[1] Moisés, recapitulando no Deuteronômio toda a Lei recebida pelo Demiurgo, diz assim: “Presta atenção, ó céu, e falarei, e a terra escute as palavras da minha boca”; por sua vez Davi diz que o socorro lhe vem do Senhor: “O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”; e Isaías diz falar da parte daquele que fez o céu e a terra e tem autoridade sobre eles: “Escuta, ó céu, e tu, terra, presta ouvidos, porque o Senhor falou”; e ainda: “Assim fala o Senhor Deus que fez o céu e o firmou, que estabeleceu a terra e o que ela contém, que dá a vida aos que estão na terra e o Espírito aos que a pisam”.
[2] Por sua vez, nosso Senhor Jesus Cristo reconhece este mesmo Criador como seu Pai, quando diz: “Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra”. Que Pai devemos entender segundo estes perversíssimos sofistas de Pandora? O Abismo por eles inventado, ou a Mãe deles, ou o Unigênito? Ou talvez o Deus falsamente imaginado por Marcião e os outros, que nós provamos longamente não ser Deus, ou — o que é a verdade — o Criador do céu e da terra, pregado pelos profetas, reconhecido por Cristo como Pai, anunciado pela Lei nas palavras: “Escuta, Israel, o Senhor teu Deus é o único Senhor?”
[3] Que os escritos de Moisés são as palavras do Cristo ele próprio o diz, assim como João refere no seu Evangelho: “Se tivésseis crido em Moisés teríeis também crido em mim, porque é a meu respeito que ele escreveu; mas se não credes nos seus escritos não crereis nas minhas palavras”, indicando clarissimamente que os escritos de Moisés são suas próprias palavras.
[4] E se o são as de Moisés, sem dúvida são também suas as palavras dos outros profetas, como demonstramos. Ainda o próprio Senhor declarou que Abraão disse ao rico acerca dos homens que ainda viviam: “Se não escutam Moisés e os profetas não acreditariam tampouco se fosse a eles alguém ressuscitado dos mortos”.
[5] Com isso ele não quis somente contar a história de um pobre e de um rico, mas, antes de tudo, ele nos quis ensinar que ninguém deve passar a vida nas volúpias, nos deleites seculares, na boa mesa e esquecer a Deus: “Havia, diz ele, um rico que se vestia de púrpura e linho fino e se deleitava em suntuosos banquetes”.
[6] O Espírito já dissera pela boca do profeta Isaías ao falar deste tipo de pessoas: “Porque ao som das cítaras e das harpas, dos tamborins e das flautas tomam o vinho, mas eles não olham as obras de Deus e não vêem a obra de suas mãos”.
[7] Para não cairmos nas mesmas penas com eles, o Senhor nos mostra o seu fim e nos dá a entender que se escutassem Moisés e os profetas acreditariam também no que eles anunciaram, o Filho de Deus, ressuscitado dos mortos e doador da vida; e ensina que todas as coisas derivam de uma só substância, tanto Abraão, Moisés e os profetas como o próprio Senhor, que ressuscitou dos mortos e no qual acreditam muitos circuncidados que escutam Moisés e os profetas que anunciam a vinda do Filho de Deus.
[8] Quanto aos que o desprezam e dizem derivar de outra substância, eles não o reconhecem como o primogênito dos mortos, pois concebem como que dois seres separados, um Cristo que ficou para sempre impassível e um Jesus que sofreu a paixão.
[9] O Pai não lhes concede conhecer o Filho nem aprendem a conhecer o Pai pelo Filho que ensina abertamente e sem parábolas o verdadeiro Deus: “Não jureis por nada — ele diz — nem pelo céu que é o trono de Deus, nem pela terra que é o escabelo de seus pés, nem por Jerusalém que é a cidade do grande Rei”. Estas palavras designam claramente o Criador, como já dizia Isaías: “O céu é o meu trono e a terra é o escabelo dos meus pés”.
[10] E, fora ele, não existe outro Deus, porque não seria reconhecido como Deus, nem por grande Rei, pelo Senhor, porque tal dignidade não admite comparação nem superioridade; quem tem acima de si superior e se encontra em poder de outro, não pode ser chamado grande Rei nem Deus.
[11] Nem poderão dizer que estas expressões são metafóricas, porque, pelas próprias palavras se devem convencer que devem ser entendidas em sentido próprio. Com efeito, era a própria Verdade que falava e reivindicava verdadeiramente a sua casa, quando afastava dela os trocadores que compravam e vendiam moedas, dizendo-lhes: Está escrito: “A minha casa será chamada casa de oração, mas vós fizestes dela covil de ladrões”.
[12] Qual motivo poderia ter para agir e falar daquele modo, reivindicando a casa como sua, se anunciasse outro Deus? Mas com isso ele os queria denunciar como transgressores da Lei do seu Pai, pois não incriminava a casa, nem condenava a Lei que ele veio completar, e sim repreendia os que não usavam bem da casa e violavam a Lei.
[13] Por isso, os escribas e os fariseus, que desde os tempos da Lei começaram a menosprezar Deus, também não receberam o seu Verbo, isto é, não creram no Cristo. Isaías dizia deles: “Eles são indóceis, são companheiros de ladrões; gostam de presentes, vão atrás de propinas; não fazem justiça aos órfãos e não tratam dos processos das viúvas”.
[14] Da mesma forma fala Jeremias: “Os chefes de meu povo não me conheciam; são filhos insensatos e imprudentes; hábeis em fazer o mal, não souberam fazer o bem”.
[15] Todos aqueles, porém, que temiam a Deus e eram zelosos em praticar a Lei, acorreram ao Cristo e foram todos salvos: “Ide — dizia a seus discípulos — às ovelhas perdidas da casa de Israel”.
[16] Também se diz dos samaritanos que, tendo permanecido por dois dias com eles, foram muito mais os que creram por causa das suas palavras e diziam à mulher: “Já não cremos pela tua conversa: nós próprios escutamos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo”.
[17] E Paulo, por sua vez, diz: “E assim todo Israel será salvo”.
[18] E mais, ele diz que a Lei é o nosso pedagogo que nos leva ao Cristo. Não se culpe a Lei como causa da incredulidade de alguns! A Lei não os impedia de crer no Filho de Deus, até os convidava, dizendo que os homens não podiam ser curados da antiga ferida da serpente senão crendo naquele que, elevado da terra no lenho do martírio, na semelhança da carne do pecado, atrai a si e vivifica os mortos.

