Skip to main content
search

[1] Portanto, não se pode conhecer a grandeza de Deus porque é impossível medir o Pai; mas, segundo o seu amor — visto ser este que nos leva a Deus, por meio de seu Verbo —, os que lhe obedecem sempre aprendem que existe um Deus tão grande, que é ele que de per si criou, fez, harmonizou e contém todas as coisas, e, entre todas elas, nós mesmos e o nosso mundo.

[2] Também nós, portanto, fomos criados por ele com tudo o que o mundo encerra.

[3] E é dele que a Escritura afirma: “Deus plasmou o homem tirando-o do lodo e soprando-lhe no rosto o hálito da vida”.

[4] Portanto, não foram os anjos que nos plasmaram — os anjos não poderiam fazer uma imagem de Deus — nem outro qualquer que não fosse o Deus verdadeiro, nem uma Potência que estivesse afastada do Pai de todas as coisas.

[5] Nem Deus precisava deles para fazer o que em si mesmo já tinha decretado fazer, como se ele não tivesse suas próprias mãos.

[6] Desde sempre, de fato, ele tem junto de si o Verbo e a Sabedoria, o Filho e o Espírito.

[7] É por meio deles e neles que fez todas as coisas, soberanamente e com toda liberdade, e é a eles que se dirige, quando diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, tirando de si mesmo a substância das criaturas, o modelo daquilo que fez e a forma dos adornos do mundo.

[8] Bem se expressou o escrito que diz: “Antes de tudo crê que existe um só Deus que criou, harmonizou e fez existir todas as coisas a partir do nada; que tudo contém e que não é contido por nada”.

[9] Dentre os profetas também Malaquias diz justamente: “Não é um só o Deus que nos criou?” “Não é um só o Pai de todos nós?”

[10] Por conseguinte, o Apóstolo diz: “Há um só Deus que está acima de todos e em todos nós”.

[11] Também o Senhor diz de maneira semelhante: “Todas as coisas me foram entregues por meu Pai”; evidentemente pelo que fez todas as coisas, e lhe deu não as coisas dos outros, mas as suas próprias.

[12] Ora, no “todas as coisas” nada é excetuado, e é por isso que ele é o juiz dos vivos e dos mortos, “que tem a chave de Davi: abrirá e ninguém fechará; fechará e ninguém abrirá”.

[13] “Nenhum outro, com efeito, pôde abrir o livro” do Pai, “nem no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, exceto o Cordeiro que foi imolado” e que “nos remiu no seu sangue”, depois de ter recebido de Deus, que fez todas as coisas por meio de seu Verbo e as harmonizou com sua Sabedoria, o poder sobre todas as coisas, quando o Verbo se fez carne.

[14] E assim como detinha o primeiro lugar no céu, por ser o Verbo de Deus, também obteve a primazia na terra, por ser homem justo, “aquele que não cometeu o pecado e em cuja boca não há fraude”, e também entre os que estão debaixo da terra, tornando-se o primogênito dos mortos; de forma que todas as coisas, como já dissemos, viram o seu Rei.

[15] E finalmente porque viesse na carne de nosso Senhor a luz do Pai e brilhando descesse até nós, e assim o homem pudesse chegar à incorrupção, envolvido que era na luz paterna.

[16] Que antes que houvesse a criação o Verbo, isto é, o Filho, sempre estivesse com o Pai, demonstramo-lo amplamente; como também estava a Sabedoria, que outro não é senão o Espírito.

[17] É o que nos diz pela boca de Salomão: “Deus, pela sabedoria, fundou a terra; pela inteligência preparou o céu; pela sua ciência os abismos jorraram as fontes e as nuvens destilaram o seu orvalho”.

[18] E ainda: “O Senhor criou-me como princípio de seus caminhos, em vista de suas obras; antes dos séculos me fundou; no princípio, antes de fundar a terra, antes de fazer os abismos, antes de as fontes começarem a jorrar água, antes de firmar os montes, ele me gerou”.

[19] E ainda: “Quando preparava o céu eu estava com ele, quando fixava as fontes dos abismos e consolidava os fundamentos da terra, eu estava com ele, ajeitando. Era aquela em que ele se alegrava e todo dia eu me deliciava diante de sua face, por todo o tempo, quando se alegrava por ter acabado o mundo e se deliciava entre os filhos dos homens”.

[20] Há um só Deus que por sua palavra e sabedoria fez e harmonizou todas as coisas.

