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[1] Presunçosos são Marcião e seus discípulos que excluem Abraão da herança, ao qual o Espírito dá testemunho por meio de muitos e especialmente por Paulo: “Creu em Deus e lhe foi creditado como justiça”, e pelo Senhor, em primeiro lugar, que, suscitando-lhe filhos das pedras e tornando a sua posteridade numerosa como as estrelas do céu, diz: “Virão do oriente e do ocidente, do norte e do sul e sentar-se-ão à mesa com Abraão e Isaac e Jacó no reino dos céus”; e depois, quando diz aos judeus: “Quando vereis Abraão, Isaac e Jacó e todos os profetas no reino de Deus, ao passo que vós sereis excluídos”.

[2] Está claro, portanto, que os que contestam a salvação de Abraão e fabricam para si um Deus diverso daquele que fez as promessas a Abraão, são excluídos do reino de Deus e deserdados da incorruptibilidade como adversários e blasfemadores de Deus, o qual introduz no reino dos céus Abraão e sua descendência, isto é, a Igreja que por meio de Jesus Cristo recebe a adoção e a herança prometidas a Abraão.

[3] O Senhor tomava a defesa dos descendentes de Abraão, libertava-os dos laços e os chamava à salvação, como fez e demonstrou com a mulher curada por ele, dizendo àqueles que não tinham a mesma fé de Abraão: “Hipócritas, cada um de vós não desamarra o boi ou o asno, em dia de sábado, para levá-lo a beber? E esta mulher, uma filha de Abraão, que Satanás mantinha amarrada há dezoito anos, não devia ser livrada do laço no dia de sábado?”

[4] Está claro, portanto, que ele liberta e vivifica os que como Abraão creem nele, sem infringir a Lei, curando em dia de sábado, porque a Lei não proibia sarar os homens em dia de sábado, ela que os fazia circuncidar neste dia e prescrevia aos sacerdotes cumprirem os ministérios para o povo, como não proibia o cuidado para com os animais irracionais.

[5] Até a piscina de Siloé curou muitas vezes no sábado, motivo pelo qual muitos a frequentavam. A Lei mandava abster-se de toda obra servil, isto é, de toda cupidez que se realiza no comércio e no manejo das terras, mas convidava a cumprir as obras da alma, isto é, os pensamentos e as palavras, para o bem do próximo.

[6] Por isso o Senhor repreendia os que injustamente o acusavam de operar curas em dia de sábado. Ele não abolia a Lei, mas, antes, a cumpria, assumindo o ofício de sumo sacerdote, tornando Deus propício aos homens, purificando os leprosos, sarando os doentes e, finalmente, morrendo ele próprio, para que o homem desterrado saísse da condenação e voltasse sem temor à sua herança.

[7] A Lei não proibia aos famintos, em dia de sábado, tomar alimento daquilo que lhes estava à mão, mas proibia ceifar e armazenar nos celeiros. Por isso, o Senhor disse aos que acusavam os discípulos que esmagavam as espigas para comer: “Não lestes o que fez Davi quando teve fome, como entrou na casa de Deus, comeu os pães da proposição e deu aos que estavam com ele, quando era permitido só aos sacerdotes comê-los?”

[8] Com estas palavras da Lei defendia os seus discípulos e deixava entender que era permitido aos sacerdotes agir livremente. Ora, Davi era sacerdote aos olhos de Deus, mesmo perseguido por Saul, porque todo rei justo possui um ofício sacerdotal.

[9] Todos os discípulos do Senhor são sacerdotes, eles que aqui não têm nem campos nem casa em herança, mas servem sempre ao altar e a Deus. Moisés fala deles no Deuteronômio, na bênção de Levi: “Quem diz a seu pai e à sua mãe: eu não te vi, e quem não conheceu seus irmãos e renunciou a seus filhos, este observou os teus mandamentos e guardou a tua aliança”.

[10] E quem são os que deixaram o pai e a mãe e renunciaram a todos os seus parentes pela Palavra de Deus e a sua aliança, a não ser os discípulos do Senhor? Moisés diz ainda deles: “Eles não terão herança; o Senhor em pessoa será a sua herança”.

[11] E ainda: “Para os sacerdotes levitas de toda a tribo de Levi não haverá parte nem herança em Israel: os frutos oferecidos ao Senhor serão a sua herança, e eles os comerão”. Por isso Paulo diz: “Eu não procuro o dom, mas procuro o fruto”.

[12] Portanto, visto que os discípulos do Senhor, que possuíam a herança levítica, tinham permissão, quando com fome, de tomar como alimento o trigo, pois o “operário é digno do seu alimento”, e “os sacerdotes, no templo, infringiam o sábado e não eram culpados”.

[13] Por que não eram culpados? Porque estando no templo cumpriam o serviço do Senhor e não do mundo. Eles cumpriam a Lei, não a infringiam como o homem que, por sua iniciativa, trouxe ao acampamento lenha seca e foi lapidado justamente: “Toda árvore que não dá fruto é cortada e lançada ao fogo”, e, “Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá”.

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