[1] Ouvi certo presbítero dizer — o que ele tinha ouvido dos apóstolos e dos seus sucessores —, que para os antigos bastava a correção das Escrituras, por aquilo que faziam sem o conselho do Espírito, porque Deus, que não faz distinção de pessoas, dava uma correção conveniente ao que não era conforme a sua vontade.
[2] Este foi o caso de Davi. Quando era perseguido injustamente por Saul e fugia dele sem se vingar de seu inimigo; quando cantava a vinda de Cristo e ensinava a sabedoria às nações e tudo cumpria segundo o conselho do Espírito, era agradável a Deus.
[3] Mas quando, levado pela paixão, tomou para si Betsabéia, a mulher de Urias, a Escritura disse: “A ação que Davi fez pareceu má aos olhos do Senhor”.
[4] E foi-lhe enviado o profeta Natã para lhe mostrar o seu pecado, para que, julgando a si mesmo e condenando-se, obtivesse a misericórdia e o perdão de Cristo.
[5] Deus enviou Natã a Davi que lhe disse: “Havia dois homens numa cidade, um rico e outro pobre; o rico tinha muitos rebanhos de ovelhas e manadas de bois, o pobre não possuía senão uma pequena ovelha que mantinha e alimentava junto de si e de seus filhos; ela comia do seu pão e bebia de seu copo e era como uma filha.
[6] Na casa do rico se hospedou um homem. O rico não quis tomar uma ovelha de seu rebanho, nem um boi de sua manada, para lhe preparar comida, mas tomou a pequena ovelha do pobre e a serviu ao homem que viera à sua casa.
[7] Davi irritou-se grandemente contra este homem e disse a Natã: Como é verdade que o Senhor vive! o homem que fez isso merece a morte! E pela ovelha devolverá outras quatro, por ter feito isso e por não ter compaixão do homem.
[8] E Natã lhe disse: Tu és o homem que fez isso!”
[9] E lhe expôs com pormenores o resto, repreendendo-o e enumerando-lhe os benefícios do Senhor e mostrando-lhe que irritara o Senhor agindo assim; que aquela ação não agradava a Deus e que grande ira se abateria sobre a sua casa.
[10] Davi foi tocado pelo arrependimento e disse: “Pequei contra o Senhor” e cantou o salmo da confissão, falando da vinda do Senhor que lava e purifica os pecados do homem caído em poder deles.
[11] A mesma coisa se deu com Salomão. Enquanto permaneceu a julgar com justiça, a falar com sabedoria, a edificar o templo, figura do verdadeiro, a anunciar a paz destinada às nações, a prefigurar o reino de Cristo, a pronunciar três mil parábolas para a vinda do Senhor e cinco mil cânticos em louvor a Deus, a expor a sabedoria de Deus que se encontra na criação, dissertando sobre toda árvore, toda erva, todas as aves, todos os quadrúpedes, répteis e peixes, e dizia: “Será possível que o Deus que os céus não podem conter, habite na terra com os homens?”
[12] Até então, agradou a Deus e foi admirado pelos homens.
[13] Todos os reis da terra procuravam vê-lo, para escutar a sabedoria que Deus lhe dera; e a rainha do Sul veio a ele das extremidades da terra para conhecer a sabedoria que estava nele.
[14] O Senhor diz que ela ressurgirá, no dia do juízo, com a geração dos que escutaram a sua voz e não acreditaram nele para condená-los por não se terem submetido à sabedoria anunciada pelo servo de Deus e desprezaram a sabedoria que lhe era concedida pelo Filho de Deus; com efeito, Salomão não era senão servo, mas o Cristo era o Filho de Deus e o Senhor de Salomão.
[15] Quando ele servia a Deus de modo impecável e cooperava com suas economias, era glorificado; mas quando tomava mulheres de todas as nações e lhes permitia erigir ídolos em Israel, a Escritura disse dele: “O rei Salomão amava as mulheres e tomou para si mulheres estrangeiras; e aconteceu que no tempo da velhice de Salomão o seu coração não era perfeito com o Senhor seu Deus; as mulheres estrangeiras desviaram o seu coração para os deuses delas e Salomão fez o mal diante do Senhor; não seguiu o Senhor como Davi, seu pai.
[16] E o Senhor se irritou contra Salomão, porque o seu coração não era perfeito com o Senhor como fora o coração de Davi, seu pai”.
[17] A Escritura o repreendeu fortemente, como diz o presbítero, para que nenhuma carne se glorie diante do Senhor.
[18] Por isso o Senhor desceu às partes inferiores da terra para levar também a eles a boa nova da sua vinda, que é a remissão dos pecados para os que creem nele.
[19] Creem nele todos os que nele esperaram, isto é, que anunciaram a sua vinda e cooperaram com suas economias, os justos, os profetas e os patriarcas.
[20] A eles, como a nós, perdoou os pecados que não lhes devemos mais imputar, se não quisermos desprezar a graça de Deus.
[21] Como eles não nos imputavam as intemperanças que fazíamos antes que o Cristo nos fosse manifestado, assim não é justo que acusemos os que pecaram antes da vinda de Cristo.
[22] Porque todos os homens precisam da glória de Deus e são justificados, não por si mesmos, mas pela vinda do Senhor, os que olham para a sua luz.
[23] Foi para nossa correção que foram escritos os seus atos para que primeiramente aprendêssemos que tanto para eles como para nós há somente um Deus que não aprova os pecados, também quando cometidos por pessoas famosas e também para que nos abstenhamos do mal.
