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[1] Os profetas indicam também fartamente que não foi por precisar dos serviços deles que Deus prescreveu a observância da Lei; e o Senhor, por sua vez, manifestou abertamente que Deus não precisa das oblações dos homens, mas elas são em favor do homem que as oferece. É o que mostraremos.

[2] Quando os via descurar a justiça e afastar-se do amor de Deus e, contudo, imaginar que poderiam tornar Deus favorável por meio dos sacrifícios e das outras observâncias, Samuel lhes dizia assim: “Deus não quer holocaustos e sacrifícios, mas que se escute a sua voz. Eis que a obediência vale mais que os sacrifícios e a docilidade mais que a gordura dos carneiros”.

[3] E Davi, por sua vez, dizia: “Não quiseste sacrifício nem oblação, mas me formaste os ouvidos e não pediste holocaustos pelo pecado”, ensinando que Deus prefere a obediência que os salva aos sacrifícios e holocaustos que nada lhes aproveitam para a justiça, e profetizando, ao mesmo tempo, a nova Aliança.

[4] Mais claramente ainda, no salmo 51, ele diz acerca disso: “Se quisesses o sacrifício eu o teria oferecido; mas tu não te deleitas com holocaustos. O sacrifício para Deus é coração contrito; Deus não desprezará coração contrito e humilhado”.

[5] Que Deus não precisa de nada ele o afirma no salmo precedente: “Não tomarei da tua casa os bezerros nem carneiros dos teus rebanhos, porque são meus todos os animais da terra, os animais das montanhas e os bois; eu conheço todas as aves do céu, e a beleza dos campos é comigo. Quando tenho fome eu não o direi a ti, pois é meu o mundo e a sua plenitude. Comerei eu a carne dos touros ou beberei o sangue dos carneiros?”

[6] E logo a seguir, para que ninguém pense que recusa isso tudo porque está irado, acrescenta, como quem dá conselho: “Imola a Deus sacrifício de louvor e cumpre os votos feitos ao Altíssimo; invoca-me no dia da tribulação e eu te libertarei e te glorificarei”.

[7] Assim, depois de ter recusado aquilo com que pensavam tornar Deus favorável, por causa dos pecados, e de ter mostrado que ele não precisa de nada, aconselha e lembra o que justifica o homem e o aproxima de Deus.

[8] Isaías diz a mesma coisa: “Que me interessa a multidão dos vossos sacrifícios? — diz o Senhor. — Estou farto”.

[9] E depois de ter recusado os holocaustos, os sacrifícios e oblações, as neomênias, os sábados, as festas e toda a série das outras observâncias, continua indicando o que é salutar: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a iniquidade dos vossos corações de diante dos meus olhos; parai com vossas maldades, aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, libertai quem é oprimido pela injustiça, rendei o direito ao órfão e defendei a viúva, e depois, vinde e discutiremos, diz o Senhor”.

[10] Não é por indignação, como muitos têm a ousadia de dizer, que recusa os seus sacrifícios, e sim por compaixão de sua cegueira e para lhes indicar o sacrifício verdadeiro com a oferta do qual se tornariam Deus favorável e obteriam dele a vida.

[11] Como diz em outro lugar: “Sacrifício para Deus é coração contrito; odor de suavidade para Deus é coração que glorifica aquele que o plasmou”.

[12] Se era por indignação que recusava os seus sacrifícios como indignos para obter misericórdia, não lhes teria indicado os meios com que se poderiam salvar. Mas como é misericordioso não os privou de bom conselho.

[13] É assim que, depois de lhes ter dito por boca de Jeremias: “Por que me trazeis o incenso de Sabá e cinamomo de terra longínqua? Os vossos holocaustos e sacrifícios não me agradaram”; acrescentou: “Escutai a palavra do Senhor, vós todos, Judá. Isto diz o Senhor Deus de Israel: Endireitai os vossos caminhos e as vossas intenções e vos fixarei neste lugar. Não vos fieis de palavras mentirosas que não vos ajudarão em nada, dizendo: É o templo do Senhor, é o templo do Senhor”.

[14] Ainda, para indicar que os libertou do Egito não para que lhe oferecessem sacrifícios, mas para que, esquecendo a idolatria dos egípcios, pudessem escutar a voz do Senhor, que era a sua salvação e a sua glória, por meio do mesmo Jeremias diz: “Eis o que diz o Senhor: Ajuntai os vossos holocaustos aos vossos sacrifícios e comei as carnes. Com efeito, não falei aos vossos pais, nem lhes prescrevi nada a respeito de holocaustos e sacrifícios no dia em que os tirei do Egito; mas lhes dei esta ordem, dizendo: Escutai a minha voz, e eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo; andai em todos os meus caminhos que vos prescreverei, para que vos venha o bem”.

[15] “Mas eles não escutaram, nem entenderam; e andaram segundo os pensamentos de seu coração perverso, e voltaram atrás em vez de ir à frente”.

[16] E ainda, por meio do mesmo, disse: “Quem se gloria, glorie-se de entender e de saber que eu sou o Senhor que exerço a misericórdia, a justiça e o juízo na terra”.

