e fiz”.
[14] É isto que significa: “Em qualquer lugar que esteja o cadáver, ali se reunirão as águias”, para participar da glória do Senhor que os modelou e preparou justamente para que, estando com ele, participem da sua glória.
[15] Desde o início Deus modelou o homem em vista de seus dons; escolheu os patriarcas em vista de sua salvação; ia formando o povo, ensinando os ignorantes a seguirem a Deus; preparava os profetas, para acostumar o homem aqui na terra a ser portador de seu Espírito e a ter comunhão com Deus.
[16] Ele, que de nada precisa, oferecia sua comunhão aos que precisavam dele.
[17] Para os que lhe eram agradáveis, desenhava, qual arquiteto, o edifício da salvação; aos que não o viam no Egito, ele mesmo servia de guia; aos turbulentos no deserto dava uma lei perfeitamente adaptada e aos que entravam na boa terra concedia a herança apropriada; e para os que voltavam ao Pai matava o vitelo gordo e dava a melhor roupa.
[18] Assim, de muitas maneiras, Deus preparava o gênero humano em vista da sinfonia da salvação.
[19] Eis por que diz João no Apocalipse: “Sua voz era como o ruído de muitas águas”.
[20] Na verdade, são muitas as águas do Espírito de Deus, porque é muita a riqueza e a grandeza do Pai.
[21] E passando através de todas elas o Verbo concedia com liberalidade sua assistência aos que lhe estavam submetidos, prescrevendo uma lei apta e adequada a toda criatura.
[22] Assim dava ao povo as leis relativas à construção do tabernáculo e à edificação do templo, à escolha dos levitas, aos sacrifícios e oblações, às purificações e a todo o serviço do culto.
[23] Ele próprio não precisava de nada disso; é desde sempre a plenitude de todos os bens e contém em si mesmo todo aroma de suavidade e toda a exalação dos perfumes, antes mesmo de Moisés existir.
[24] Mas educava um povo sempre inclinado a voltar aos ídolos, dispondo-o, por múltiplas etapas, a perseverar no serviço de Deus.
[25] Por meio das coisas secundárias chamava-o às principais, isto é, pelas figurativas às verdadeiras, pelas temporais às eternas, pelas carnais às espirituais e pelas terrenas às celestes, como foi dito a Moisés: “Farás tudo segundo o modelo das coisas que viste na montanha”.
[26] Durante quarenta dias, com efeito, ele aprendeu a reter a palavra de Deus, os caracteres celestes, as imagens espirituais e as figuras das coisas futuras, como também Paulo disse: “Bebiam da rocha espiritual que os acompanhava e a rocha era o Cristo”.
[27] E acrescenta ainda, depois de ter falado dos acontecimentos referidos na Lei: “Todas essas coisas lhes aconteciam em figura e foram escritas para nos servirem de advertência, a nós que chegamos ao fim dos tempos”.
[28] Por meio dessas figuras, portanto, eles aprendiam a temer a Deus e a perseverar em seu serviço.

