[1] Contra os discípulos de Valentim e os outros falsamente apelidados gnósticos que pretendem que algumas das realidades contidas nas Escrituras foram pronunciadas ora por uma Potência suprema mediante a semente tirada dela, ora pelo Intermediário mediante a Mãe Sofia e, na sua maior parte, pelo Criador do mundo, que teria enviado os profetas, diremos que é altamente irracional reduzir o Pai de todas as coisas à extrema miséria a ponto de não ter os meios para dar a conhecer, na sua pureza, as realidades do Pleroma.
[2] De quem teria medo, por não dar a conhecer a sua vontade claramente e em toda liberdade, sem se misturar com este espírito caído na degradação e na ignorância?
[3] Recearia, acaso, que muitíssimos se salvariam por entenderem a verdade na sua pureza? Ou então temeria ser incapaz de preparar os que deveriam anunciar a vinda do Salvador?
[4] Se, depois da sua vinda, o Salvador enviou ao mundo os apóstolos a anunciarem a sua vinda e a ensinarem em toda a sua pureza a vontade do Pai sem terem nada em comum com a doutrina dos pagãos ou dos judeus, com maior razão, estando no Pleroma, deveria destinar seus próprios pregadores para anunciar a sua vinda a este mundo sem ter nada em comum com as profecias emanadas pelo Demiurgo.
[5] Se, porém, estando no Pleroma, serviu-se dos profetas que derivavam da Lei, e por seu intermédio comunicou os seus ensinamentos, muito mais deveria usar tais mestres depois da sua vinda para nos anunciar por meio deles o Evangelho.
[6] Então não digam que foram Pedro, Paulo e os outros apóstolos a anunciar a verdade, mas os escribas, os fariseus e os outros que anunciavam a Lei.
[7] Visto, porém, que na sua vinda enviou seus próprios apóstolos no espírito de verdade e não de erro, fez a mesma coisa com os profetas porque desde sempre é o mesmo Verbo de Deus.
[8] Se o espírito derivado da Potência suprema foi, segundo o seu sistema, espírito de luz, espírito de verdade, espírito de perfeição e espírito de conhecimento, ao passo que o derivado do Demiurgo foi espírito de ignorância, de degradação, de erro e de trevas, como é possível existir simultaneamente e num só a perfeição e a degradação, o conhecimento e a ignorância, a verdade e o erro, a luz e as trevas?
[9] Se isso era impossível verificar-se nos profetas que, da parte do Deus único, pregavam o Deus verdadeiro e anunciavam a vinda de seu Filho, com maior razão o próprio Senhor pode falar ora da parte da Potência suprema, ora da parte do fruto da degradação, tornando-se assim, ao mesmo tempo, mestre de conhecimento e de ignorância, nem glorificar ora o Demiurgo, ora o Pai, que está acima dele.
[10] Como ele próprio diz: “Ninguém costura remendo novo em vestido velho, nem derrama vinho novo em odres velhos”.
[11] Portanto, ou renunciam aos profetas como coisas velhas e não dizem mais que, mesmo enviados pelo Demiurgo, disseram coisas novas da parte da Potência suprema, ou serão repreendidos pelo Senhor que diz que o vinho novo não se derrama em odres velhos.
[12] Como poderia a semente da Mãe deles conhecer e falar dos mistérios internos do Pleroma?
[13] A Mãe o gerou fora do Pleroma e o que está fora do Pleroma, segundo eles, está excluído da gnose, isto é, está na ignorância.
[14] Como, então, podia, a semente concebida na ignorância, anunciar o conhecimento?
[15] Ou como poderia a própria Mãe conhecer os mistérios do Pleroma, ela que não tendo nem forma e nem figura foi lançada fora como aborto e aqui formada e plasmada, e que foi impedida pelo Limite de reentrar e que deve ficar fora do Pleroma até a consumação final, isto é, fora do conhecimento?
[16] Além disso, ao dizer que a paixão do Senhor foi o tipo da extensão do Cristo superior, pela qual este, estendendo-se sobre o Limite, formou a Mãe deles, são refutados por tudo o resto porque não podem mostrar a correspondência com o tipo.
[17] Com efeito, quando ao Cristo do alto foram apresentados o vinagre e o fel?
[18] Quando foram repartidas as suas vestes?
[19] Quando lhe foi aberto o lado e saiu sangue e água?
[20] Quando suou gotas de sangue?
[21] E todas as outras coisas que aconteceram ao Senhor, de que falaram os profetas?
[22] Como a Mãe ou a sua semente poderiam adivinhar o que ainda não acontecera e que só aconteceria no futuro?
[23] Dizem ainda que, além destas, há as coisas que foram ditas pela Potência suprema, mas são refutados pelo que é referido nas Escrituras sobre a vinda de Cristo.
[24] Quaisquer sejam estas coisas, eles não estão de acordo entre si e dão respostas diversas em relação às mesmas coisas.
[25] Se alguém, para prová-los, interroga separadamente as pessoas mais eminentes entre eles acerca de algum texto, perceberá que alguns referem o que lhe foi perguntado ao Protopai, isto é, o Abismo; outro, ao Princípio de todas as coisas, isto é, o Unigênito; outro, ao Pai de todas as coisas, isto é, o Logos; outro ainda, a um dos Éões do Pleroma, outro, ao Cristo, outro, ao Salvador; e aquele que é mais instruído entre eles, depois de ter ficado bastante tempo em silêncio, declara que se trata de Hórus; outro, que é indicada a Sofia, interior ao Pleroma; outro verá indicada a Mãe exterior ao Pleroma e outro nomeará o Deus, criador do mundo.
[26] Tantas são as diferenças entre eles a respeito de só ponto e tantas as interpretações das mesmas Escrituras!
[27] Acaba-se de ler um único e mesmo texto e eis que todos franzem as sobrancelhas e meneiam a cabeça dizendo que tem doutrina muito profunda e que nem todos entendem o sentido que encerra e por isso o silêncio é a coisa mais sublime entre os sábios: devem com o seu silêncio fornecer uma figura ao Silêncio do alto.
[28] E assim todos eles, tantos quantos são e outras tantas opiniões sobre o mesmo texto, vão levando consigo, no mais profundo de si, as suas subtilezas.
[29] Portanto, quando se terão posto de acordo sobre o que foi predito nas Escrituras, também nós os refutaremos, porque neste meio tempo já se refutam a si mesmos pelo desacordo sobre as mesmas palavras.
[30] Nós, porém, seguindo o único Deus como verdadeiro Mestre e tendo como regra de verdade as suas palavras, todos dizemos sempre as mesmas coisas a respeito dos mesmos argumentos, reconhecendo um só Deus, Criador deste universo, que enviou os profetas, que tirou o povo da terra do Egito, que nos últimos tempos revelou o próprio Filho para confundir os incrédulos e exigir o fruto da justiça.