[24] Se, com efeito, os antigos que nos precederam na graça e pelos quais o Filho de Deus ainda não sofrera, incorreram em tais repreensões por ter cometido uma falta e ter-se tornado escravos da concupiscência carnal, o que deverão sofrer os de agora que desprezam a vinda do Senhor e se tornam escravos das suas paixões?
[25] Para eles a morte do Senhor foi a remissão de seus pecados, mas para os que pecam agora “o Cristo já não morre, porque a morte já não tem poder sobre ele” e o Filho há de vir na glória do Pai a fim de exigir dos seus administradores, juntamente com os juros, o dinheiro que lhes confiara, e a quem mais deu, mais exigirá.
[26] Por isso não nos devemos orgulhar, dizia aquele presbítero, nem censurar os antigos, mas temer por nós que, depois de ter conhecido o Cristo, ao fazer algo que desagrade a Deus, não possamos obter o perdão dos nossos pecados e sejamos excluídos do seu reino.
[27] Eis por que Paulo disse: “Se não poupou os ramos naturais, com maior razão não poupará a ti, que, não passando de oliveira selvagem, foste enxertado na oliveira boa e tornado participante da sua seiva”.
[28] Da mesma forma as culpas do povo foram escritas não para os que então pecavam, e sim para nossa correção e para que saibamos que um só e idêntico é o Deus contra o qual eles pecavam e contra o qual pecam agora alguns que fazem profissão de fé.
[29] É isso que o Apóstolo mostra claramente na carta aos Coríntios, quando diz: “Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos embaixo da nuvem e que todos foram batizados em Moisés na nuvem e no mar, que todos comeram o mesmo alimento espiritual e todos beberam a mesma bebida espiritual; eles bebiam do rochedo espiritual que os acompanhava e este rochedo era o Cristo.
[30] Mas Deus não achou agradáveis a maioria deles, e morreram no deserto.
[31] Isto aconteceu em figura para nós, para que não estejamos apegados ao mal como o foram eles; para que não sejais idólatras como alguns deles, como está escrito: O povo sentou-se para comer e beber e se levantaram para dançar; nem devemos fornicar como alguns deles fizeram e por causa disso pereceram no mesmo dia vinte e três mil; nem tentemos o Cristo como alguns deles tentaram e pereceram por causa das serpentes; nem murmureis como alguns deles murmuraram e foram eliminados pela mão do exterminador.
[32] Tudo isso lhes acontecia para serem símbolos e foi escrito para instrução nossa, para os quais chegou o fim dos séculos.
[33] Por isso quem julga estar de pé, cuide-se para não cair”.
[34] Sem equívocos nem contradições, o Apóstolo mostra que é um só e mesmo Deus que condenou aquelas ações e agora julga as presentes e indica o motivo pelo qual isso foi escrito.
[35] Apresentam-se assim como ignorantes, atrevidos e até impudentes todos os que, por causa da transgressão dos antigos e da desobediência de grande número deles, asseguram que o seu Deus, aquele que criou o mundo e deriva da degradação, é diverso daquele Pai indicado pelo Cristo e que é o que cada um deles pensa.
[36] Eles, porém, não entendem que como então foi desagradável a Deus a maioria dos que dentre eles pecaram, assim também aqui muitos são os chamados e poucos os eleitos.
[37] E como então, os injustos, os idólatras e os fornicadores perderam a vida, assim agora o Senhor diz que pessoas como aquelas serão enviadas para o fogo eterno.
[38] E o Apóstolo diz: “Não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os impudicos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os homossexuais, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os maldizentes, nem os raptores possuirão o reino de Deus”.
[39] E a prova de que não se dirige a estranhos, mas a nós, para que não sejamos lançados fora do reino de Deus, por ter agido desta forma, está nestas palavras: “Eis que alguns de vós foram isso; mas fostes lavados, fostes santificados e fostes justificados no nome de nosso Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus”.
[40] Como então eram condenados e lançados fora os que faziam o mal e corrompiam os outros, assim agora arrancam-se o olho, o pé e a mão que escandalizam para que não se perca o resto do corpo.
[41] Mais, temos a ordem de “sequer comer com um irmão chamado impudico, ou avarento, ou maldizente, ou bêbado, ou rapinador”.
[42] E é ainda o Apóstolo que diz: “Ninguém vos seduza com palavras vãs; por isso é que veio a ira de Deus sobre os filhos da desobediência: não vos associeis com eles”.
[43] Como então a condenação dos pecadores compreendia também os que os aprovavam e faziam como eles, assim agora: um pouco de fermento corrompe toda a massa.
[44] Como então a ira de Deus se abatia sobre os injustos, assim acontece também agora, no dizer do Apóstolo: “Manifestar-se-á a ira de Deus do céu sobre toda impiedade e injustiça dos homens que prendem a verdade na iniquidade”.
[45] Como então Deus se vingou dos egípcios que oprimiam injustamente Israel, assim agora o Senhor diz: “Deus não vingará os seus eleitos que gritam a ele dia e noite? Na verdade, eu vos digo, ele os vingará prontamente”.
[46] E o Apóstolo, na carta aos Tessalonicenses, diz: “É coisa justa para Deus pagar com tribulação aos que vos oprimem, e a vós que sois oprimidos, dar o descanso conosco, quando se revelar o Senhor Jesus, vindo do céu, com os anjos do seu poder e na chama ardente, para vingar-se dos que não conhecem a Deus e que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus; eles terão a pena eterna da perdição, longe da face do Senhor e do esplendor de seu poder, quando vier para ser glorificado nos seus santos e ser admirado por todos os que creem nele”.

