[1] Ainda, acerca de Jerusalém e da casa, ousam dizer que se ela fosse a cidade do grande Rei, nunca seria abandonada. É como se dissessem: se a palha é criatura de Deus nunca seria abandonada pelo grão de trigo; ou, se os sarmentos da vinha fossem feitos por Deus, quando não têm cachos, nunca seriam podados.
[2] Ora, estas coisas foram feitas essencialmente não para si mesmas, mas para o fruto que deve crescer nelas; quando o fruto amadureceu e foi colhido, são abandonadas e jogadas fora, pois já não são úteis para frutificar.
[3] Assim Jerusalém, que carregou o jugo da servidão com o qual foi domado o homem que não se submetia a Deus, quando a morte reinava, e, domado, se tornou apto para a liberdade, pela vinda do fruto da liberdade, que amadureceu, foi colhido e levado ao celeiro, enquanto eram levados de Jerusalém e espalhados pelo mundo inteiro os homens capazes de frutificar, segundo o que diz Isaías: “Os filhos de Jacó germinarão, Israel florescerá e o mundo inteiro será enchido com seus frutos”.
[4] Quando os seus frutos foram espalhados pelo mundo inteiro justamente foi abandonada e jogada fora aquela que uma vez deu o bom fruto — dela, com efeito, é que veio o Cristo segundo a carne, e os apóstolos — e agora já não serve para produzir frutos. Tudo o que tem início no tempo deve ter fim no tempo.
[5] Como “a Lei começara com Moisés era normal que acabasse com João, porque havia chegado o Cristo, o cumprimento dela; por isso eles tiveram a Lei e os profetas até João”.
[6] Da mesma forma Jerusalém, depois de ter começado por Davi e ter completado o tempo da concessão da Lei, teve que acabar quando apareceu a nova aliança: com efeito, Deus faz todas as coisas com ordem e medida e junto dele não há nada de não medido ou não acabado.
[7] Usou uma expressão feliz aquele que disse que o próprio Pai que é incomensurável foi medido no Filho: com efeito, o Filho é a medida do Pai porque o compreende.
[8] É Isaías que diz que a administração deles era temporária: “A filha de Sião será abandonada como choça dentro da vinha e como telheiro em pepinal”.
[9] Quando se abandonam estas coisas? Não é quando os frutos foram colhidos e só ficaram as folhas que já não podem frutificar?
[10] Por que falamos só de Jerusalém quando é a figura de todo o mundo que deve passar, quando tiver chegado o tempo da sua passagem, para que o trigo seja recolhido nos celeiros e a palha seja lançada ao fogo? “O dia do Senhor é como fornalha acesa e os pecadores e todos os que praticam a iniqüidade serão como palha e o Dia que vem os queimará”.
[11] Ora, João Batista nos dá a conhecer quem é este Senhor que faz chegar o Dia, quando, ao falar do Cristo, diz: “Ele vos batizará no Espírito Santo e no fogo; ele tem na mão a pá a fim de limpar a sua eira; recolherá o trigo no celeiro e a palha queimá-la-á com fogo inextinguível”.
[12] Não é, portanto, diverso Aquele que cria a palha daquele que cria o trigo, mas único e idêntico, e será ele o juiz, isto é, o que os separará.
[13] Contudo, o trigo e a palha são seres sem alma nem inteligência e o que são é por sua própria natureza que o são; o homem, porém, é racional e por isso semelhante a Deus; criado livre e senhor de seus atos é para si mesmo a causa de ser ora palha ora trigo.
[14] Por isso será justamente condenado, porque, racional que é, abandonou a reta razão, e vivendo como os irracionais contrariou a justiça de Deus, entregando-se a todo espírito terreno e tornando-se escravo de toda voluptuosidade; como diz o salmista: “O homem que era tão honrado não entendeu, rebaixou-se ao nível dos animais irracionais e tornou-se semelhante a eles”.

