[1] Todas as coisas provêm de uma só e idêntica substância, isto é, de um só e único Deus, como o Senhor o declara a seus discípulos: “Eis por que todo escriba douto, no reino dos céus, é semelhante ao dono da casa que tira de seu tesouro coisas novas e velhas”.
[2] Não disse que quem tira coisas velhas é diferente do que tira as coisas novas, mas é um só e o mesmo.
[3] O dono da casa é o Senhor e tem autoridade sobre toda a casa paterna, que determina para os escravos ainda indisciplinados uma Lei conveniente, e para os homens livres e justificados pela fé, preceitos apropriados, e para os filhos abre a sua herança.
[4] O Senhor chamava escribas e doutores do reino dos céus aos seus discípulos, acerca dos quais diz noutro lugar aos judeus: “Eis que vos envio sábios, escribas e doutores; alguns deles os matareis e outros afugentareis de cidade em cidade”.
[5] As coisas velhas e novas tiradas do tesouro são incontestavelmente os dois Testamentos: as coisas antigas são a Lei que foi dada antes e as novas, a vida segundo o Evangelho, acerca do qual Davi diz: “Cantai ao Senhor um canto novo”; e Isaías: “Cantai ao Senhor um hino novo; o seu princípio: Seu nome é glorificado até as extremidades da terra e anunciam os seus grandes feitos nas ilhas”.
[6] E Jeremias: “Eis, farei uma aliança nova, diferente daquela que fiz com vossos pais, no monte Horeb”.
[7] Ambos os Testamentos foram produzidos por um só e único pai de família, o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que falou com Abraão e Moisés e que a nós deu a liberdade na novidade e multiplicou a graça vinda dele.
[8] “Aqui há alguém que vale mais que o Templo”, disse.
[9] Ora o mais e o menos não se referem a coisas que não têm nada em comum, que são contrárias e opostas, e sim às que têm a mesma substância e comunicam entre si, que não diferem senão pela quantidade e grandeza, como a água difere da água, uma luz da luz, uma graça da graça.
[10] A graça da liberdade é, portanto, superior à Lei da servidão e é por este motivo que se derramou não somente num povo, mas em todo o mundo.
[11] Uno e idêntico é o Senhor que é mais do que o templo e dá aos homens mais do que Salomão e Jonas, isto é, a sua presença e a ressurreição dos mortos, mas não trocando de Deus, nem anunciando outro Pai, e sim o mesmo, que tem sempre mais para distribuir entre os seus familiares e que à medida que neles aumenta o amor por ele distribui bens mais numerosos e maiores.
[12] É o que o Senhor diz a seus discípulos: “Vereis coisas maiores do que estas”.
[13] E Paulo: “Não que já tenha recebido, ou já esteja justificado, ou já seja perfeito; conhecemos imperfeitamente e imperfeitamente profetizamos; quando terá chegado o que é perfeito o imperfeito será abolido”.
[14] Quando terá chegado o que é perfeito não veremos Pai diferente, mas o que agora desejamos ver — “Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus” — assim também não acolheremos Cristo Filho de Deus diferente, mas o que nasceu de Maria, e padeceu, em quem cremos e amamos.
[15] Como diz Isaías: “Naqueles dias dirão: Eis o Senhor nosso Deus no qual esperamos e exultamos para a nossa salvação”, e como igualmente diz Pedro na sua carta: “Aquele que amais sem ter visto, no qual credes agora sem vê-lo, gozá-lo-eis com alegria inefável”.
[16] E também não receberemos Espírito Santo diferente do que está em nós e que grita: “Abba, Pai”.
[17] Nestes elementos teremos argumentos para a fé e progrediremos para fruir dos dons de Deus, não como num espelho ou por enigmas, mas face a face.
[18] Assim, recebendo mais do que o templo, mais do que Salomão, isto é, a vinda do Filho de Deus, não aprendemos um Deus diverso do Criador e Autor de todas as coisas, que nos foi revelado desde o princípio, nem um Cristo, Filho de Deus, diverso do que foi anunciado pelos profetas.
[19] Com o Novo Testamento, previsto e anunciado pelos profetas, era indicado aquele que o teria atuado segundo o desejo do Pai; era manifestado da maneira que Deus quis, de modo que os que creriam nele pudessem sempre progredir e amadurecer a perfeição da salvação por meio dos dois Testamentos.
[20] Uma, com efeito, é a salvação e um só é Deus; enquanto são muitos os preceitos que formam o homem e múltiplos os degraus que o levam a Deus.
[21] Se para um rei terreno, que é homem, é permitido aumentar de vez em quando o bem-estar dos seus súditos, tanto mais o será para Deus, que é sempre o mesmo, distribuir sempre mais abundantemente a sua graça ao gênero humano e honrar com dons sempre maiores os que lhe agradam.
[22] Se o progresso consiste em encontrar um Pai diferente do anunciado desde o princípio, seria progresso maior imaginar terceiro, além daquele que se pensa ter encontrado em segundo lugar, e depois quarto, e depois quinto, e depois enquanto se pensa em progredir desta forma, nunca será possível fixar-se num Deus só.
[23] Afastado daquele que é, retrocederá sempre mais à procura de outro Deus que nunca encontrará; e não deixará de nadar no abismo do incompreensível, a não ser que, convertido pela penitência, volte ao lugar de onde foi afastado, proclamando um só Deus Pai e Criador e nele crendo, anunciado pela Lei e os profetas e ao qual o Cristo deu o seu testemunho, dizendo aos que acusavam os seus discípulos por não observarem as tradições dos antigos: “Por que renegais os preceitos do Senhor por causa das vossas tradições?”
[24] “Com efeito, Deus diz: Honra o pai e a mãe; e quem amaldiçoar o pai e a mãe seja morto”.
[25] E lhes dizia pela segunda vez: “Renegastes as palavras do Senhor por causa das vossas tradições”.
[26] O Cristo reconhecia da forma mais clara como Pai e Deus quem disse na Lei: Honra teu pai e tua mãe para que tenhas o bem.
[27] Sendo Deus verídico, reconhecia como palavra de Deus o mandamento da Lei e não chamou Deus a nenhum outro diverso de seu Pai.

