[1] Sacrifício puro e aceito por Deus é a oblação da Igreja, tal como o Senhor lhe ensinou a oferecer em todo o mundo. Não por necessitar de nosso sacrifício, e sim porque o ofertante se enche de glória quando o seu dom é aceito.
[2] Pela dádiva a um rei manifesta-se a homenagem e a afeição. Querendo o Senhor que, com simplicidade e inocência, oferecêssemos nossos dons, deu-nos o preceito: “Se estás para fazer tua oferta diante do altar e te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão: só então, vem fazer a tua oferta”.
[3] Faz-se, pois, mister oferecer a Deus as primícias de suas criaturas, como Moisés também já dissera: “Não te apresentarás de mãos vazias diante do Senhor teu Deus”.
[4] Quando o homem quer manifestar a Deus a sua gratidão, oferece-lhe os próprios dons por ele mesmo dados e recebe a honra que dele provém.
[5] Nenhuma das oblações é rejeitada: oblações lá e oblações aqui; sacrifícios entre o povo, sacrifícios na Igreja. A forma, porém, de tal maneira mudou, que já não são oferecidos por servos, e sim por filhos.
[6] Um só e o mesmo é o Senhor; há, contudo, o caráter próprio da oblação servil, há o próprio da oblação dos filhos, de modo que as oblações são sinal da liberdade possuída. Para Deus não há nada vão, nem sem significado ou sem motivo.
[7] Por isso, o seu povo lhe consagrava os dízimos. Mas, depois, os que receberam a graça da liberdade põem à disposição do Senhor tudo o que possuem, dando com alegria e generosidade não apenas as coisas de menor valor, pela esperança que têm das maiores; como aquela viúva tão pobre que pôs no cofre de Deus tudo o que possuía.
[8] No princípio Deus olhou para os dons de Abel porque eram oferecidos com sinceridade e justiça; mas não olhou para o sacrifício de Caim, porque havia duplicidade no seu coração: inveja e malícia contra o seu irmão.
[9] Manifestando os seus pensamentos ocultos, o Senhor lhe dizia: “Se mesmo oferecendo com retidão, não partilhas com retidão, como não pecaste? Acalma-te”, porque Deus não se aplaca com o sacrifício.
[10] Se alguém quiser oferecer com pureza, retidão e exatidão só aparentes, mas na sua alma não partilha a comunhão com o seu próximo e não tem o temor de Deus, não engana a Deus oferecendo o sacrifício com exatidão exterior tendo dentro de si o pecado.
[11] Não será esta oferta a aproveitar alguma coisa a tal homem, mas a eliminação do mal concebido dentro dele, para que com um ato insincero, o pecado não torne o homem suicida.
[12] Por isso o Senhor dizia: “Ai de vós escribas e fariseus hipócritas; vós sois como sepulcros caiados; por fora parecem belos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e de toda podridão. Assim também vós, por fora pareceis justos diante dos homens, mas por dentro estais cheios de malícia e hipocrisia”.
[13] Quando externamente eles pareciam oferecer com retidão, tinham dentro de si ciúme semelhante ao de Caim: assim mataram o Justo, recusando o conselho do Verbo, a exemplo de Caim.
[14] Ele lhe diz: “Acalma-te!” mas ele não consentiu. O que era acalmar-se? Nada mais do que dominar o impulso do momento.
[15] Ele lhes diz também: “Fariseu cego, limpa o interior da taça para que também o exterior seja limpo”. Mas eles não o escutaram.
[16] “Porque eis que — diz Jeremias — os teus olhos e o teu coração não são bons; mas a tua paixão vai para o sangue justo a fim de o derramar, para a injustiça e o homicídio a fim de os perpetrar”.
[17] E ainda Isaías: “Vós vos aconselhastes, mas não comigo; fizestes pactos, mas não com o meu Espírito”.
[18] Portanto, para que as suas vontades e pensamentos íntimos, levados ao conhecimento de todos, mostrassem que Deus não faz o mal — porque manifesta o que é secreto, mas não faz o mal —, diz a Caim, que não se acalmava: “Eis que vem a ti, e tu o dominarás”.
[19] A Pilatos também dizia da mesma forma: “Não terias nenhum poder sobre mim, se não te fosse dado do alto”.