[21] É ele o Criador, é ele que destinou este mundo ao gênero humano.

[22] Pela sua grandeza é desconhecido por todos os seres criados por ele — ninguém, tanto dos antigos quanto dos modernos, investigou a sua profundidade —; pelo seu amor, contudo, é conhecido, desde sempre, por aquele por quem criou todas as coisas, e este é o seu Verbo, nosso Senhor Jesus Cristo, que nos últimos tempos se fez homem entre os homens, para unir o fim ao princípio, isto é, o homem a Deus.

[23] Eis por que os profetas, tendo recebido desta mesma Palavra o carisma profético, anunciaram a sua vinda segundo a carne e por essa vinda se realizaram a união e comunhão de Deus e do homem, conforme a vontade do Pai.

[24] Desde o início a Palavra de Deus havia prenunciado que Deus seria visto pelos homens: viveria e conversaria com eles na terra, estaria presente à sua criação, para salvá-la e ser percebido por ela, “livrando-nos das mãos de todos os que nos odeiam”, isto é, de todo espírito de pecado e fazendo-nos “servi-lo na santidade e na justiça todos os nossos dias” para que, unido ao Espírito de Deus, o homem tenha acesso à glória do Pai.

[25] Os profetas anunciaram tudo isso de maneira profética, mas não era outro aquele que era visto por eles, como pretendem alguns, por ser invisível o Pai de todas as coisas.

[26] Assim falam os que desconhecem completamente o que é a profecia.

[27] A profecia é anúncio do futuro, isto é, predição das coisas que acontecerão.

[28] Os profetas predisseram, pois, que Deus seria visto pelos homens, conforme o que diz também o Senhor: “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus”.

[29] Contudo, segundo sua grandeza e sua glória inexprimível, ninguém poderá ver a Deus e continuar a viver, porque o Pai é inatingível; mas segundo o seu amor, sua bondade e onipotência, ele chega a conceder aos que o amam o dom de ver a Deus, que os profetas anunciavam, pois o que é impossível aos homens é possível a Deus.

[30] Por si mesmo o homem não poderá ver a Deus; mas ele, se quiser, será visto pelos homens, pelos que quiser, quando e como quiser.

[31] Porque Deus tudo pode: visto outrora segundo o profetismo por meio do Espírito, visto segundo a adoção, pela mediação do Filho, será visto ainda no reino dos céus segundo sua paternidade.

[32] O Espírito prepara o homem para o Filho de Deus, o Filho o conduz ao Pai e o Pai lhe concede a incorruptibilidade e a vida eterna, que decorrem da visão de Deus.

[33] Assim como os que vêem a luz estão na luz e recebem seu esplendor, também os que vêem a Deus estão em Deus e recebem seu esplendor.

[34] O esplendor de Deus vivifica: portanto, os que vêem a Deus recebem a vida.

[35] Por isso aquele que é inacessível, incompreensível e invisível torna-se visível, compreensível e acessível aos homens.

[36] Como é insondável sua grandeza, também é inexprimível a sua bondade, pela qual se torna visível e dá a vida aos que o vêem.

[37] É impossível viver sem a vida e não há vida senão pela participação em Deus, e a participação de Deus consiste em ver a Deus e gozar da sua bondade.

[38] Os homens, portanto, verão a Deus para viver, tornando-se imortais por tal visão e alcançando a Deus.

[39] Isto era expresso de maneira figurativa pelos profetas, como já disse, isto é, que Deus será visto pelos homens que possuem o seu Espírito e esperam, sem cessar, a sua vinda.

[40] Como Moisés diz no Deuteronômio: “Neste dia veremos que Deus fala ao homem e este viverá”.

[41] Alguns deles viam o Espírito profético e a sua atividade em toda espécie de carismas; outros viam a vinda do Senhor e a economia primordial segundo a qual cumpriu a vontade do Pai, tanto no céu como na terra; outros ainda viam as manifestações gloriosas do Pai, adaptadas aos tempos, aos homens que então viam e ouviam e aos que o ouviriam depois.

[42] Essa era a maneira com que Deus se manifestava: porque, por meio de tudo isso era o Pai que se dava a conhecer, pelas obras do Espírito, pelo ministério prestado pelo Filho, pela aprovação do Pai e pelo homem, tornado perfeito, em vista da sua salvação.

[43] Como diz por meio do profeta Oséias: “Eu multipliquei as visões e fui representado pelas mãos dos profetas”.

