[1] Portanto, Deus é único e idêntico, ele enrola os céus como um livro, e renova a face da terra; fez as coisas temporais para o homem, para que amadurecendo entre elas produza por fruto a imortalidade, e acrescenta as eternas por causa do seu amor, “para mostrar aos séculos vindouros a insondável riqueza da sua bondade”. Ele foi anunciado pela Lei e os profetas, ele que o Cristo reconheceu como Pai; ele o Criador e o Deus que está acima de todas as coisas, como diz Isaías: “Eu sou testemunha, diz o Senhor, e o Servo que escolhi para que saibais e creiais que eu sou; antes de mim não houve outro Deus nem haverá depois de mim; eu sou Deus e fora de mim não há salvador; eu anunciei e eu salvei”. E ainda: “Eu, Deus, sou o primeiro e o sou pelos tempos vindouros”. Não é por metáfora nem por vanglória que diz estas coisas, mas porque era impossível conhecer a Deus sem a ajuda de Deus, então ele ensina os homens a conhecerem a Deus por meio do seu Verbo. Para os que não conhecem estas coisas e por isso pensam ter encontrado outro Pai, alguém diria justamente: “Vós vos enganais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus”.
[2] Nosso Senhor e Mestre ao responder aos saduceus que negavam a ressurreição e por isso desprezavam a Lei e ridicularizavam a Deus falou da ressurreição e revelou ao mesmo tempo Deus, dizendo: “Errais: não conheceis as Escrituras nem o poder de Deus”; quanto à ressurreição dos mortos não lestes esta palavra dita por Deus: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó?” E acrescenta: “Ele não é o Deus dos mortos, mas dos vivos; todos, com efeito, vivem por sua virtude”. Com isso tornou manifesto que aquele que da sarça falava a Moisés e declarava ser o Deus dos pais, é ele o Deus dos vivos.
[3] Ora, quem é o Deus dos vivos a não ser o verdadeiro Deus acima do qual não há outro Deus? Aquele de quem falava o profeta Daniel quando respondeu a Ciro, rei dos persas, que lhe perguntava: “Por que não adoras a Bel?” “Porque não adoro ídolos feitos pelas mãos dos homens, mas o Deus vivo que fez o céu e a terra e que tem o poder sobre todos os homens”. E ainda: “Adorarei o Senhor, meu Deus, porque ele é o Deus vivo”. Portanto, o Deus vivo adorado pelos profetas é o Deus dos viventes, e o seu Verbo, que falou a Moisés, que refutou os saduceus, que concedeu a ressurreição, demonstrando, a partir da Lei, a estes cegos estas duas coisas, a ressurreição e Deus.
[4] Porque se não é o Deus dos mortos e sim dos vivos, e se ele é chamado Deus dos patriarcas defuntos, está fora de dúvida que eles vivem em Deus e não pereceram, pois são filhos da ressurreição. Ora, a ressurreição é nosso Senhor em pessoa, como ele próprio diz: “Eu sou a ressurreição e a vida”. Os patriarcas são seus filhos. Com efeito, foi dito pelo salmista: “No lugar de pais que eram eles se tornaram teus filhos”. Portanto, também Jesus Cristo, com o Pai, é Deus dos vivos, que falou a Moisés e que se manifestou aos patriarcas.
[5] Justamente quando ensinava isso disse aos judeus: “Abraão, vosso pai, exultou ao pensamento de ver o meu dia; ele o viu e se alegrou”. Como então? “Abraão creu em Deus e lhe foi imputada a justiça”: primeiramente, creu que era o único Deus, Criador do céu e da terra, e, depois, que teria feito a sua posteridade numerosa como as estrelas do céu. Isto é também o que diz Paulo: “Como luminares no mundo”. Por isso abandonando toda parentela terrena seguia o Verbo de Deus, peregrinando com o Verbo para se tornar concidadão do Verbo.
[6] Por isso, os apóstolos, verdadeira descendência de Abraão, deixaram a barca e o pai para seguir o Verbo de Deus. Por isso, nós também, com a mesma fé de Abraão, seguiremos o mesmo Verbo carregando a cruz como Isaac carregava a lenha. Em Abraão, com efeito, o homem aprendeu e se acostumou a seguir o Verbo de Deus. Abraão seguiu na sua fé a ordem do Verbo de Deus cedendo, na submissão, o filho único e amado em sacrifício a Deus para que Deus consentisse, em favor de toda a sua posteridade, em sacrificar o seu filho único e amado para a nossa redenção.
[7] Com efeito, Abraão, sendo profeta e vendo no Espírito o dia da vinda do Senhor, e a economia da sua paixão, pela qual ele próprio e todos os que como ele acreditavam em Deus seriam salvos, se alegrou grandemente.
[8] O Senhor, portanto, não era desconhecido de Abraão, pois ele desejou ver o dia dele, como também não desconhecia o Pai do Senhor, pois fora instruído pelo Verbo a respeito do Pai e acreditou nele; por isso lhe foi tido em conta de justiça pelo Senhor, porque é a fé que justifica o homem. Eis por que dizia: “Levantarei a minha mão para o Deus altíssimo que criou o céu e a terra”.
[9] Os que seguem estas falsas opiniões se esforçam por negar isso tudo por causa de uma só frase que não entenderam bem.