[20] Porque Deus sempre permite que o justo, nos sofrimentos pacientemente enfrentados, seja provado e recebido e os outros, por causa dos seus delitos, sejam condenados e lançados fora.
[21] Portanto, os sacrifícios não santificam o homem, pois Deus não precisa de sacrifício, mas a consciência de quem oferece santifica o sacrifício, se é pura faz com que Deus o aceite como provindo de amigo.
[22] “Pecador, porém — diz —, é quem mata para mim um bezerro como mataria um cão”.
[23] Porque a Igreja oferece com simplicidade, justamente foi julgado puro junto de Deus o seu sacrifício. Como Paulo diz aos filipenses: “Tenho em abundância agora que recebi de Epafródito o que vós me enviastes, fragrância suave, sacrifício agradável que Deus aceita”.
[24] Cumpre, então, fazermos oblações a Deus e em tudo sermos gratos ao Criador, com mente pura e fé sincera, na firme esperança, na caridade fervorosa, oferecendo-lhe as primícias da criação, criação que lhe pertence.
[25] E a Igreja é a única a fazer ao Criador esta oblação pura, oferecendo-a com ação de graças por meio de suas mesmas criaturas.
[26] Os judeus já não oferecem: suas mãos estão cheias de sangue, porque não receberam o Verbo pelo qual é oferecido a Deus, como não o oferecem todas as assembléias dos hereges.
[27] Com efeito, alguns dizem que o Pai é diverso do Criador e ao lhe oferecer dons tirados do mundo criado, provam que ele é ávido e desejoso do bem alheio; outros dizem que o nosso mundo derivou de degradação, ignorância e paixão, e então, oferecendo os frutos desta paixão, ignorância e degradação ofendem o Pai e lhe fazem mais injúria do que dar-lhe ação de graças.
[28] Como poderão ter certeza de que o pão sobre o qual foram dadas graças é o corpo do Senhor e a taça de vinho o seu sangue se não o reconhecem como Filho do Criador do mundo, isto é, o seu Verbo pelo qual o lenho frutifica, brotam as fontes e “a terra dá primeiramente a erva, depois a espiga e por fim a espiga cheia de trigo?”
[29] Como ainda podem afirmar que a carne se corrompe e não pode participar da vida, quando ela se alimenta do corpo e do sangue do Senhor?
[30] Então, ou mudam sua maneira de pensar ou se abstenham de oferecer as ofertas de que falamos acima.
[31] Quanto a nós, nossa maneira de pensar está de acordo com a Eucaristia e a Eucaristia confirma nossa doutrina.
[32] Pois lhe oferecemos o que já é seu, proclamando, como é justo, a comunhão e a unidade da carne e do Espírito.
[33] Assim como o pão que vem da terra, ao receber a invocação de Deus, já não é pão comum, mas a Eucaristia, feita de dois elementos, o terreno e o celeste, do mesmo modo os nossos corpos, por receberem a Eucaristia, já não são corruptíveis por terem a esperança da ressurreição.
[34] A nossa oferta a ele não é como para indigente, mas é agradecimento pelos seus dons e pela santificação da criação.
[35] Deus não precisa das nossas ofertas, mas nós precisamos oferecer alguma coisa a Deus, como diz Salomão: “Quem tem compaixão do pobre empresta a Deus”.
[36] O Deus que não precisa de nada aceita as nossas boas obras para poder dar-nos de volta os seus próprios bens.
[37] Como diz o Senhor: “Vinde, benditos de meu Pai, recebei o reino preparado para vós: porque eu tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; doente e me visitastes; prisioneiro e viestes a mim”.
[38] Ele não precisa destas coisas, contudo quer que as façamos para o nosso bem, a fim de não sermos infrutuosos; e o próprio Verbo prescreveu ao povo que faça as oblações, embora não precisasse delas, para que aprendessem a servir a Deus, como quer que nós também ofereçamos continuamente e sem interrupção nossos dons no altar.
[39] Há, portanto, altar nos céus, aonde sobem as nossas preces e oferendas; e há templo, como diz João no Apocalipse: “Abriu-se o templo de Deus”; e tabernáculo: “Eis — diz — o tabernáculo de Deus, no qual habitará com os homens”.

