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[1] O presbítero nos animava com estes discursos sobre os antigos e dizia: Não devemos repreender os profetas e os patriarcas pelas culpas de que a própria Escritura os acusa nem nos tornar como Cam que zombou das vergonhas de seu pai e incorreu na maldição, mas devemos agradecer a Deus por eles, porque, quando da vinda de nosso Senhor, lhes foram perdoados os pecados, porque — dizia — eles próprios agradeciam e se alegravam pela nossa salvação.

[2] Nem devemos denunciar as ações que as Escrituras não condenam, mas se limitam a apresentar — não sejamos mais zelosos do que o próprio Deus nem podemos ser melhores que o próprio Mestre — e procurar um sentido tipológico, porque nenhum ato que a Escritura refere sem condenar é sem sentido.

[3] Este foi o caso de Lot que tirou de Sodoma as suas filhas que engravidaram de seu pai e abandonou na região a sua esposa feita estátua de sal, até hoje.

[4] Com efeito, por não ter agido de espontânea vontade, nem por paixão carnal, nem com a percepção ou o pensamento de ato semelhante, Lot cumpriu uma ação simbólica. A Escritura diz: “A mais velha entrou e dormiu com o pai naquela noite e Lot não se apercebeu nem enquanto dormia nem quando ela se levantou”. E com a mais nova aconteceu o mesmo: “Ele não se apercebeu, diz, nem quando se deitou nem quando se levantou”.

[5] E assim, na ignorância do homem e sem impulso da paixão, se cumpria a economia pela qual as duas filhas, isto é, as duas assembléias, eram tornadas fecundas sem paixão carnal pelo único e mesmo Pai.

[6] Porque não havia nenhum outro que lhes pudesse dar semente de vida e filhos, conforme está escrito: “E a mais velha disse à mais nova: Nosso pai está velho e na terra não há ninguém que possa estar conosco, como deve ser por toda a terra. Vem, demos vinho ao nosso pai, durmamos com ele, para dar-lhe uma descendência”.

[7] Aquelas filhas diziam isso sincera e inocentemente, pensando que todos os homens tivessem perecido como os sodomitas e que a ira de Deus tivesse passado por toda a terra; por isso são escusáveis, pensando terem ficado só elas com o pai para conservar o gênero humano e por isso enganaram o pai.

[8] Mas, com suas palavras, elas indicavam também que não havia nenhum outro que pudesse dar a geração de filhos à sinagoga antiga e à nova a não ser o nosso Pai.

[9] Ora, o Pai do gênero humano é o Verbo de Deus, como Moisés mostrou, dizendo: “Não é este o teu Pai, que te adquiriu, te fez e te criou?”

[10] E quando efundiu sobre o gênero humano a semente da vida, isto é, o Espírito da remissão dos pecados pelo qual somos vivificados? Não foi quando vivia com os homens e bebia o vinho na terra? Veio o Filho do homem, diz, que comia e bebia — e quando se deitou, pegou no sono e dormiu, como ele próprio diz por Davi: “Eu peguei no sono e dormi. E visto que fazia isso em comunhão de vida conosco, diz ainda: O meu sono tornou-se-me suave”.

[11] Tudo isso era significado por Lot: pois a semente do Pai de todas as coisas, isto é, o Espírito de Deus, pelo qual foram criadas todas as coisas, misturou-se e uniu-se à carne, vale dizer, à obra modelada por ele, e é por esta mistura e esta união que as duas assembléias frutificaram, da parte de seu Pai, filhos viventes para o Deus vivente.

[12] Enquanto isso acontecia, a esposa ficou nas proximidades de Sodoma, não mais carne corruptível, mas estátua de sal, que dura para sempre, indicando, mediante fenômenos naturais, o que é habitual ao homem: que a Igreja, que é o sal da terra, foi deixada nas regiões da terra para suportar as vicissitudes humanas e, enquanto lhe são continuamente tirados os membros, continua a ser a estátua de sal intacta, isto é, fundamento da fé que confirma seus filhos e os envia diante do seu Pai.

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