[1] Visto que falou dos anjos do diabo, para os quais foi preparado o fogo eterno, e do joio do qual diz: o joio são os filhos do maligno, forçoso é reconhecer que todos os apóstatas estão ligados ao que foi o iniciador desta transgressão.
[2] Disso, porém, não segue que o diabo fizera por si mesmo os anjos ou os homens. O diabo não criou absolutamente nada, porque ele também é criatura de Deus, como todos os outros anjos.
[3] Foi Deus que fez todas as coisas, como diz Davi acerca de todas estas coisas: “Ele disse e foram feitos; ele mandou e foram criados”.
[4] Desde que todas as coisas foram feitas por Deus e o diabo se tornou para si e para os outros a causa da apostasia, é justo que a Escritura chame filhos do diabo e anjos do maligno os que se mantêm para sempre na apostasia.
[5] A palavra “filho”, como disse alguém antes de nós, pode ser entendida de duas maneiras: primeira, por natureza, porque nasceu como filho; e segunda, por ser adotado ou por conveniência, ainda que continue a diferença entre ser e tornar-se: o primeiro nasceu do outro, o segundo foi feito pelo outro, respectivamente por via natural ou por via de ensinamento; quem foi instruído por outro por meio da palavra é chamado filho de quem o instruiu e este o pai daquele.
[6] Segundo a natureza, por assim dizer, somos todos filhos de Deus, porque fomos criados por ele, mas segundo a obediência e o ensinamento nem todos somos filhos de Deus, mas o são somente os que creem nele e fazem a sua vontade.
[7] Os que não creem e não fazem a sua vontade são os filhos e os anjos do diabo, enquanto fazem as obras do diabo.
[8] Que as coisas sejam assim mesmo, ele o disse em Isaías: “Gerei filhos e os criei, mas eles me desprezaram”. E ele os chama também filhos estrangeiros: “Filhos estrangeiros mentiram a mim”.
[9] Com efeito, segundo a natureza eles são seus filhos, mas, segundo as suas obras, não o são.
[10] Como entre os homens os filhos rebeldes aos pais e rejeitados continuam filhos por natureza, mas juridicamente são renegados e não são mais os herdeiros dos seus pais naturais, assim se dá com Deus: os que não lhe obedecem são renegados, deixam de ser filhos e, por isso, perdem o direito à herança, como diz Davi: “Os pecadores são estrangeiros desde o seio materno, para eles uma cólera semelhante à contra a serpente”.
[11] Por isso, o Senhor chamou de raça de víboras aos que sabia serem da raça humana, porque, semelhantes a estes animais, se portam tortuosamente e prejudicam os outros: “Tomai cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus”, diz.
[12] Falando de Herodes, diz da mesma forma: “Ide dizer a esta raposa”, indicando a sua astúcia e esperteza.
[13] Eis por que o profeta Jeremias diz: “Os homens tornaram-se como garanhões no cio; cada um relinchando para a mulher de seu próximo”.
[14] Isaías, pregando na Judeia e disputando com Israel, os chamava “Príncipes de Sodoma e povo de Gomorra”, indicando que a sua transgressão era semelhante à dos sodomitas e que cometeram os mesmos pecados que eles, e os chamava com o mesmo nome por causa da mesma conduta.
[15] E que não tivessem sido feitos assim por Deus e que poderiam ser capazes de agir também com justiça é o que o mesmo Isaías lhes dizia, dando-lhes um bom conselho: “Lavai-vos, purificai-vos, tirai a malícia dos vossos corações de diante dos meus olhos, parai com as vossas iniquidades”.
[16] Isto é, cometendo a mesma transgressão e pecado tiveram a mesma repreensão que os sodomitas, mas se eles se convertessem, arrependendo-se e cessando sua malícia, poderiam ser filhos de Deus e obter a herança da incorruptibilidade que lhes oferecia.
[17] É este o sentido com que o Senhor chamou anjos do diabo e filhos do maligno os que acreditam no diabo e cumprem as suas obras.
[18] No princípio todos foram criados pelo único e mesmo Deus e enquanto acreditam e permanecem submissos a Deus e guardam os seus ensinamentos são filhos de Deus, mas quando apostatam e passam a ser transgressores são unidos ao diabo que foi o iniciador e a causa original da apostasia tanto para si como para os outros.
[19] Visto que são muitas as palavras do Senhor que proclamam um só e idêntico Pai, criador do mundo, era necessário que refutássemos com provas abundantes os que são presa de muitos erros na esperança de que confundidos por esta abundância de provas e voltando à verdade, pudessem ser salvos.
[20] A este escrito, porém, é necessário acrescentar, depois das palavras do Senhor, também as de Paulo; teremos que examinar o seu pensamento, expô-lo, e elucidar tudo o que os hereges, que não entenderam absolutamente as palavras de Paulo, interpretaram em sentido diverso; mostraremos a sua estúpida loucura e provaremos com as próprias palavras de Paulo, de onde tiram as dificuldades que nos apresentam, que eles são mentirosos, ao passo que o Apóstolo, como pregador da verdade, ensinou todas as coisas de acordo com o querigma da verdade, isto é, um só Deus Pai, que falou a Abraão, que estabeleceu a Lei, que inicialmente enviou os profetas e nos últimos tempos enviou o seu Filho e que ofereceu a salvação à sua criatura feita de carne.
[21] Exporemos, portanto, em outro livro, as outras palavras do Senhor em que fala do Pai não já com parábolas, mas com palavras explícitas; e apresentaremos também as palavras do bem-aventurado Apóstolo, oferecendo-te, assim, pela graça de Deus e na sua integridade, a nossa obra de denúncia e refutação da pseudognose, depois de nos ter exercitado, eu e tu, nestes cinco livros, na refutação de todos os hereges.