[44] O Apóstolo expôs as mesmas coisas quando disse: “Há diversidades de carismas, mas é o mesmo Espírito; há diversidades de ministérios, mas é o mesmo Senhor; há diversidades de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos: a cada um é dada a manifestação do Espírito conforme a utilidade”.

[45] Aquele que opera tudo em todos, é invisível e inexprimível na sua natureza e grandeza por todos os seres feitos por ele, contudo não é completamente desconhecido: pelo Verbo todos podem aprender que há um só Deus Pai, que contém todas as coisas e dá a existência a todas, como está escrito no Evangelho: “Nunca ninguém viu a Deus, a não ser o Filho Unigênito que está no seio do Pai: ele o revelou”.

[46] Desde o princípio o Filho é o revelador do Pai porque está com o Pai desde o princípio e manifesta ao gênero humano as visões proféticas, os diversos carismas, os ministérios e a glória do Pai gradual e tempestivamente segundo a utilidade.

[47] Onde há sucessão há continuidade, onde há continuidade há tempestividade, onde há tempestividade há utilidade.

[48] Por isso o Verbo se tornou dispensador da glória do Pai pela utilidade dos homens para os quais dispôs economias tão grandes, para mostrar Deus ao homem e presentear o homem a Deus.

[49] Ele mantém a invisibilidade do Pai para que o homem não venha a desprezar a Deus e tenha sempre motivo de progredir; mas ao mesmo tempo torna Deus visível por meio de muitas economias, para que o homem privado totalmente de Deus não deixe de existir.

[50] Glória de Deus é o homem que vive e a vida do homem consiste na visão de Deus.

[51] Se a manifestação de Deus por meio da criação dá a vida a todos os seres que vivem na terra, com maior razão a manifestação do Pai pelo Verbo dá a vida aos que vêem a Deus.

[52] Já que o Espírito de Deus anunciava o futuro por meio dos profetas para nos preparar e predispor à submissão a Deus, e que este futuro importava que o homem, pelo beneplácito do Pai, visse a Deus, era necessário que aqueles pelos quais era predito o futuro vissem esse Deus que apontavam à contemplação dos homens.

[53] Para que não fosse conhecido só profeticamente como Deus e Filho de Deus, Filho e Pai, mas fosse visto por todos os membros santificados e instruídos nas coisas de Deus e assim o homem fosse formado e exercitado anteriormente a aproximar-se da glória destinada a ser revelada em seguida aos que amam a Deus.

[54] Os profetas não profetizavam só com as palavras, mas também com visões, com o comportamento e as ações que faziam segundo a sugestão do Espírito.

[55] Neste sentido viam o Deus invisível, como diz Isaías: “Vi com os meus olhos o Rei Senhor dos exércitos” para indicar que o homem veria a Deus com seus olhos e escutaria a voz dele.

[56] Neste sentido viam o Filho de Deus viver como homem entre os homens; profetizando o que devia acontecer; nomeando presente aquele que ainda não estava lá; proclamavam passível quem era impassível; dizendo que desceria ao lodo da morte quem então estava nos céus.

[57] Assim viam as outras economias da sua recapitulação, algumas em visão, outras anunciavam com palavras, outras significavam com ações simbólicas.

[58] O que era para ver viam-no em visão; o que era para escutar anunciavam com a palavra; o que devia ser feito o faziam com atos: anunciavam tudo de maneira profética.

[59] Por isso Moisés dizia ao povo transgressor da Lei que Deus era fogo, cominando o dia do fogo que cairia sobre eles da parte de Deus; aos que, porém, eram timoratos de Deus, dizia: “O Senhor Deus é misericordioso, piedoso, magnânimo, compassivo, verídico; é o que guarda a justiça e a misericórdia milhares de vezes, que apaga as injustiças, as iniqüidades e os pecados”.

[60] O Verbo “falava a Moisés aparecendo diante dele como alguém fala com seu amigo”.

[61] Moisés, porém, desejava ver manifestamente quem lhe falava, então foi-lhe dito: “Fica em cima da pedra e te cobrirei com a minha mão. Quando terá passado o meu brilho, então me verás por trás, mas o meu rosto não será visto por ti: com efeito o homem não pode ver o meu rosto e viver”.

[62] Com isso queria dizer duas coisas: que é impossível ao homem ver Deus e que, graças à sabedoria de Deus, no final dos tempos, o homem o verá na sumidade da rocha, isto é, na sua vinda como homem.

