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[1] Se alguém ler as Escrituras neste sentido, encontrará uma palavra a respeito do Cristo e uma prefiguração da nova vocação.

[2] Ele é o tesouro escondido no campo, isto é, neste mundo — com efeito, o campo é o mundo —, e Cristo está escondido nas Escrituras no sentido de que é indicado por figuras e parábolas que não podiam humanamente ser entendidas antes que se cumprissem as profecias, isto é, antes da vinda do Senhor.

[3] Eis por que foi dito ao profeta Daniel: “Põe o selo sobre estas palavras, sela este livro até o tempo do cumprimento, até que muitos aprendam e se cumpra o conhecimento”.

[4] “Quando terá chegado ao fim a dispersão eles entenderão todas estas coisas”.

[5] Toda profecia antes que se cumpra é enigmática e ambígua para os homens, mas, chegado o tempo e cumprido o que foi predito, então as profecias têm sentido líquido e certo.

[6] Por isso, quando, em nossos dias, os judeus lêem a Lei é para eles como ler um conto, porque não têm a noção completa acerca da vinda do Filho de Deus na natureza humana, mas quando lida pelos cristãos é tesouro escondido no campo, revelado e explicado pela cruz de Cristo, que revela a sabedoria de Deus e as suas economias acerca dos homens, prepara o reino de Cristo e anuncia a herança da santa Jerusalém, afirma que o homem deve progredir continuamente no amor de Deus até que verá a Deus, escutará a sua voz e, escutando a sua palavra, será glorificado de tal modo que os outros não poderão olhar para o seu rosto, como foi dito a Daniel: “Os sábios brilharão como o esplendor do firmamento, e entre a multidão dos justos como as estrelas pelos séculos para sempre”.

[7] Se alguém lê as Escrituras da maneira que dissemos, assim como Jesus as explicou aos discípulos depois da sua ressurreição dos mortos, mostrando por meio delas que o Cristo devia sofrer e entrar, assim, na sua glória, e que se devia pregar em seu nome a remissão dos pecados em todo o mundo, será discípulo perfeito e “semelhante ao pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas”.

[8] Eis por que se devem escutar os presbíteros que estão na igreja, que são os sucessores dos apóstolos, como o demonstramos, e que com a sucessão no episcopado receberam o carisma seguro da verdade segundo o beneplácito do Pai.

[9] Quanto a todos os outros que se separam da sucessão principal e em qualquer lugar que se reúnam, devem ser vistos com desconfiança, como hereges e de má fé, como cismáticos cheios de orgulho e de suficiência, ou ainda, como hipócritas que fazem isso à procura de lucro e de vanglória.

[10] Todos eles se afastaram da verdade e os hereges que oferecem sobre o altar de Deus um fogo estranho, isto é, doutrinas estranhas, serão queimados pelo fogo celeste como Nadab e Abiú.

[11] Os que se insurgem contra a verdade e excitam os outros contra a Igreja de Deus, tragados pelos abismos da terra, terão sua morada nos infernos como Coré, Datã, Abiram e todos os que estavam com eles.

[12] Os que rompem e dividem a unidade da Igreja receberão de Deus o mesmo castigo de Jeroboão.

[13] Os que são tidos por presbíteros aos olhos de muitos, mas são escravos das suas paixões, que não põem antes de tudo o temor de Deus em seus corações, insultam os outros, incham-se de arrogância por ocuparem os primeiros lugares, fazem o mal às escondidas e dizem: “Ninguém nos verá”, serão repreendidos pelo Verbo, que não julga segundo a opinião e não olha o rosto, mas o coração.

[14] E ouvirão as palavras do profeta Daniel: “Raça de Canaã e não de Judá, a beleza te seduziu e a paixão te perverteu o coração. Homem envelhecido no mal, agora são manifestos os pecados que fazias antes, pronunciando juízos injustos, condenando os inocentes e absolvendo os culpados, quando o Senhor disse: ‘Não matarás o inocente e o justo’ ”.

[15] O Senhor disse deles: “Se o servo mau diz em seu coração: meu dono está se atrasando e começa a bater nos servos e nas servas, e a comer, beber e embriagar-se, quando o dono daquele servo vier, num dia que não sabe e na hora que não espera, o trancará e lhe dará sua parte com os incrédulos”.

[16] É preciso, portanto, afastar-se de todos os homens desta espécie e aderir aos que, como dissemos, guardam a doutrina dos apóstolos e com a ordem sacerdotal oferecem palavra sã e conduta irrepreensível para exemplo e emendamento dos outros.

[17] Eles devem ser como Moisés, ao qual foi confiada tão grande missão e que, apoiado no testemunho da boa consciência, se justificava diante de Deus, dizendo: “Não tomei deles nada que podia ser desejável e não fiz mal a nenhum deles”.

[18] Como Samuel que por tantos anos julgou o povo e governou Israel sem orgulho e no fim se justificava: “Vivi com vocês desde a minha tenra idade até hoje. Respondei-me diante do Senhor e do seu ungido: A qual de vós tirei o bezerro ou o asno? quem oprimi ou obriguei? das mãos de quem tirei a oferta propiciatória ou as sandálias? Dizei-o contra mim e eu o restituirei”.

[19] O povo lhe respondeu: “Não nos obrigaste, nem oprimiste, nem recebeste nada da mão de ninguém”.

[20] Então, tomando Deus como testemunha, disse: “Deus e o seu ungido são hoje testemunhas de que não encontrastes nada na minha mão”.

[21] Eles disseram: “São testemunhas”.

[22] Também o apóstolo Paulo, apoiado em sua boa consciência, dizia aos coríntios: “Não somos como muitos que adulteram a palavra de Deus, mas falamos na sinceridade, como vem de Deus, diante de Deus no Cristo”.

[23] “Não causamos dano a ninguém, nem corrompemos ou enganamos alguém”.

[24] São estes os presbíteros que a Igreja sustenta, dos quais o profeta diz: “Constituirei teus príncipes na paz e teus bispos na justiça”.

[25] E o Senhor dizia deles: “Qual será o administrador fiel, bom e sábio que o Senhor estabelecerá à frente da sua família e lhes dê o alimento no tempo certo? Feliz daquele servo que o Senhor, na sua vinda, encontrar portando-se assim”.

[26] Paulo ensina onde se podem encontrar esses servos: “Deus constituiu na Igreja em primeiro lugar os apóstolos, no segundo os profetas, no terceiro os doutores”.

[27] Onde foram postos os carismas do Senhor, ali se deve aprender a verdade, junto dos que na Igreja possuem a sucessão dos apóstolos, a integridade inatacável da conduta e a pureza incorruptível da palavra.

[28] Estes conservam em nós a fé num único Deus que criou todas as coisas; fazem crescer em nós o amor ao Filho de Deus que dispôs para nós tão grandes economias; e, com toda segurança, expõem as Escrituras sem blasfemar a Deus, sem desonrar os patriarcas e sem desprezar os profetas.

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