[1] Se alguém perguntasse: Ora! Deus não podia fazer o homem perfeito desde o princípio? Saiba que no que diz respeito a Deus, que é incriado e sempre igual a si mesmo, tudo era possível, mas as suas criaturas, enquanto receberam depois o início da existência, eram necessariamente inferiores a quem as fez.
[2] Com efeito, era impossível que seres criados há pouco fossem incriados, e, pelo fato de não serem incriados, estão abaixo da perfeição e pelo fato de serem subsequentes são como criancinhas e como tais não estão acostumados nem treinados para disciplina perfeita.
[3] Assim como a mãe poderia dar alimentos sólidos à criancinha, mas ela é incapaz de receber alimentos não adaptados à sua idade, assim Deus podia desde o princípio dar a perfeição ao homem, mas o homem era incapaz de recebê-la, justamente por ser como criancinha.
[4] Por isso nosso Senhor, nos últimos tempos, quando recapitulou todas as coisas em si mesmo, veio a nós não como poderia apresentar-se, mas como éramos capazes de vê-lo.
[5] Com efeito, poderia ter vindo na sua glória indescritível, mas nós não poderíamos suportar a grandeza da sua glória.
[6] Como a criancinhas, o Pão perfeito do Pai se nos deu a si mesmo na forma de leite — e esta foi a sua vinda como homem — para que alimentados, por assim dizer, ao seio da sua carne, e tornados aptos por esta amamentação a comer e a beber o Verbo de Deus, pudéssemos reter em nós mesmos o Pão da imortalidade, que é o Espírito do Pai.
[7] Eis por que Paulo diz aos coríntios: “Eu vos dei a beber leite e não vos dei alimento sólido, porque não o podíeis ainda suportar”, isto é, fostes instruídos sobre a vinda do Senhor como homem, mas o Espírito do Pai ainda não repousa sobre vós por causa da vossa fraqueza.
[8] E continua: “havendo entre vós inveja, discórdia e disputas, será que não sois carnais e não vos comportais segundo o homem?” Evidentemente o Espírito do Pai ainda não estava sobre eles por causa da sua imperfeição e fraqueza de conduta.
[9] Assim como o Apóstolo podia dar-lhes o alimento sólido — com efeito, a todos os que os apóstolos impunham as mãos recebiam o Espírito Santo, que é o alimento da vida —, mas eles não o podiam receber por terem faculdades fracas e destreinadas para a conduta segundo Deus, assim, desde o princípio, Deus tinha a capacidade de dar a perfeição ao homem, mas este, criado recentemente, era incapaz de recebê-la, ou de recebida contê-la, ou contida retê-la.
[10] Eis por que o Verbo de Deus, que era perfeito, se tornou criança com o homem, não para si, mas por causa da infância do homem, tornando-se inteligível como para o homem era possível entender.
[11] A impossibilidade e a imperfeição não estavam em Deus, mas no homem há pouco criado e precisamente por não ser incriado.
[12] Da parte de Deus manifestam-se simultaneamente o poder, a sabedoria e a bondade: o poder e a bondade por ter criado e feito voluntariamente o que ainda não existia, a sabedoria pela proporção, medida e harmonia com que fez as criaturas, as quais, pela imensa bondade de Deus e pelos bens que lhes concede com liberalidade, podem crescer, progredir e permanecer bastante tempo e receber a glória do Incriado.
[13] Por serem criadas não são ingênitas, mas por subsistirem durante muitos séculos, recebem o poder do Incriado, pois Deus lhes concede gratuitamente a duração sempiterna.
[14] Assim Deus é superior a tudo e todos porque só ele é incriado, só ele é anterior a tudo, só ele é causa do ser para todas as coisas.
[15] E todas as coisas são inferiores a Deus e lhe estão submetidas, mas esta submissão é para elas a incorruptibilidade, a permanência da incorruptibilidade e a glória do Incriado.
[16] Esta é a ordem, o ritmo, o movimento pelo qual o homem criado e modelado adquire a imagem e a semelhança do Deus incriado: o Pai decide e ordena, o Filho executa e forma, o Espírito nutre e aumenta, o homem paulatinamente progride e se eleva à perfeição, isto é, se aproxima do Incriado, perfeito por não ser criado, e este é Deus.
[17] Era necessário que primeiramente o homem fosse criado, que depois de criado crescesse, depois de crescido se fortalecesse, depois de fortificado se multiplicasse, depois de multiplicado se consolidasse, depois de consolidado fosse glorificado, depois de glorificado visse o seu Senhor: pois é Deus que deve ser visto, um dia, e a visão de Deus causa a incorruptibilidade, e a incorruptibilidade produz o estar junto de Deus.
[18] Portanto, não estão com a razão os que não esperam o tempo do crescimento e culpam a Deus pela fraqueza de sua natureza.
[19] Ignorando a Deus e a si mesmos, estes insaciáveis e mal agradecidos, recusam ser, primeiramente, o que foram feitos, homens sujeitos às paixões; ultrapassando as leis da natureza humana, antes mesmo de serem homens querem ser semelhantes a Deus seu criador e que desapareça toda diferença entre o Deus incriado e eles criados há pouco.
[20] São mais irracionais que os animais irracionais porque estes não culpam a Deus de não tê-los feito homens, mas cada um agradece de ter sido feito o que foi feito.
[21] Nós, porém, o culpamos por não nos ter feito deuses desde o princípio, mas inicialmente homens e depois deuses.
[22] Contudo, Deus, na simplicidade da sua bondade, foi isso mesmo que fez, para que ninguém o julgasse invejoso e avarento.
[23] De fato ele diz: “Eu disse: vós sois deuses e todos sois filhos do Altíssimo”, e para nós que somos incapazes de suportar o poder da divindade, acrescenta: “Mas vós, como homens, morrereis”, indicando ao mesmo tempo a generosidade do seu dom, a nossa fraqueza e a nossa liberdade.
[24] Com efeito, na sua generosidade, ele concedeu magnificamente o bem e fez os homens livres à sua semelhança: na sua presciência conheceu a fraqueza do homem e o que a ela seguir-se-ia; e pelo seu amor e pelo seu poder triunfará da substância da natureza criada.
[25] Mas era preciso que primeiramente aparecesse a natureza, que depois fosse vencido e absorvido o mortal pela imortalidade, o corruptível pela incorruptibilidade e finalmente o homem se tornasse imagem e semelhança de Deus, depois de ter recebido o conhecimento do bem e do mal.