[63] Por isso Moisés falou com ele face a face no cimo do monte, na presença de Elias, como relata o Evangelho, cumprindo assim a antiga promessa.

[64] Os profetas, portanto, não viam abertamente o rosto de Deus, e sim as economias e os mistérios pelos quais o homem é introduzido na visão de Deus.

[65] A Elias foi dito: “Sairás amanhã e ficarás diante do Senhor, e eis que o Senhor passará; eis vento poderoso e forte que desfaz os montes e quebra as pedras, na presença do Senhor, mas o Senhor não está no vento. Após o vento, o terremoto, mas o Senhor não está no terremoto; após o terremoto, o fogo, mas o Senhor não está no fogo; após o fogo, o murmúrio de uma brisa leve”.

[66] Assim o profeta, que estava grandemente indignado pela transgressão do povo e pela matança dos profetas, era induzido a agir de forma mais mansa; e lhe era indicado o advento futuro do Senhor, como homem, depois da Lei dada por Moisés; advento manso e tranqüilo, no qual não teria quebrado a cana rachada e não teria apagado a mecha fumegante.

[67] Era-lhe mostrada a tranqüilidade mansa e pacífica do seu reino.

[68] Depois do vento que fende as montanhas e depois do terremoto e do fogo chegam os tempos tranqüilos e pacíficos do seu reino, nos quais o Espírito de Deus vivifica com toda tranqüilidade e faz crescer o homem.

[69] Tornou-se ainda mais claro através de Ezequiel que os profetas viam de maneira imperfeita as economias de Deus e não o próprio Deus de maneira perfeita.

[70] Depois de ter uma visão de Deus, e depois de ter descrito os querubins, as suas rodas e o mistério de todas as suas evoluções, e de ter visto sobre eles a semelhança de trono, e sobre o trono uma semelhança como da forma de homem, cujas partes inferiores aos rins tinham a aparência de metal brilhante e as superiores como uma aparência de fogo; e depois de ter descrito o resto da visão do trono, para que ninguém pensasse que ele vira o próprio Deus, acrescenta: “Esta é a visão da imagem da glória do Senhor”.

[71] Por isso, se nem Moisés viu a Deus, nem Elias, nem Ezequiel, eles que contemplaram muitas das coisas celestes; se o que viram eram imagens da glória do Senhor e profecias das coisas futuras é evidente que o Pai é invisível, e é verdadeiro o que o Senhor disse dele: Nunca ninguém viu a Deus.

[72] Enquanto o Verbo, de acordo com a sua vontade e para proveito dos que viam, mostrava a glória do Pai e revelava as economias, como também disse o Senhor: “O Deus Unigênito que está no seio do Pai, ele o revelou”.

[73] E como revelador do Pai, o Verbo, que é rico e grande, não se deixava ver numa só forma, nem num só aspecto pelos que o viam, mas segundo as ocasiões e atividades das suas economias.

[74] Como está escrito em Daniel: às vezes ele se mostra em companhia de Ananias, Azarias e Misael, assistindo-os na fornalha de fogo, e, na fornalha, salvando-os do fogo: “E a visão do quarto — diz ele — é semelhante a um Filho de Deus”.

[75] Às vezes “é a pedra arrancada do monte sem a ajuda de mãos” que atingia e varria os reinos temporais e enchia a terra toda.

[76] Às vezes, ainda, se parece com um “Filho de homem que vem sobre as nuvens do céu”, avizinha-se do Ancião dos dias e recebe dele o poder, a glória e o reino universais: “Seu poder — diz — é poder eterno e seu reino nunca será destruído”.

[77] Também João, o discípulo do Senhor, no Apocalipse, assiste à vinda do reino glorioso e sacerdotal: “Virei-me — diz ele — para ver a voz que me falava; quando me virei vi sete candelabros de ouro e no meio deles alguém parecido a um Filho do homem, vestido de longa túnica e com cintura de ouro à altura do peito. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos, como lã branca como a neve; seus olhos eram uma chama de fogo; seus pés semelhantes a cobre abrasado ao fogo; a voz dele era como a de muitas águas, na sua mão direita segurava sete estrelas, da sua boca saía uma espada de dois gumes e seu rosto era brilhante como o sol no máximo de seu fulgor”.