[17] E acrescenta: “Porque é nisto que está a minha vontade, diz o Senhor”, e não nos holocaustos, nem nos sacrifícios, nem nas oblações.

[18] O povo não recebeu estas coisas primordialmente, mas como consequência, pelo motivo aduzido acima.

[19] Como ainda diz Isaías: “Não é para mim que são os cordeiros dos teus holocaustos, nem me honraste com os teus sacrifícios; não me homenageaste com teus sacrifícios, nem fizeste nada de cansativo por causa do incenso; não compraste com prata o perfume para mim, nem desejei a gordura dos teus sacrifícios; mas vieste à minha presença com teus pecados e tuas iniquidades”.

[20] “Sobre quem, portanto, — diz — olharei, a não ser sobre o humilde, o pacífico e respeitoso às minhas palavras?”

[21] Porque não são as gorduras e as carnes gordas que eliminarão de ti as tuas injustiças.

[22] “Eis o jejum que eu escolhi, diz o Senhor: desata todo nó de injustiça, desamarra os vínculos de relações violentas, deixa em paz os perturbados e rasga todo contrato iníquo; partilha de boa vontade o teu pão com quem tem fome e introduz na tua casa o peregrino que não tem abrigo; se vires um homem nu, cobre-o e não desprezes os de tua casa e de teu sangue.”

[23] “Então despontará como a aurora a tua luz e o teu bem-estar surgirá mais prontamente, a justiça te precederá e a glória de Deus te envolverá e quando ainda estarás a falar eu direi: eis-me aqui”.

[24] E Zacarias, um dos doze profetas, comunicando-lhes a vontade de Deus, diz: “Eis o que diz o Senhor onipotente: Julgai com justo juízo e cada um pratique a piedade e a misericórdia com seu irmão; não oprimais a viúva e o órfão, o estrangeiro e o pobre; e cada um esqueça no seu coração a malícia de seu irmão”.

[25] E ainda: “Eis as palavras que cumprireis: cada um fale a verdade a seu próximo; fazei julgamentos de paz nas vossas portas e cada um esqueça no seu coração a malícia de seu irmão; detestai o falso juramento, porque eu odeio todas estas coisas, diz o Senhor onipotente”.

[26] Da mesma forma Davi diz: “Qual é o homem que deseja vida e quer ver dias felizes? Refreia a tua língua do mal e teus lábios não falem o engano; evita o mal e faze o bem; procura a paz e vai ao seu encalço”.

[27] Disso tudo fica claro que Deus não lhes pedia sacrifícios e holocaustos, mas fé, obediência e justiça para o bem deles.

[28] Como por meio do profeta Oséias o Senhor lhes mostrava a sua vontade, dizendo: “Quero a misericórdia mais que o sacrifício e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos”.

[29] Também nosso Senhor lhes lembrava: “Se tivésseis entendido o que significa: Quero a misericórdia e não o sacrifício, nunca teríeis condenado os inocentes”, testemunhando assim que os profetas haviam pregado a verdade e culpando a eles de serem estultos por sua culpa.

[30] Aconselhando também aos seus discípulos a oferecerem a Deus as primícias das suas criaturas, não porque precisasse, mas porque eles não se mostrassem inoperosos e ingratos, tomou o pão que deriva da criação, deu graças, dizendo: “Isto é o meu corpo”; do mesmo modo tomou o cálice, que provém, como nós, da criação, o declarou seu sangue e estabeleceu a nova oblação do Novo Testamento.

[31] É esta mesma oblação que a Igreja recebeu dos apóstolos e que, no mundo inteiro, ela oferece a Deus que nos dá o alimento, como primícias dos dons de Deus na Nova Aliança.

[32] Malaquias, um dos doze profetas, a profetizou dizendo: “Não tenho prazer em vós, diz o Senhor onipotente, e não me agrada o sacrifício de vossas mãos; porque do levante ao poente meu nome é glorificado entre as nações e em todo lugar se oferece incenso ao meu nome e sacrifício puro; porque o meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor onipotente”.

[33] Com estas palavras afirma de forma claríssima que o primeiro povo cessaria de oferecer a Deus e que em todo lugar lhe seria oferecido sacrifício puro e que o seu nome seria glorificado entre as nações.

[34] Qual outro nome é glorificado entre as nações a não ser o de nosso Senhor, por meio do qual é glorificado o Pai e glorificado o homem?

[35] Visto que é o nome de seu próprio Filho e que é obra dele, ele o declara seu.

[36] Como um rei que, tendo pintado pessoalmente a imagem de seu filho, a poderia definir sua por dois motivos, porque é a imagem do filho e porque ele a fez, assim acontece com o nome de Jesus Cristo que é glorificado pela Igreja no mundo inteiro: o Pai o declara seu porque é o nome de seu filho e porque ele mesmo o gravou, dando-o para a salvação dos homens.

[37] Portanto, sendo o nome do Filho próprio do Pai e, em todo lugar, a Igreja oferece ao Deus onipotente por Jesus Cristo, pelos dois motivos diz justamente: “Em todo lugar é oferecido incenso ao meu nome e um sacrifício puro”.

[38] João diz no Apocalipse que o incenso são as orações dos santos.

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