[1] E assim a Lei era para eles, ao mesmo tempo, norma de vida e profecia das coisas futuras.
[2] Deus, admoestando-os primeiramente com preceitos naturais, que desde o início estão gravados no coração dos homens, isto é, com o decálogo, que todos devem observar para salvar-se, não pediu mais nada deles, como Moisés diz no Deuteronômio: “Estas são todas as palavras que o Senhor disse a toda a assembléia dos filhos de Israel sobre a montanha, e não lhe acrescentou nada, e escreveu-as em duas tábuas de pedra e mas deu”, justamente para que os que o quisessem seguir observassem os seus mandamentos.
[3] Mas quando se puseram a fabricar o bezerro e, com desejo, voltaram ao Egito, antes querendo ser escravos do que livres, então, de conformidade com seus desejos, receberam escravidão apropriada, que não os separava de Deus, mas os mantinha sob um jugo servil.
[4] Como diz o profeta Ezequiel, explicando os motivos desta lei: “Os seus olhos iam atrás dos desejos de seu coração, e eu lhes dei mandamentos ineficazes e prescrições pelas quais não viveriam”.
[5] E Lucas diz que Estêvão, primeiro diácono eleito pelos apóstolos e primeira vítima pelo seu testemunho a Cristo, falou de Moisés: “Ele recebeu os mandamentos do Deus vivo para dá-los a vós, mas nossos pais se recusaram a lhe obedecer e o rejeitaram e, no seu desejo, voltaram ao Egito, dizendo a Aarão: Faze para nós deuses que nos precedam, porque não sabemos o que aconteceu com este Moisés que nos tirou da terra do Egito.
[6] E, naqueles dias, fizeram um bezerro e ofereceram sacrifícios ao ídolo e se alegravam pela obra de suas mãos.
[7] Então Deus se afastou e os entregou ao serviço dos exércitos do céu, como está escrito no livro dos profetas: Será que não me oferecestes sacrifícios e oblações durante quarenta anos no deserto, ó casa de Israel?
[8] Vós carregastes a tenda de Moloc e a estrela do deus Remfã, imagens que fabricaram para adorar”.
[9] Ele queria manifestar claramente que esta Lei não lhes foi dada por outro Deus, mas pelo mesmo que a adaptou à sua escravidão.
[10] É por isso que ele, no Êxodo, diz ainda a Moisés: “Enviarei o meu anjo diante de ti, eu não subirei contigo, porque és povo de dura cerviz”.
[11] E não somente isto; o Senhor ainda declarou que algumas prescrições lhes foram impostas por Moisés por causa da sua dureza e insubmissão, quando lhe perguntaram: “Por que Moisés prescreveu dar o libelo de repúdio e deixar a mulher?”
[12] Ele disse então: “Ele vo-lo permitiu por causa da dureza do vosso coração; mas no princípio não se fazia assim”.
[13] Ele desculpa Moisés, servo fiel, e reconhece um só Deus, que no princípio criou o homem e a mulher; e os acusa de serem rebeldes; por isso receberam de Moisés o libelo de repúdio que era conveniente com a sua dureza.
[14] Mas por que falar destas coisas do Antigo Testamento, quando no Novo vemos os apóstolos fazer as mesmas coisas, pelos motivos apresentados acima?
[15] Assim, por exemplo, Paulo declara: “Isto, sou eu que o digo, não o Senhor”; e ainda: “Eu digo isso como concessão e não como preceito”.
[16] E ainda: “Quanto às virgens não tenho mandamento do Senhor; mas dou conselho, como quem obteve a misericórdia do Senhor para ser fiel”.
[17] Noutro lugar diz: “Que Satanás não vos tente por causa da vossa incontinência”.
[18] Se, portanto, encontramos também no Novo Testamento que os apóstolos deram alguns preceitos como concessão por causa da incontinência de alguns para que não se obstinassem e, desesperando completamente da sua salvação, não se afastassem de Deus, não nos devemos admirar se, já no Antigo Testamento, o próprio Deus quis fazer alguma coisa parecida para o bem do povo.
[19] Atraía-os com as observâncias citadas anteriormente, para que por meio delas, tendo mordido no anzol salvador do decálogo e sido presos nele, não voltassem à idolatria, não se afastassem de Deus e aprendessem a amá-lo com todo o seu coração.
[20] Se alguém, por causa da indocilidade dos israelitas, tachasse esta Lei de fraqueza, poderia ver que na nossa vocação “há muitos chamados, mas poucos eleitos”; há os que são lobos por dentro enquanto por fora são vestidos de peles de cordeiros; veriam que Deus sempre respeitou o livre-arbítrio do homem, limitando-se a exortá-lo ao bem, de modo que os que tiverem desobedecido sejam julgados com razão por terem desobedecido e os que obedeceram e creram nele sejam coroados com a incorruptibilidade.