[78] Entre estas coisas, algumas significam o brilho que recebe do Pai como chefe, outra significa o pontificado, como a túnica — foi por isso que Moisés vestiu assim o pontífice —; outra se refere ao fim, como o cobre abrasado no fogo, que é a fortaleza da fé e a perseverança das orações, por causa do grande incêndio que deve acontecer no fim.

[79] Mas João não suportou a visão: “Caí aos seus pés como morto”, diz ele, para que se cumprisse o que foi escrito: “Ninguém pode ver a Deus e viver”.

[80] Então o Verbo o reanimou e lhe lembrou que era aquele em cujo peito recostara-se durante a ceia, perguntando quem seria o traidor, e lhe dizia: “Eu sou o primeiro e o último, aquele que vive e foi morto; e eis que vivo por todos os séculos e tenho as chaves da morte e do inferno”.

[81] Depois, em segunda visão, ele viu o mesmo Senhor: “Eu vi — diz ele — no meio do trono e dos quatro animais e dos anciãos, um cordeiro de pé, como que degolado, com sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus, enviados por toda a terra”.

[82] E ainda, falando do mesmo cordeiro, diz: “Eis um cavalo branco e aquele que o montava tinha o nome de Fiel e Verdadeiro; ele combate e julga com justiça. Seus olhos são como chamas de fogo, na sua cabeça tem muitos diademas e tem nome inscrito que ninguém conhece, a não ser ele; veste manto manchado de sangue e seu nome é Verbo de Deus. Os exércitos do céu o seguiam montados em cavalos brancos, vestidos de linho fino de brancura imaculada; da sua boca sai uma espada afiada para golpear as nações; ele as governará com cetro de ferro e espreme no lagar o vinho do furor da ira do Deus onipotente; no seu manto e no seu fêmur traz escrito o seu nome: Rei dos reis e Senhor dos senhores”.

[83] Assim, desde sempre, o Verbo de Deus mostrava aos homens as imagens do que haveria de fazer e as figuras das economias do Pai, instruindo-nos nas coisas de Deus.

[84] Ele se serviu, para simbolizar e preanunciar o futuro, não somente das visões que os profetas contemplavam e das palavras que proferiam, mas também das ações que faziam.

[85] Eis por que o profeta Oséias tomou por esposa uma mulher de prostituição, para profetizar com este ato que a terra — isto é, os homens que a habitam — se prostituiria longe do Senhor, e que o Senhor haveria por bem formar a sua Igreja com tais homens e que a santificaria pelo contacto de seu Filho, como aquela mulher o foi pelo contacto com o profeta.

[86] É por isso que Paulo diz que a mulher infiel é santificada pelo marido fiel.

[87] Ainda, o profeta deu a seus filhos os nomes de “Aquela que não obteve misericórdia” e “Não povo”, para que, como diz o Apóstolo, “aquele que não era povo se tornasse povo e aquela que não obteve misericórdia a obtivesse, e no lugar em que era chamado Não povo, ali se chamassem Filhos do Deus vivo”.

[88] O que o profeta fizera de maneira prefigurativa, o Apóstolo o mostrou feito de maneira real na Igreja por Cristo.

[89] Assim também Moisés tomava por esposa uma etíope, tornando-a com isso israelita, preanunciando que a oliveira selvagem seria enxertada na oliveira boa e participaria da sua riqueza.

[90] Com efeito, como o Cristo, nascido segundo a carne devia ser procurado pelo povo para ser morto, foi salvo no Egito, isto é, entre os gentios, santificando as crianças que aí se encontravam e formando com eles a sua Igreja — o Egito, com efeito, desde o início era pagão, como também a Etiópia — com o casamento de Moisés era indicado o casamento do Verbo e na esposa etíope era indicada a Igreja que vinha da gentilidade.

[91] E os que a censuram, criticam e ridicularizam não são puros; como leprosos serão expulsos do acampamento dos justos.

[92] Assim também Raab, a prostituta, que se acusava de ser pagã culpada de todos os pecados, acolheu os três espiões que investigavam toda a terra e os escondeu na sua casa, isto é, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

[93] E quando toda a cidade onde ela morava desmoronou ao fragor dos sete trombeteiros, entre todos Raab, a prostituta, era salva com toda a sua família pela fé no sinal escarlate, como o Senhor dizia aos fariseus que não aceitavam a sua vinda, e anulavam o sinal escarlate que era a Páscoa, a libertação e a saída do povo do Egito: “Os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino dos céus”.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu