[1] Deus não concedeu a circuncisão como realizadora da justiça, e sim como sinal distintivo, perpétuo da descendência de Abraão.
[2] É o que sabemos pela própria Escritura que diz: “Deus disse a Abraão: entre vós todo macho será circuncidado, e circuncidareis a carne do vosso prepúcio e isto será em sinal de aliança entre mim e vós”.
[3] O profeta Ezequiel diz o mesmo do sábado: “Dei a eles os meus sábados como sinal entre mim e eles, para que saibam que eu sou o Senhor, o que os santifica”.
[4] E no Êxodo Deus diz a Moisés: “Vós observareis também os meus sábados, porque será sinal entre mim e vós nas vossas gerações”.
[5] Estas coisas foram dadas como sinal; não eram, porém, sinais sem sentido nem supérfluos, isto é, sem valor, porque provinham de artista sapiente.
[6] A circuncisão carnal significava a circuncisão espiritual.
[7] Com efeito, diz o Apóstolo: “somos circuncidados com circuncisão não feita pela mão do homem”; e o profeta diz: “Circuncidai a dureza do vosso coração”.
[8] Os sábados ensinavam a perseverança de todo dia no serviço de Deus.
[9] Diz o apóstolo Paulo: “Fomos considerados todo o dia como ovelhas para o sacrifício”, isto é, como consagrados e ministros da nossa fé em todo tempo e perseveramos nela abstendo-nos de toda avareza sem adquirir nem possuir tesouros na terra.
[10] Manifestavam também o descanso de Deus, consecutivo, de certa forma, à criação, isto é, o reino em que o homem que persevera no serviço de Deus repousará e tomará parte à mesa de Deus.
[11] A prova de que o homem não era justificado por causa destas práticas, mas que elas foram dadas ao povo como sinal, se encontra em Abraão, o qual, sem circuncisão e sem observância do sábado, “acreditou em Deus e lhe foi imputado a justiça e foi chamado amigo de Deus”.
[12] Também Lot, mesmo sem circuncisão, foi tirado de Sodoma e salvo por Deus.
[13] Assim Noé, de quem Deus gostava, ainda que sendo incircunciso, recebeu as medidas do mundo do novo nascimento.
[14] E Enoc agradou a Deus mesmo sem circuncisão e, sendo homem, foi embaixador junto aos anjos, foi levado, e permanece até hoje, testemunha do justo juízo de Deus, pelo fato de que os anjos transgressores caíram no juízo e o homem que agradara a Deus foi levado à salvação.
[15] E toda a multidão dos que antes de Abraão foram justos e dos patriarcas anteriores a Moisés que foram justificados sem as práticas supraditas e sem a Lei de Moisés, como no Deuteronômio diz Moisés ao povo: “O Senhor teu Deus estabeleceu a aliança no Horeb; o Senhor não estabeleceu a aliança com vossos pais, mas convosco”.
[16] Por que não firmou a aliança com os pais deles? “Porque a lei não foi estabelecida para os justos”.
[17] Ora, seus pais eram justos; tinham o conteúdo do decálogo gravado em seus corações e em suas almas, pois amavam a Deus que os criara e se abstinham de toda injustiça contra o próximo.
[18] Não precisavam por isso de Escritura que os advertisse, porque tinham em si mesmos a justiça da lei.
[19] Mas, quando essa justiça e esse amor a Deus caíram no esquecimento e se extinguiram no Egito, foi preciso que Deus, por sua grande benevolência para com os homens, se manifestasse de viva voz.
[20] Com seu poder fez sair seu povo do Egito, para que os homens voltassem a ser discípulos e seguidores de Deus e puniu os desobedientes, a fim de que não desprezassem o seu Criador.
[21] Alimentou-os com o maná, para que recebessem alimento espiritual, conforme disse também Moisés no Deuteronômio: “Ele te alimentou com o maná que teus pais não conheciam, para saberes que o homem não viverá só de pão, mas viverá de toda palavra que sai da boca de Deus”.
[22] Prescreveu ainda o amor a Deus e ensinou a justiça para com o próximo, para que o homem não fosse injusto nem indigno de Deus.
[23] Preparava-o assim pelo decálogo para a sua amizade e a concórdia com o próximo; tais coisas eram proveitosas para o próprio homem e Deus nada mais solicitava dele.
[24] Eis por que a Escritura diz: “Esses discursos dirigiu o Senhor a toda a assembléia dos filhos de Israel no monte e não acrescentou mais nada”, porque, como acabamos de dizer, nada mais solicitava deles.
[25] E Moisés diz ainda: “Ora, Israel, o que o Senhor te pede a não ser que temas o Senhor teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, o ames e sirvas ao Senhor teu Deus com todo o coração e com toda a alma?”
[26] Efetivamente, tudo isso enchia de glória o homem, dando-lhe o que lhe faltava, isto é, a amizade de Deus; a Deus, porém, nada acrescentava, pois ele não tinha necessidade do amor do homem.
[27] O homem, porém, estava privado da glória de Deus e só poderia obtê-la por sua submissão a ele.
[28] Eis por que Moisés disse ainda: “Escolhe a vida, a fim de viveres, tu e tua posteridade, amando o Senhor teu Deus, ouvindo a sua voz e aderindo a ele, pois é isto a tua vida e a longevidade de teus dias”.
[29] Preparando o homem para esta vida, o Senhor proclamou por si mesmo as palavras do decálogo para todos sem distinção; por isso elas permanecem entre nós, tendo sido completadas e aumentadas, e não abolidas, por sua vinda na carne.
[30] Pelo contrário, os preceitos da servidão, por intermédio de Moisés, ele os deu separadamente ao povo, como adaptados à sua educação e castigo, conforme disse o próprio Moisés: “O Senhor ordenou-me naquele tempo que vos ensinasse os preceitos e os julgamentos”.
[31] Assim ele aboliu, pela nova aliança da liberdade, os preceitos que lhes havia dado para a servidão e como sinais; mas os preceitos naturais, que convêm a homens livres e são comuns a todos, ele os completou e aperfeiçoou, concedendo aos homens, com suma liberalidade, conhecer a Deus como Pai pela adoção, amá-lo de todo o coração e seguir seu Verbo sem se desviarem, abstendo-se não somente dos atos maus, mas também do desejo deles.
[32] Acrescentou também o temor: com efeito, os filhos devem temer mais que os escravos e ter maior amor pelo Pai.
[33] Por isso o Senhor disse: “Os homens prestarão contas, no dia do juízo, de toda palavra ociosa que tiverem pronunciado”.
[34] E ainda: “Quem olhar uma mulher com desejo de possuí-la, já cometeu adultério no seu coração”.
[35] E ainda: “Quem se irrita sem motivo com seu irmão, será réu de juízo”.
[36] Para que saibamos que prestaremos conta não somente das nossas ações, como escravos, mas também das nossas palavras e pensamentos, como quem recebeu o dom da liberdade, pela qual o homem manifesta se ele respeita, teme e ama o Senhor.
[37] É por isso que Pedro diz que temos a liberdade não para correr um véu diante da malícia, mas como prova e manifestação da nossa fé.

