[1] As palavras que diz: “Quantas vezes quis reunir os teus filhos e não quiseste”, ilustram bem a antiga lei da liberdade do homem, porque Deus o fez livre desde o início, com a sua vontade e a sua alma para consentir aos desejos de Deus sem ser coagido por ele.
[2] Deus não faz violência, e o bom conselho o assiste sempre, e por isso dá o bom conselho a todos, mas também dá ao homem o poder de escolha, como o dera aos anjos, que são seres racionais, para que os que obedecem recebam justamente o bem, dado por Deus e guardado para eles enquanto os desobedientes serão justamente frustrados neste bem e sofrerão o castigo merecido.
[3] Pois Deus, na sua bondade, lhes dera o bem, mas eles não o guardaram com diligência e não o julgaram precioso e até desprezaram a excelência da sua bondade. Abandonando e recusando o bem incorrerão no justo juízo de Deus, como o testemunha o apóstolo Paulo na carta aos Romanos, quando diz: “Será que desprezas a riqueza de sua bondade, da paciência e da generosidade, desconhecendo que a bondade de Deus te convida à conversão? Pela teimosia e dureza de coração amontoas ira contra ti mesmo para o dia da ira e da revelação do justo julgamento de Deus”. “A glória e a honra, diz, são para todos os que fazem o bem”.
[4] Portanto, Deus ofereceu o bem, como o testemunha o Apóstolo na carta mencionada, e os que o praticam receberão glória e honra por tê-lo feito, quando podiam não fazê-lo; os que não o fazem receberão o justo julgamento de Deus por não ter feito o bem que podiam fazer.
[5] Se, por natureza, alguns fossem bons e outros maus, nem aqueles seriam louváveis por serem bons, porque nasceram assim, nem estes seriam condenáveis porque foram feitos assim.
[6] Mas como todos são da mesma natureza, capazes de possuir e operar o bem e capazes de perdê-lo e de não fazê-lo, os que escolheram e perseveraram no bem recebem digno testemunho por isso, e são justamente louvados pelas pessoas sensatas — e muito mais por Deus — os outros são repreendidos e recebem a merecida infâmia por terem recusado o bem e o justo.
[7] Por isso os profetas exortavam os homens a praticar a justiça e a fazer o bem, como abundantemente demonstramos, porque está em nós, mas visto que pela nossa negligência nos esquecemos facilmente e precisamos de bom conselho, o bom Deus nos deu bom conselho por meio dos profetas.
[8] Por isso o Senhor diz: “Que a vossa luz brilhe diante dos homens para que vejam as vossas boas obras e louvem o vosso Pai que está nos céus”.
[9] E: “Tomai cuidado para que os vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida”.
[10] E: “Estejai com os rins cingidos e com as lâmpadas acesas e semelhantes a homens que esperam o seu senhor voltar da festa de casamento para que logo que chegar e bater lhe abram. Feliz o servo que o senhor encontrar assim, na sua volta”.
[11] E ainda: “O servo que conhece a vontade do seu dono e não a cumpre, receberá muitas chicotadas”.
[12] E: “Por que me dizeis: Senhor, Senhor! e não fazeis o que vos digo?”
[13] E ainda: “Se um servo diz em seu coração: O meu dono está atrasando e começa a bater nos seus companheiros, a comer, a beber e a embriagar-se, virá o dono num dia em que não o espera, prendê-lo-á e lhe dará a sua parte com os hipócritas”.
[14] E todas as outras coisas que mostram o livre-arbítrio do homem e que Deus o instrui com o seu conselho, exortando-nos à submissão a ele, precavendo-nos da incredulidade, mas sem nos obrigar com a violência.
[15] É possível também não seguir o Evangelho, se alguém assim quiser, contudo não é conveniente.
[16] A desobediência a Deus e a recusa do bem estão em poder do homem, mas comportam prejuízo e castigo não indiferentes.
[17] Por isso Paulo diz: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”, indicando a liberdade do homem pela qual tudo lhe é lícito, pois Deus não o obriga e mostrando “o que não convém” para que não abusemos da liberdade a fim de encobrir a malícia: isto não convém.
[18] E diz ainda: “Cada um diga a verdade com seu próximo”.
[19] E: “Não saia de vossa boca nenhuma palavra má, indecente, picante ou maliciosa, são coisas inconvenientes; em vez disso, deem graças a Deus”.
[20] E: “Há tempo, éreis trevas, agora, porém, sois luz no Senhor: portai-vos honestamente como filhos da luz, não em orgias e bebedeiras, nem em devassidão e libertinagem, nem em rixas e ciúmes”.
[21] “Alguns de vós foram isso, mas fostes lavados, santificados no nome de nosso Senhor”.
[22] Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o Apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselhariam a fazer algumas coisas e a nos abster de outras?
[23] Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus.
