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[1] O Senhor, mostrando aos seus discípulos que ele é o Verbo que dá o conhecimento do Pai e reprovando a pretensão dos judeus de possuir Deus ao mesmo tempo que recusam o seu Verbo, pelo qual Deus é conhecido, dizia: “Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai e ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e a quem o Filho o quiser revelar”. Assim escreveu Mateus, assim Lucas, e igualmente, Marcos; João omitiu esta passagem.

[2] Estes, porém, que querem ser mais bem informados do que os apóstolos, modificam o texto, assim: Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, nem o Filho a não ser o Pai e aquele a quem o Filho o quiser revelar; e explicam que o Deus verdadeiro não foi conhecido por ninguém antes da vinda de nosso Senhor e que o Deus pregado pelos profetas não é o Pai do Cristo.

[3] Mas se o Cristo começou a existir no momento de sua vinda como homem, se o Pai pensou nos homens somente desde os tempos de Tibério César, se se provar que o seu Verbo não esteve sempre presente ao lado da sua criatura, então não seria necessário procurar outro Deus, mas, sim, o motivo de tamanho desleixo e negligência de sua parte.

[4] Mas nenhuma procura podia ser de tal natureza ou assumir tais proporções a ponto de trocar de Deus e solapar a nossa fé no Criador que nos sustenta com a sua criação. Como a nossa fé se dirige constantemente ao Filho, assim o nosso amor pelo Pai deve manter-se firme e inabalável.

[5] E Justino diz com razão no seu tratado contra Marcião: “Não teria crido nem mesmo no Senhor se me tivesse anunciado um Deus diferente do nosso Criador, Autor e Nutridor; mas visto que é do único Deus, criador deste mundo e nosso modelador, sustentador e diretor de todas as coisas, que veio até nós o Filho único, recapitulando em si a obra por ele modelada, permanece firme a minha fé nele e constante o meu amor ao Pai, uma e outro dons do Senhor”.

[6] Ninguém pode conhecer o Pai sem o Verbo de Deus, isto é, sem o Filho que o revela. Também não se conhece o Filho sem a vontade do Pai. O Filho faz a vontade do Pai, pois o Pai envia, o Filho é enviado e vem a nós.

[7] E assim o Pai, que é para nós invisível e incognoscível, é conhecido por seu próprio Verbo; e só o Pai conhece o seu Verbo; assim o manifestou o Senhor. Por isso, o Filho nos leva ao conhecimento do Pai por sua própria encarnação.

[8] Pois a manifestação do Filho é o conhecimento do Pai; realmente, é pelo Verbo que tudo nos é revelado. Para que saibamos que o Filho que veio é o mesmo que dá o conhecimento do Pai aos que nele crêem, dizia aos seus discípulos: “Ninguém conhece o Pai a não ser o Filho, nem o Filho a não ser o Pai e aqueles aos quais o Filho o quiser revelar”, ensinando-nos o que ele próprio é e o que é o seu Pai, para que não reconheçamos outro Pai a não ser o que o Filho revelou.

[9] Este Pai é o Criador do céu e da terra, como o provam as palavras do Filho e não o falso Pai inventado por Marcião, Valentim, Basílides, Carpócrates, Simão, ou os outros pseudognósticos. Com efeito, nenhum deles era o Filho de Deus, mas o era o Cristo Jesus nosso Senhor, contra o qual eles ensinam anunciando um Deus incognoscível, sem tomar cuidado com o que dizem: como pode ser incognoscível se eles o conhecem?

[10] Tudo o que é conhecido, ainda que por poucos, já não é incognoscível. O Senhor não disse que o Pai e o Filho são absolutamente incognoscíveis, porque então seria inútil a sua vinda.

[11] Então, por que veio? Simplesmente para nos dizer: Não procureis a Deus, pois ele é incognoscível e não o encontrareis? Na verdade é o que Cristo teria dito aos Éões, se devemos acreditar nos discípulos de Valentim; mas isso é ridículo.

