[1] Por isso o Senhor dizia aos discípulos: “Eis, eu vos digo, levantai os olhos e vede os campos: eles são brancos para a colheita. O ceifador recebe o seu salário e recolhe o fruto para a vida eterna a fim de que o semeador e o ceifador se alegrem juntos. Nisto é verdadeira a palavra: um é quem semeia e outro quem recolhe. Eu vos enviei a ceifar o que não vos custou nada; outros fatigaram e vós entrastes nas suas fadigas”.
[2] Quem são os que se cansaram, que serviram às economias de Deus? Está claro que são os patriarcas e os profetas que prefiguraram a nossa fé e espalharam na terra a semente da vinda do Filho de Deus, anunciando quem e o que seria, de modo que os homens que viriam depois, instruídos pelos profetas, tivessem o temor de Deus e recebessem com facilidade a vinda do Cristo.
[3] Por isso José, quando notou a gravidez de Maria e pensava em repudiá-la em segredo, ouviu um anjo dizer-lhe em sonho: “Não temas tomar Maria por tua esposa, pois o que tem no ventre vem do Espírito Santo. Dará à luz um filho e lhe darás o nome Jesus porque é ele que salvará o seu povo de seus pecados”.
[4] E acrescentou, para o convencer: “Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor dissera pela boca do profeta: Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um filho e será chamado com o nome de Emanuel”.
[5] Com as palavras do profeta ele o convencia e desculpava Maria, mostrando que ela era exatamente a Virgem que Isaías preanunciara como a Mãe do Emanuel.
[6] Assim José se convenceu e acolheu Maria e prestou com alegria o seu serviço em toda a educação do Cristo, aceitando ir até o Egito, depois de voltar de lá e transferir-se para Nazaré, tanto que pelos que ignoravam as Escrituras, as promessas de Deus e a economia do Cristo era tido como o pai da criança.
[7] Sempre por este motivo o próprio Senhor lia em Cafarnaum as profecias de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim; por isso me ungiu e me enviou a anunciar a boa nova aos pobres, a curar os aflitos de coração, a anunciar aos prisioneiros a libertação e aos cegos a visão”.
[8] E para mostrar que ele era o preanunciado pelos profetas, dizia-lhes: “Hoje se cumpriu esta Escritura aos vossos ouvidos”.
[9] Também por este motivo Filipe, tendo encontrado o eunuco da rainha da Etiópia que lia o texto: “Como ovelha conduzida ao matadouro e como cordeiro mudo diante de seu tosquiador assim ele não abre a boca; na humilhação foi-lhe tirado o julgamento” e todo o resto que o profeta descreve da sua paixão, da sua vinda na carne e como foi ultrajado pelos que não criam, facilmente o convenceu a crer que falava do Cristo que foi crucificado sob Pôncio Pilatos e sofreu tudo o que o profeta predissera.
[10] E que este era o Filho de Deus que dá a vida eterna aos homens.
[11] E logo que o batizou desapareceu da vista dele porque não faltava mais nada a este homem que já fora instruído pelos profetas.
[12] Ele não ignorava Deus Pai, nem as normas da sua conduta, somente não sabia da vinda do Filho de Deus.
[13] Logo que ficou sabendo disso continuou feliz a sua viagem para tornar-se na Etiópia arauto da vinda do Cristo.
[14] Filipe não teve muito trabalho com este homem, pois ele já fora formado precedentemente no temor de Deus pelos profetas.
[15] Eis ainda por que os apóstolos que reuniam as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, falando das Escrituras com elas, mostravam-lhes que Jesus, o crucificado, era o Cristo, o Filho do Deus vivo, e convenciam a multidão dos que tinham o temor de Deus, e num só dia se batizaram três, quatro e até cinco mil pessoas.

