[1] O homem recebeu o conhecimento do bem e do mal.
[2] O bem consiste em obedecer a Deus, acreditar nele e observar os seus mandamentos, e isto é vida para o homem; e o mal consiste na desobediência a Deus e isto é a sua morte.
[3] Pela magnanimidade de Deus o homem conheceu o bem da obediência e o mal da desobediência, para que o olho da alma, experimentando a ambos, escolha com juízo o melhor e nunca seja preguiçoso e negligente com o mandamento de Deus, e experimentando que o que lhe tira a vida, isto é, o desobedecer a Deus, é mal, nem ao menos o tente, e o que lhe conserva a vida, isto é, obedecer a Deus, é bem, o observe com toda atenção e diligência.
[4] Por isso recebeu a dupla possibilidade de conhecer um e outro para que possa escolher o melhor com competência.
[5] Como poderia conhecer o bem se lhe tivesse ignorado o contrário?
[6] A percepção das coisas presentes é mais firme e segura do que uma conjectura feita por suposição.
[7] Como a língua, pelo gosto, experimenta o doce e o amargo e o olho, pela visão, distingue o preto e o branco, e a orelha, pelo ouvido, percebe a diferença dos sons, assim o espírito, depois de ter adquirido pela experiência de um e de outro o conhecimento do bem, torna-se mais firme em conservá-lo, obedecendo a Deus.
[8] Primeiramente, pela penitência, rejeita a desobediência, como coisa amarga e má, e, depois, entendendo o que é o contrário do doce e do bem, nunca tente experimentar o gosto da desobediência a Deus.
[9] Se alguém se furta ao conhecimento de um e de outro e à sua dúplice percepção, sem se aperceber, elimina-se como homem.
[10] Como poderia ser Deus aquele que ainda não foi feito homem?
[11] Como poderá ser perfeito quem acaba de ser feito?
[12] Como poderia ser imortal quem na natureza mortal não obedeceu ao Criador?
[13] É necessário que antes sigas a ordem humana para em seguida participar da glória de Deus.
[14] Com efeito, não és tu que fazes Deus, mas é Deus quem faz a ti.
[15] Se, portanto, és obra de Deus espera pacientemente a mão do teu artífice que faz todas as coisas em tempo oportuno, de maneira adaptada a ti que és feito.
[16] Apresenta-lhe coração dócil e flexível, guarda a forma que o artífice te deu e a humildade que está em ti para que não endureças e percas o modo que os seus dedos te dão.
[17] Conservando a forma te avizinharás da perfeição e, pela arte de Deus, ficará oculta a argila que está em ti.
[18] A sua mão criou a tua substância.
[19] Ela te banhará de ouro puro e de prata, por fora e por dentro e te embelezará, tanto que o próprio Rei será cativado pela tua formosura.
[20] Mas se, logo endurecido, recusas a sua arte e te mostras descontente por ter sido feito homem, pela tua ingratidão a Deus, perdes ao mesmo tempo a sua arte e a vida.
[21] Fazer é próprio da bondade de Deus, ser feito é próprio da natureza do homem.
[22] Se, portanto, lhe entregarás o que é teu, isto é, a fé nele e a submissão, receberás o benefício da sua arte e serás a obra perfeita de Deus.
[23] Se, porém, lhe resistes e te esquivas da sua mão deverás procurar em ti que não obedeceste a causa da tua imperfeição e não naquele que te chamou.
[24] Porque ele enviou os seus servos para convidar à festa de casamento e os que não os escutaram privaram-se a si mesmos do banquete do reino.
[25] Não é a arte de Deus que falta, porque ele pode suscitar de pedras filhos a Abraão, mas quem não a aceita é a causa da sua imperfeição.
[26] Não é a luz que falta para os que se cegaram, mas enquanto ela fica sempre igual, estes cegos, por sua culpa, se encontram nas trevas.
[27] Ninguém está necessariamente submetido à luz, nem Deus obriga os que não querem conservar a sua arte.
[28] Os que se separaram da luz do Pai e transgrediram a lei da liberdade, por sua culpa se afastaram, porque foram criados livres e donos de seus atos.
[29] E Deus que conhece todas as coisas antecipadamente preparou para uns e outros morada conveniente: aos que procuram a luz da incorruptibilidade e tendem a ela, dá com bondade a luz que desejam; aos que a desprezam e se afastam fugindo dela, que de certa maneira cegam-se a si mesmos, preparou obscuridade, como convém, e aos que se subtraem à submissão a Deus, castigo apropriado.
[30] A submissão a Deus é o descanso eterno e os que fogem da luz terão lugar digno da sua fuga e os que fogem do descanso eterno terão morada apropriada à sua fuga.
[31] Todos os bens se encontram em Deus e os que fogem de Deus por sua própria vontade privam-se de todos os bens e, privados de todos os bens que se encontram em Deus, justamente cairão sob o justo juízo de Deus.
[32] Os que fogem ao descanso é justo que vivam na pena e os que fogem da luz é justo que vivam nas trevas.
[33] É como acontece com esta luz temporal: os que fogem dela são para si mesmos a causa de serem privados dela e morarem nas trevas e não é a luz a causa de eles estarem nesta morada, como dissemos acima.
[34] A mesma coisa se dá com os que fogem da luz eterna de Deus, que contém todos os bens: por culpa própria são para si a causa de morarem nas trevas eternas e de serem privados de todos os bens.

