[1] Um discípulo verdadeiramente espiritual, que acolhe o Espírito de Deus presente desde o início a todas as economias de Deus em favor dos homens, que anuncia o futuro, revela o presente e descreve o passado, “julga todos e ele não é julgado por ninguém”.
[2] Julga os pagãos que serviram à criatura em lugar do Criador, seguindo a sua inteligência depravada e consumindo em vão toda a sua atividade.
[3] Julga os judeus também que não acolhem o Verbo de liberdade e não querem ser libertados, mesmo tendo entre si o Libertador; os quais, intempestivamente e fora da Lei, simulavam render a Deus culto de que ele não precisava; os quais não reconheceram a vinda de Cristo, que se deu pela salvação dos homens; os quais não quiseram entender que todos os profetas anunciaram duas vindas dele.
[4] A primeira, na qual se fez homem, coberto de chagas, que sabe suportar a enfermidade, que cavalga um burrinho, que é a pedra rejeitada pelos construtores e qual cordeiro conduzido ao matadouro, aquele que derrota Amalec com a extensão de suas mãos e reúne os filhos dispersos das extremidades da terra no redil do Pai, aquele que lembrando-se dos pais já adormecidos desce até eles para libertá-los e salvá-los.
[5] A segunda, quando vier sobre as nuvens e trouxer o Dia que é como a fornalha ardente, atingir a terra com a palavra de sua boca, matar os ímpios com o sopro de seus lábios, com a joeira nas mãos, purificar a sua eira, recolher o trigo nos celeiros e queimar a palha num fogo inextinguível.
[6] Este discípulo saberá também avaliar a doutrina de Marcião.
[7] Como se pode admitir que haja dois deuses separados por uma distância infinita? ou como pode ser bom aquele que afasta os homens não seus do verdadeiro criador deles, para convidá-los ao seu próprio reino? e por que a sua bondade é deficiente, visto que não salva a todos? e por que se mostraria bom para com os homens e injustíssimo para com aquele que o criou, despojando-o dos que são dele?
[8] E como poderia o Senhor, se fosse Filho de outro Pai, declarar justamente que o pão pertencente à nossa criação é o seu corpo e afirmar que a mistura do cálice era o seu sangue?
[9] Como poderia proclamar-se filho do homem se não tivesse geração humana?
[10] Como poderia perdoar-nos os pecados que nos tornavam devedores do nosso Criador e Deus?
[11] Como poderia ser crucificado e como poderiam sair de seu lado transpassado sangue e água se não tivesse verdadeira carne e só aparentemente fosse homem?
[12] Que corpo era aquele que os sepultadores sepultaram, e qual o que ressuscitou dos mortos?
[13] Este discípulo julgará também todos os valentinianos, que da boca para fora confessam um único Deus Pai, de quem derivam todas as coisas, e depois dizem que aquele que criou todas as coisas é fruto de degradação ou de desviação.
[14] Eles que com a boca confessam um só Senhor, Jesus Cristo, o Filho de Deus, mas no seu pensamento atribuem uma emissão distinta ao Unigênito, outra ao Verbo, outra ao Cristo e outra ainda ao Salvador, de forma que, segundo eles, todos formam uma só coisa, mas cada um deles pode ser concebido separadamente e possui a sua emissão de acordo com a sua sizígia.
[15] Assim, pela boca deles, há uma unidade, mas no seu pensamento e no espírito, olhando o que é mais profundo, se afastam desta unidade e hão de cair debaixo da multiforme condenação de Deus, quando serão interrogados pelo Cristo acerca das suas invenções; pelas quais dizem que o Cristo é posterior ao Pleroma dos 30 Éões, dos quais afirmam uma emissão, à qual assistiram como obstetras, que se deu depois da degradação e da desviação sobrevindas por causa da paixão em Sofia.
[16] O próprio Homero, seu profeta, na escola do qual inventaram tais coisas, acusá-los-á com estas palavras: “É-me inimigo como as portas do Hades quem tem uma coisa escondida no coração e outra manifesta em sua boca”.
[17] Este discípulo julgará ainda as bacharelices dos gnósticos e suas falsas opiniões, mostrando que são discípulos de Simão, o mago.
[18] Este discípulo julgará também os ebionitas.
[19] Como podem os homens se salvarem, se Deus não é quem operou a sua salvação na terra? ou como o homem irá a Deus, se Deus não veio ao homem? como poderão eles abandonar a geração de morte, se não for por novo nascimento dado por Deus de maneira inesperada e maravilhosa em sinal de salvação, aquele que aconteceu no seio da Virgem, e serem regenerados pela fé? ou como receberão de Deus a adoção, permanecendo neste nascimento que é segundo o homem neste mundo?
