Skip to main content
search

[1] Os que repreendem e acusam o povo hebreu porque por ocasião do êxodo partiu depois de ter recebido, por ordem de Deus, dos egípcios objetos de todo tipo e vestimentas, com os quais foi depois construído o tabernáculo no deserto, esses mesmos mostram desconhecer os julgamentos de Deus e suas economias, como dizia o presbítero.

[2] Se Deus não tivesse permitido isso no êxodo simbólico, hoje, no nosso verdadeiro êxodo, isto é, pela fé na qual nos encontramos e pela qual saímos do meio dos gentios, ninguém se poderia salvar.

[3] Nós todos, de fato, somos donos de alguma propriedade, pequena ou grande que seja, que compramos “com o Mamon de iniqüidade”.

[4] Com efeito, de onde nos vêm a casa em que moramos, os indumentos que nos vestem, os objetos que usamos e tudo o que nos serve na nossa vida de todos os dias, senão do dinheiro que adquirimos com a avareza, quando éramos pagãos, ou de parentes, ou conhecidos e amigos pagãos que os tinham adquirido com a injustiça, para não falar dos que ainda agora adquirimos, mesmo estando na fé?

[5] Qual o vendedor que não quer ter o seu ganho do comprador? ou qual o comprador que não quer ter o seu ganho do vendedor? ou qual o comerciante que não se dedica ao comércio para tirar daí o seu sustento?

[6] Qual dos fiéis que estão no palácio imperial não tira dos objetos de César os que lhe são necessários para o próprio uso, e não distribui, conforme as suas possibilidades, aos que precisam?

[7] Os egípcios eram devedores ao povo não somente dos seus bens, mas também da sua vida, pelo favor anterior do patriarca José.

[8] Mas os pagãos dos quais recebemos os ganhos e as vantagens, em que nos são devedores? Tudo o que produzem com suas fadigas, nós, que estamos na fé, usamos sem esforço nenhum.

[9] Além do mais, o povo estava reduzido pelos egípcios à pior das escravidões, como diz a Escritura: “Com violência os egípcios dominavam sobre os filhos de Israel e por ódio obrigavam-nos a viver em duros trabalhos, argila, tijolos e todos os trabalhos do campo e todos os trabalhos aos quais os submetiam pela força”.

[10] E construíram para eles cidades fortificadas, e com muitas fadigas e com todo tipo de escravidão aumentaram-lhes as riquezas por anos a fio, enquanto os egípcios, não contentes de ser ingratos com eles, queriam fazê-los desaparecer a todos.

[11] Então, que injustiça fizeram se receberam tão pouca coisa do muito, recebendo um salário ínfimo pela longa escravidão, eles, que sem a escravidão, teriam muitas riquezas próprias e teriam ido embora ricos?

[12] Se um homem livre fosse levado à força por outro e após tê-lo servido como escravo durante muitos anos e aumentado a sua fortuna, recebesse algum socorro, pareceria entrar na posse de uma parte dos bens do dono, na realidade, porém, ele partiria depois de ter recebido bem pouca coisa por conta de seu muito trabalho e das muitas riquezas ajuntadas graças a ele; e se alguém o acusasse de ter agido injustamente, era muito mais ele a mostrar-se juiz injusto do homem forçadamente reduzido à escravidão.

[13] Ora, dá-se a mesma coisa com os que imputam ao povo a culpa de ter recebido o pouco por seu muito trabalho, mas não acusam a si mesmos de ter recebido de seus parentes, sem nenhum merecimento e sem nunca os terem servido à força, as maiores vantagens.

[14] Acusam de injustiça — como dissemos — os que receberam como pagamento de seus trabalhos não dinheiro, mas uns poucos vasos de ouro ou de prata — nós diremos a verdade, ainda que para alguns possa parecer ridículo —, e pretendem agir conforme à justiça, quando eles próprios, pelos trabalhos de outros, trazem em seus cintos moedas de ouro, prata e cobre com a efígie e a inscrição de César.

[15] Se se fizer uma comparação entre nós e eles, quem pareceria ter recebido mais justamente? O povo, que recebeu dos egípcios que lhe eram absolutamente devedores ou nós que recebemos dos romanos e das outras nações que não nos devem nada disso e, além disso, deram a paz ao mundo de forma que podemos viajar sem medo, por terra e por mar, onde quer que desejemos?

[16] Para gente dessa espécie cai como luva a palavra do Senhor: “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e poderás ver para tirar o cisco do olho de teu irmão”.

[17] Se, com efeito, quem te repreende e se gaba da sua gnose, separou-se da sociedade dos pagãos, se não tem nada consigo que seja de outros, se vive completamente nu e descalço nas montanhas como um desses animais que se alimentam de erva, talvez seja escusado, pois não conhece as necessidades da nossa vida.

[18] Mas se participa dos bens que por todos são chamados dos outros e critica o seu simbolismo, mostra-se injustíssimo e reverte a sua acusação contra si mesmo, porque se encontrará levando sobre si o que é dos outros, desejando o que não é dele.

[19] Por isso o Senhor disse: “Não julgueis para não serdes julgados. De fato com o mesmo juízo com que julgardes sereis julgados”, certamente não para que não corrijamos os culpados e aprovemos as coisas mal feitas, e sim para que não julguemos injustamente as economias de Deus, pois ele prefigurou corretamente todas as coisas.

[20] Visto que sabia que teríamos usado bem dos recursos recebidos dos outros, diz: “Quem tiver duas túnicas dê uma a quem não tem nenhuma e quem tem alimentos faça o mesmo”; e: “Tive fome e me destes de comer, estava nu e me vestistes”, e: “Quando dás esmola, não saiba a tua esquerda o que faz a tua direita”; e todas as outras obras boas com que somos justificados, como que redimindo as coisas nossas por meio das dos outros — dos outros, eu digo, não no sentido de que este mundo seja estranho a Deus, mas porque o que damos o recebemos dos outros, como eles o receberam dos egípcios que não conheciam a Deus e com estas coisas erigimos em nós o tabernáculo de Deus, porque Deus habita nos que fazem o bem, como diz o Senhor: “Granjeai-vos amigos com o dinheiro da iniqüidade, para que eles, quando sereis afastados, vos recebam nos tabernáculos eternos”: porque o que adquirimos com o dinheiro da iniqüidade quando éramos pagãos, uma vez que nos tornamos cristãos o empregamos no serviço do Senhor e por isso somos justificados.

[21] Era necessário que tudo isso fosse mostrado antecipadamente em figura e que o tabernáculo de Deus fosse feito com os objetos que eles receberam com toda justiça, como demonstramos, e fôssemos prefigurados neles, nós que haveríamos de começar a servir a Deus com os bens dos outros.

[22] A saída do Egito de todo o povo e tudo o que aconteceu pela ação de Deus foi a figura e o tipo do êxodo da Igreja, que se daria do paganismo; desta Igreja que, no fim, sairá daqui para entrar na herança que lhe dará, não Moisés, servo de Deus, mas Jesus, o Filho de Deus.

[23] Quem observar mais atentamente o que os profetas dizem do fim e o que João viu no Apocalipse, verá que as mesmas pragas que afligiram a seu tempo o Egito atingirão todas as nações.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu