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[1] Contra todos os hereges e primeiramente contra os discípulos de Marcião e os que como eles dizem que os profetas foram enviados por outro Deus, diremos: lede com maior atenção o Evangelho que nos foi dado pelos apóstolos, lede com maior atenção as profecias e podereis comprovar que toda a obra, toda a doutrina e toda a paixão de nosso Senhor foi predita por eles.

[2] Se vos ocorrer este pensamento: então o que trouxe de novidade a vinda do Senhor? Ficai sabendo que trouxe toda novidade, trazendo a si mesmo, que fora anunciado.

[3] Com efeito, o que foi predito é que a novidade viria para renovar e vivificar o homem. A chegada do rei é anunciada pelos servos enviados para apressar a preparação dos que receberão o Senhor.

[4] Depois da vinda do Rei, quando os súditos foram cumulados da alegria prometida, receberam a liberdade, foram beneficiados pela sua vinda, escutaram as suas palavras e se alegraram pelos seus dons, já não tem sentido perguntar, pelo menos para os que são sensatos, qual novidade ele trouxe a mais do que os que anunciaram a sua vinda, porque ele trouxe a si mesmo e ofereceu aos homens os bens preanunciados, que os anjos desejavam ver.

[5] Se o Cristo não tivesse cumprido as profecias, vindo exatamente como fora anunciado, os servos seriam uns mentirosos e não os enviados pelo Senhor.

[6] Eis por que ele dizia: “Não penseis que eu vim para abolir a Lei ou os Profetas: eu não vim para abolir, mas para cumprir. Em verdade, eu vos digo: até que não passem o céu e a terra não cairão da Lei e dos Profetas um só iota nem uma só vírgula sem que tudo se cumpra”.

[7] Ele cumpriu tudo com a sua vinda e ainda cumpre na Igreja, até seu completamento, a nova Aliança preanunciada pela Lei. É assim que o apóstolo Paulo escreve na carta aos Romanos: Agora, sem a Lei, foi manifestada a justiça de Deus que foi testemunhada pela Lei e pelos Profetas. O justo viverá pela fé. Ora, que o justo vive pela fé já fora predito pelos profetas.

[8] Como poderiam os profetas predizer a vinda do Rei, anunciar a liberdade por ele concedida, profetizar todas as obras de Cristo, as suas palavras, a missão e a paixão e prenunciar a nova Aliança se recebessem a inspiração de outro Deus que, segundo vós, não conhecia o Pai inefável nem o reino nem as economias que o Filho de Deus cumpriu nestes últimos dias ao vir à terra?

[9] Não é possível que estas coisas tenham acontecido por acaso, como se fossem ditas de outro pelos profetas e depois tivessem acontecido com o Senhor exatamente como foram previstas.

[10] Todos os profetas vaticinaram estas mesmas coisas e não aconteceram com nenhum dos antigos. Se tivessem acontecido com alguns dos antigos, os profetas posteriores não as teriam anunciado como futuras nos últimos tempos.

[11] Não há ninguém, entre os patriarcas, nem entre os profetas, nem entre os antigos reis em que se tenham realizado de maneira precisa e própria algumas destas profecias: todos profetizaram a paixão de Cristo, mas eles estavam bem longe de enfrentar sofrimentos semelhantes aos que eram anunciados.

[12] Os sinais prenunciados em relação à paixão do Senhor não se realizaram em ninguém mais: o sol não se pôs ao meio-dia quando da morte de algum dos antigos, nem se rasgou o véu do templo, nem houve terremoto, nem se fenderam as pedras, nem os mortos ressuscitaram, nem alguém ressuscitou ao terceiro dia, nem quando elevado ao céu viu os céus abrirem-se-lhe, nem os gentios acreditaram no nome de algum outro, nem algum deles, ressuscitando da morte, abriu o novo Testamento da liberdade.

[13] Os profetas não falavam, portanto, de nenhum outro, mas do Senhor, em que se realizaram todos os sinais prenunciados.

[14] Se alguém, querendo tomar a defesa dos judeus, disser que a nova Aliança não é outra coisa que a construção do templo, depois do exílio da Babilônia, no tempo de Zorobabel e o regresso do povo que se deu depois de setenta anos, saiba que então foi reconstruído o templo de pedra — porque ainda era conservada a Lei escrita em tábuas de pedra — e não foi dada nenhuma nova aliança, mas foi seguida a Lei de Moisés até a vinda do Senhor.

[15] Foi somente depois da vinda do Senhor que nova aliança, conciliadora de paz, e uma Lei vivificante se difundiram por toda a terra, como disseram os profetas: “De Sião sairá a lei e de Jerusalém a palavra do Senhor e corrigirá muitos povos; quebrarão suas espadas para fazer arados e suas lanças para fazer foices e não se aprenderá mais a fazer guerra”.

[16] Se outra Lei ou outra palavra saída de Jerusalém tivesse instaurado uma paz tão grande entre os gentios que a tivessem recebido e por meio deles tivesse censurado o povo numeroso de imprudência, poder-se-ia pensar que os profetas falavam de algum outro.

[17] Mas se a Lei de liberdade, isto é, a palavra de Deus anunciada por toda a terra pelos apóstolos saídos de Jerusalém, chegou a produzir mudança tal que as espadas e lanças de guerra foram transformadas em arados, que ele mesmo fabricou, e em foices que ele deu para ceifar o trigo, isto é, em instrumentos pacíficos; se de tal forma mudou os homens que já não sabem combater e, esbofeteados, oferecem a outra face, então os profetas não falaram de ninguém mais a não ser daquele que fez estas coisas.

[18] Este é nosso Senhor, no qual se verificou a palavra, aquele que fez o arado e trouxe a foice, isto é, a primeira semeadura do homem que fez Adão, sua criatura, e, no final dos tempos, a colheita feita pelo Verbo.

[19] Por isso, unindo o princípio ao fim, sendo o Senhor dos dois, no fim mostrou o arado, a madeira unida ao ferro e assim limpou a terra; porque o Verbo firme unido à carne e fixado de certa forma nela limpou a terra silvestre.

[20] No início mostrou a foice na figura de Abel significando a comunidade humana dos justos: “Vê, se diz, como o justo perece e ninguém o nota; os homens justos são ceifados e ninguém se preocupa”.

[21] Isto era mostrado praticamente em Abel, era prenunciado pelos profetas, mas cumpria-se no Senhor; e a mesma coisa se cumpre em nós, pois o corpo segue a sua cabeça.

[22] Estes argumentos são apresentados também contra os que dizem que os profetas foram enviados por outro Deus, diverso do Pai de nosso Senhor e têm força desde que renunciem a tamanha irracionalidade.

[23] É por isso que nos esforçamos por fornecer provas tiradas das Escrituras para que sejam refutados por estes mesmos textos, e, pelo que está em nosso poder, os afastemos desta blasfêmia enorme e desta fabricação extravagante de muitos deuses.

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