[20] Como poderia ser maior do que Salomão ou do que Jonas e como seria o Senhor de Davi se fosse da mesma substância deles?
[21] Como poderia derrotar quem que era mais forte do que o homem, que tinha vencido o homem e o mantinha em seu poder, como poderia triunfar do vencedor e libertar o vencido, se não fosse superior ao homem vencido?
[22] Maior que o homem, feito à semelhança de Deus, quem poderia ser, excetuando-se o Filho de Deus, à semelhança do qual o homem foi feito?
[23] Por isso, no fim, o próprio Filho de Deus mostrou esta semelhança, fazendo-se homem, assumindo em si a antiga criatura, como explicamos no livro anterior.
[24] Este discípulo julgará também os que introduzem a pura aparência.
[25] Como pensam disputar se o seu mestre não foi mais que aparência? ou como podem obter dele certeza se foi somente aparência e não realidade? como podem participar da salvação, se aquele no qual dizem acreditar manifestou-se de modo aparente?
[26] Se para eles tudo é aparente e não verdadeiro, então dever-se-á perguntar se também eles, que não são homens, mas somente animais sem razão, não apresentam à maioria dos homens simplesmente pura aparência de homens?
[27] Este discípulo julgará também os falsos profetas que sem ter recebido de Deus o carisma profético, e sem o temor de Deus, mas por vanglória, ou por interesse qualquer, ou pela influência de algum mau espírito, fingem profetizar, mentindo acerca de Deus.
[28] Este discípulo julgará também os fautores de cismas, falsos e sem amor de Deus, que visam mais à sua vantagem do que a unidade da Igreja e pelos motivos mais insignificantes e fúteis rasgam e dividem o corpo glorioso de Cristo e, no que lhes diz respeito, o matam: falam de paz e fazem a guerra, verdadeiramente coam o mosquito e engolem o camelo; deles não pode vir reforma alguma que equivalha aos danos causados pelo cisma.
[29] Este discípulo julgará ainda todos os que estão fora da verdade, isto é, fora da Igreja.
[30] Quanto a ele não será julgado por ninguém, porque tudo nele possui firmeza inquebrantável: a fé íntegra no único Deus onipotente, de quem tudo procede; a adesão firme em Jesus Cristo nosso Senhor, Filho de Deus, por quem tudo existe, e nas economias pelas quais se fez homem, ele, o Filho de Deus; e no Espírito de Deus que comunica o conhecimento da verdade, que manifesta as economias do Pai e do Filho segundo as quais esteve presente no gênero humano, como o Pai quer.
[31] A verdadeira gnose é a doutrina dos apóstolos, é a antiga difusão da Igreja em todo o mundo, é o caráter distintivo do Corpo de Cristo que consiste na sucessão dos bispos aos quais foi confiada a Igreja em qualquer lugar ela esteja.
[32] É a conservação fiel das Escrituras que chegou até nós, a explicação integral dela, sem acréscimos ou subtrações, a leitura isenta de fraude e em plena conformidade com as Escrituras, explicação correta, harmoniosa, isenta de perigos ou de blasfêmias.
[33] E, mais importante, é o dom da caridade, mais precioso do que a gnose, mais glorioso do que a profecia, superior a todos os outros carismas.
[34] Eis por que a Igreja, no seu amor por Deus, em todo lugar e todo tempo, envia multidão de mártires ao Pai enquanto os outros não podem mostrar junto de si esse fenômeno, dizendo que este testemunho é desnecessário; o verdadeiro testemunho é a sua doutrina.
[35] A não ser um ou dois, durante o tempo a seguir àquele em que o Senhor apareceu na terra, como se ele também tivesse alcançado misericórdia, carregou o opróbrio do nome com os nossos mártires e foi conduzido com eles ao suplício, como uma espécie de suplemento que lhes foi concedido.
[36] O opróbrio dos que sofrem perseguição pela justiça, sofrem toda espécie de tormentos, e são mortos pelo amor de Deus e a confissão de seu Filho, só a Igreja o suporta puramente; continuamente mutilada, logo aumenta os seus membros e readquire a integridade, do mesmo modo que o seu tipo, a mulher de Lot, a estátua de sal.
[37] Assim os profetas antigos sofriam perseguições como diz o Senhor: “Foi assim que perseguiram os profetas que viveram antes de vós”; porque o Espírito que repousa sobre ela é o mesmo, sofre perseguições novas dos que não recebem o Verbo de Deus.
[38] Porque, além do mais, os profetas anunciaram também que todos os que sobre os quais pousaria o Espírito de Deus, que teriam obedecido ao Verbo do Pai e o serviriam com todas as suas forças, sofreriam perseguições, seriam lapidados e mortos.
[39] Porque os profetas prefiguravam em suas pessoas tudo isso, por causa de seu amor a Deus e pelo seu Verbo.
[40] Sendo eles também membros do Cristo, cada um manifestava a profecia da forma da qual era membro, e não obstante o seu número, prefiguravam e anunciavam o que se referia a um só.
[41] Como por meio dos nossos membros se manifesta a atividade de todo o nosso corpo, e a forma de um homem não aparece por um só membro, mas pela sua totalidade, assim os profetas, todos prefiguravam um só, mas cada um deles cumpria a economia da forma da qual era membro e profetizava a obra de Cristo que correspondia a este membro.
[42] Alguns, contemplando-o na glória, viam a sua vida gloriosa à destra do Pai.
[43] Outros, ao contemplá-lo vindo sobre as nuvens como Filho do homem, disseram: “Eles verão aquele que transpassaram”, indicando assim aquela vinda de que ele próprio diz: “Acreditas que quando o Filho do homem vier encontrará a fé sobre a terra?”
[44] Paulo diz desta vinda: “É coisa justa para Deus retribuir com tribulação os que vos atribulam e a vós que sois atribulados conceder o descanso conosco quando se revelar o Senhor Jesus, vindo do céu, com os anjos do seu poder, no meio de chama ardente”.
[45] Outros, chamando-o Juiz e comparando o dia do Senhor a uma fornalha ardente, porque recolhe o trigo em seus celeiros e queima a palha num fogo que não se apaga, ameaçavam os incrédulos com o castigo de que o Senhor fala: “Ide longe de mim, malditos, para o fogo eterno que meu Pai preparou para o diabo e seus anjos”.
[46] E também de que o Apóstolo falava: “Eles sofrerão a pena eterna da perdição pela face do Senhor e o esplendor de seu poder, quando virá para ser glorificado nos seus santos e ser reconhecido admirável nos que acreditaram nele”.
[47] Outros ainda disseram: “Belo de aspecto, mais do que os filhos dos homens”, e: “O Deus, o teu Deus, ungiu-te com óleo de alegria de preferência a teus companheiros”, e: “Cinge a tua espada ao teu flanco; com a tua beleza e o teu aspecto, avança, prospera e reina com lealdade, mansidão e justiça”, e assim a seguir, tudo o que disseram, para mostrar o esplendor, a beleza e a alegria no seu reino, mais brilhantes e excelentes do que todos os que reinam com ele, para que todos os que escutarem desejem encontrar-se ali, depois de ter cumprido o que agrada a Deus.
[48] Outros ainda disseram: “É homem, e quem o conhecerá?” e: “Eu fui à profetisa e ela deu à luz um filho; seu nome é Conselheiro admirável, Deus forte”.
[49] E os que o chamavam Emanuel, nascido da Virgem, queriam com isso indicar a união do Verbo de Deus com a criatura modelada por ele, isto é, que o Verbo se faria carne, e o Filho de Deus, Filho do homem; o puro que abre de modo puro o seio puro que regenera os homens em Deus, que ele fez puro; e tendo-se feito aquilo mesmo que nós somos, é o Deus forte e possui origem inexprimível.
[50] Outros ainda disseram: “O Senhor falou em Sião e de Jerusalém fez ecoar a sua voz”, e: “Deus é conhecido em Judá”, para indicar a sua vinda na Judéia.
[51] E os que dizem que Deus vem do Áfrico, do monte sombrio e denso, querem indicar a sua vinda de Belém, como mostramos no livro precedente, donde vem como chefe e pastor do povo de seu Pai.
[52] Outros ainda disseram: “Na sua vinda o coxo pulará como cervo, a língua dos mudos será desamarrada e os ouvidos dos surdos escutarão”; e ainda: “Serão fortificados os joelhos fracos e as mãos desfalecidas”, e: “os mortos se levantarão dos sepulcros”; e: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregará as nossas doenças”, para indicar as curas que teria operado.
[53] Outros predisseram que seria homem fraco, sem glória, sabendo suportar a enfermidade; que viria a Jerusalém montando um burrico; apresentaria as costas aos flagelos e o rosto às bofetadas; que seria levado ao sacrifício como cordeiro; que lhe dariam a beber vinagre e fel; que seria abandonado pelos amigos e companheiros; que estenderia suas mãos o dia todo; que seria objeto de riso e desprezo dos espectadores; que as suas vestes seriam repartidas e a túnica sorteada; que seria colocado na poeira da morte etc.
[54] Com isso eles profetizavam a sua vinda à natureza humana e a sua entrada em Jerusalém, onde sofreu, foi crucificado e suportou todos estes tormentos.
[55] Outros ao dizer: “O Senhor, o Santo, lembrou-se de seus mortos que já tinham adormecido na terra lodocenta, desceu até eles para os tirar de lá e salvá-los”, apresentavam o motivo pelo qual sofreu isso tudo.
[56] Os que disseram: “Naquele dia, assim fala o Senhor, o sol se porá ao meio-dia e haverá trevas sobre a terra num dia de céu limpo e mudarei as vossas festas em luto e todos os vossos cantos em lamentações”, anunciaram com grande evidência o pôr-do-sol, que na sua crucifixão se deu ao meio-dia, e que depois deste acontecimento as festas e os cânticos prescritos pela Lei se transformariam em luto e lamentação, quando seriam entregues aos pagãos.
[57] Jeremias anunciou de maneira mais clara ainda estes acontecimentos, quando dizia de Jerusalém: “Esmoreceu aquela que gerou, sua alma desfaleceu, o sol se pôs para ela quando ainda era meio-dia; está envergonhada e consternada; o que resta deles eu o entregarei à espada diante de seus inimigos”.
[58] Os que disseram que teria adormecido e caído no sono e que teria acordado porque o Senhor o sustentou; e mandavam que os príncipes dos céus abrissem as portas eternas para que entrasse o Rei da glória, proclamavam a sua ressurreição dos mortos pelo poder do Pai e a sua recepção nos céus.
[59] Outros disseram: “A sua saída é do extremo do céu e o seu percurso vai até outro extremo e nada escapa ao seu calor”, anunciavam que subiria aos céus de onde desceu e que ninguém escaparia ao seu justo juízo.
[60] Os que disseram: “O Senhor é rei: que os povos se irritem; ele está assentado sobre os querubins: a terra se abale!” profetizavam, por um lado, a ira de todos os povos contra os que acreditariam nele depois da ascensão e a agitação de toda a terra contra a Igreja; e, por outro, o tremor de toda a terra, quando da sua volta do céu com os mensageiros de seu poder, conforme ele mesmo disse: “Haverá grande comoção na terra, como nunca houve desde o princípio”.
[61] Outros ainda disseram: “Quem é julgado? Poste-se em frente. Quem é justificado? Aproxime-se ao servo do Senhor!” e: “Ai de vós, pois envelhecereis todos como um vestido e a traça vos destruirá”; e: “Toda carne será rebaixada e somente o Senhor será elevado nas alturas” para indicar que depois da sua paixão e ascensão Deus poria debaixo de seus pés todos os seus adversários, que ele seria elevado acima de todos e que ninguém poderia ser justificado ou comparado com ele.
[62] Os que dizem que Deus concluiria uma nova aliança em favor dos homens, diversa da que tinha feito com os pais no monte Horeb, e daria aos homens coração novo e espírito novo; e também: Esquecei as coisas anteriores; eis que faço novas coisas que agora surgirão e vereis; no deserto farei um caminho e na terra árida rios para matar a sede da raça escolhida, o meu povo que adquiri para contar os meus prodígios, anunciavam claramente a liberdade do Novo Testamento e o vinho novo que se põe nos odres novos, isto é, a fé em Cristo, caminho da justiça aberto no deserto e os rios do Espírito Santo brotados na terra árida para matar a sede da raça escolhida de Deus, que adquirira para que contasse os seus prodígios e não para insultar a Deus que fez estas coisas.
[63] Assim, como demonstramos por esta citação tão extensa das Escrituras, um homem verdadeiramente espiritual interpretará todas as palavras que foram ditas pelos profetas mostrando o aspecto particular das economias do Senhor que eles visavam e, ao mesmo tempo, a totalidade da obra feita pelo Filho de Deus.
[64] Reconhecerá, em todos os tempos, o mesmo Deus como também o mesmo Verbo de Deus que presentemente se nos manifestou e, em todos os tempos, reconhecerá o mesmo Espírito de Deus que foi derramado em nós, de maneira nova, nos últimos tempos.
[65] Finalmente reconhecerá, desde a criação do mundo e até o fim, o mesmo gênero humano no qual os que creem em Deus e seguem o seu Verbo obtêm dele a salvação, ao passo que os que se afastam de Deus e desprezam os seus mandamentos desonram pelas obras o seu Criador e blasfemam por seus pensamentos aquele que os sustenta e cumulam contra si mesmos o mais justo dos julgamentos.
[66] Portanto este homem julga a todos enquanto ele não é julgado por ninguém; não insulta seu Pai, não despreza as suas economias, não acusa os pais, não desconhece os profetas, dizendo que eram enviados por outro Deus ou que provinham de substâncias diversas.