[12] Eis o que o Senhor nos ensina: ninguém pode conhecer a Deus sem a ajuda de Deus; mas que o conheçamos é vontade do Pai, porque o conhecerão aqueles aos quais o Filho o revelar.

[13] O Pai revelou o Filho para manifestar-se a todos e acolher, em toda justiça, na incorruptibilidade e no refrigério eterno os que crêem nele — crer nele é fazer a sua vontade — e, com toda justiça, fechar nas trevas que eles próprios escolheram para si, os que não crêem nele.

[14] O Pai se revelou a todos, tornando o seu Verbo visível a todos; e é a todos que o Verbo mostrou o Pai e o Filho, pois ele foi visto por todos. Por isso será justo o julgamento de Deus sobre todos os que o viram do mesmo modo, mas não creram nele do mesmo modo.

[15] Na verdade, pela própria criação, o Verbo já revela o Deus Criador; pelo mundo, o Senhor e Ordenador do mundo; pela criatura plasmada, o Artista que a plasmou; pelo Filho, o Pai que o gerou; disto, todos falam do mesmo modo, porém, não crêem do mesmo modo.

[16] Pela Lei e os profetas, o Verbo, do mesmo modo, anunciava-se a si e ao Pai; e todo o povo, do mesmo modo o ouviu, mas não do mesmo modo todos creram.

[17] Pelo Verbo tornado visível e palpável, o Pai se revelou, embora nem todos nele cressem do mesmo modo. Porém todos viram no Filho o Pai. A realidade indivisível que se manifestava no Filho era o Pai, e a realidade visível na qual o Pai se revelou era o Filho.

[18] Eis por que, na sua presença, todos diziam que ele era o Cristo e Deus”. Os próprios demônios, vendo o Filho, diziam: “Sabemos que tu és o Santo de Deus.” O diabo que o tentava lhe dizia: “Se és o Filho de Deus…” Todos o viam e o chamavam Filho e Pai, mas nem todos criam do mesmo modo.

[19] Era necessário que a Verdade fosse testemunhada por todos e que houvesse justo juízo para a salvação dos que crêem e a condenação dos incrédulos e que a fé no Pai e no Filho fosse comprovada por todos, isto é, corroborada por todos, recebendo de todos o testemunho, dos de dentro como amigos e dos de fora como inimigos.

[20] É prova verdadeira e irrefutável a que traz o selo do testemunho dos próprios adversários, que no instante em que se apresenta às suas vistas estão convencidos da realidade presente, prestam-lhe testemunho e lhe apõem seu selo, ainda que depois, tornando-se inimigos, se tornem acusadores e queiram que o seu testemunho não seja verdadeiro.

[21] Portanto, não era um aquele que era conhecido e outro aquele que dizia: Ninguém conhece o Pai, mas um só e o mesmo. O Pai lhe sujeitou tudo e de todos recebeu o testemunho de que é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, do Pai, do Espírito, dos anjos, da criação, dos homens, dos espíritos apóstatas, dos demônios, do inimigo e, finalmente, até da própria morte.

[22] O Filho opera do princípio ao fim, dispondo todas as coisas em nome do Pai e sem ele ninguém pode conhecer Deus. O conhecimento do Pai é o Filho; o conhecimento do Filho pertence ao Pai e pelo Filho é revelado.

[23] Por este motivo, o Senhor dizia: “Ninguém conhece o Filho a não ser o Pai; nem o Pai, a não ser o Filho e aqueles aos quais o Filho o revelar”. “Revelar” não se refere apenas ao futuro, como se o Verbo começasse a revelar o Pai quando nasceu de Maria; mas universalmente e por todo o tempo aí se encontra ele.

[24] No início, presente o Filho à sua criatura, revela o Pai a todos, a quem quer, quando quer e como quer o Pai. Em tudo e por tudo, há um só Deus, o Pai, e um só Verbo, o Filho, e um só Espírito e uma única salvação para todos os que nele crêem.

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