[24] Não somente nas ações, mas também na fé, o Senhor deixou livre e independente o arbítrio do homem.
[25] Ele disse: “Seja-te feito segundo a tua fé”, mostrando que a fé é própria do homem, pois tem o poder de decidir.
[26] E ainda: “Tudo é possível para quem crê”.
[27] E mais: “Vai, e te seja feito conforme acreditaste”.
[28] E todos os textos análogos que mostram o homem livre em relação à fé.
[29] Por isso “aquele que crê nele tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho, não terá a vida eterna, mas a ira de Deus ficará sobre ele”.
[30] Segundo este princípio, indicando ao homem seu verdadeiro bem e afirmando ao mesmo tempo a sua liberdade de arbítrio e de poder, o Senhor dizia a Jerusalém: “Quantas vezes quis reunir os teus filhos, como a galinha recolhe os pintinhos debaixo das asas, e não quiseste”.
[31] “Eis por que a vossa casa será deixada deserta”.
[32] Os que dizem o contrário introduzem um Senhor impotente e incapaz de fazer o que quiser ou ignaro dos que por natureza são terrenos, como dizem, e não podem receber a sua incorruptibilidade.
[33] Então, se diz, não deveria ter criado nem anjos que pudessem desobedecer, nem homens que logo lhe fossem ingratos, por serem racionais, capazes de discernimento e de julgamento, mas como os seres irracionais ou os inanimados que não podem fazer nada por sua vontade, que são levados ao bem pela necessidade ou pela força, sujeitos a uma única tendência e a um único comportamento, inflexíveis e sem discernimento, que não podem ser diferentes do que foram feitos.
[34] Desta forma, nem o bem seria atraente, nem a união com Deus seria muito apreciada, nem muito desejado o bem que chegasse sem esforço próprio, sem preocupação, sem procura, por acontecer espontaneamente e ser inerente ao homem.
[35] Então os bons já não teriam nenhum merecimento, pois são assim mais por natureza do que pela sua vontade, possuindo o bem automaticamente e não por livre escolha, nem entenderiam a excelência do bem como não gozariam dele.
[36] Que alegria do bem seria possível para os que não o conhecem? Qual glória para os que não se esforçaram por tê-lo? Qual coroa, finalmente, para os que não a conquistaram como vencedores da luta?
[37] Por isso o Senhor disse que o reino dos céus é objeto de violência e são os violentos que se apossam dele, isto é, os que pela violência e pela luta, pela vigilância e perseverança se apossam dele.
[38] É por isso que também o apóstolo Paulo diz aos coríntios: “Não sabeis que os que correm no estádio, correm todos, mas um só ganha o prêmio? Correi, portanto, de maneira a consegui-lo. Os atletas se abstêm de tudo; eles, para ganhar uma coroa perecível, nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível. Quanto a mim é assim que corro, não ao incerto, é assim que pratico o pugilato, mas não como quem golpeia o ar; encho de livor o meu corpo e reduzo-o à servidão, para que, depois de ter pregado aos outros eu mesmo não seja reprovado”.
[39] Portanto, como bom lutador nos anima à luta pela incorruptibilidade, de modo que sejamos coroados e apreciemos a coroa por nós conquistada com a luta e não oferecida de graça.
[40] Quanto maior é o esforço para obtê-la, tanto mais para nós é preciosa, e quanto mais é preciosa tanto mais a amamos: não se amam da mesma maneira as coisas encontradas por acaso e as encontradas com grande fadiga.
[41] Para nós era mais importante amar a Deus, por isso o Senhor nos deu e o Apóstolo transmitiu este ensinamento: encontrar Deus pela luta.
[42] Por outro lado, o nosso bem seria incompreendido se não fosse conseguido à custa de esforço.
[43] A visão não nos seria tão desejável se não conhecêssemos o grande mal que é a cegueira; a saúde torna-se mais preciosa pela experiência da doença; assim a luz pela comparação com as trevas, a vida com a morte.
[44] Assim o reino celeste é mais precioso para os que conheceram o terreno.
[45] Quanto mais precioso é tanto mais o amamos e quanto mais o amamos tanto mais seremos gloriosos junto de Deus.
[46] O Senhor permitiu tudo isso para nós a fim de que fôssemos instruídos em tudo e permanecêssemos para sempre fiéis em todas as coisas e radicados em seu amor, tendo aprendido a amar a Deus como homens racionais; Deus se mostrou magnânimo diante da apostasia do homem e o homem, por sua vez, aprendeu com ela, como diz o profeta: “A tua apostasia te instruirá”.
[47] Desta maneira Deus tudo dispôs para a perfeição do homem e para a atuação e revelação das suas economias, a fim de mostrar a sua bondade e para que se cumpra a justiça e a Igreja seja configurada à imagem de seu Filho, e finalmente para que o homem formado por tanta experiência se torne maduro para ver e entender a Deus.

