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[1] Nos quatro livros que te enviamos antes deste, caro amigo, apresentamos-te todos os hereges e expusemos as suas doutrinas; refutamos os que inventaram opiniões ímpias, quer a partir do ensinamento próprio de cada um deles, como se encontra nos seus escritos, quer pela exposição baseada em provas diversas.

[2] Demos a conhecer a verdade e pusemos em evidência a mensagem da Igreja, prenunciada, como dissemos, pelos profetas, levada à perfeição pelo Cristo, transmitida pelos apóstolos, dos quais a Igreja a recebeu e que ela somente guarda intacta em todo o mundo e apresenta a seus filhos.

[3] Eliminamos as dificuldades que os hereges nos apresentam, explicamos a doutrina dos apóstolos e expusemos em grande parte o que o Senhor disse em parábolas e o que fez.

[4] Neste quinto livro da nossa obra, que é exposição e refutação da pseudognose, procuraremos trazer argumentos tirados da restante doutrina do Senhor e das cartas do Apóstolo, como nos pediste.

[5] Anuímos ao teu pedido, porque somos encarregados do ministério da palavra e nos esforçamos de todas as formas, segundo a nossa capacidade, por apresentar-te o maior número possível de subsídios para contrabater os hereges, converter os que se afastaram e reconduzi-los à Igreja de Deus e, ao mesmo tempo, confirmar os neófitos para que se mantenham firmes na fé que receberam intacta da Igreja, para que de forma nenhuma se deixem corromper pelos que tentam ensinar-lhes o erro e afastá-los da verdade.

[6] Necessário será que tu e todos os que lerão este escrito o façam com grande aplicação, lendo o que foi escrito precedentemente, a fim de conhecer as teses às quais nos contrapomos; somente assim te poderás opor devidamente a elas e serás capaz de refutar todos os hereges, rejeitando como imundície as suas doutrinas, com a ajuda da fé celeste e seguindo o único Mestre, seguro e verídico, o Verbo de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor, que na sua imensa caridade se fez o que nós somos para nos elevar ao que ele é.

[7] Não teríamos absolutamente podido aprender os mistérios de Deus se o nosso Mestre, permanecendo Verbo, não se tivesse feito homem.

[8] Com efeito, nenhum outro nos podia revelar os segredos do Pai a não ser o seu próprio Verbo. “Quem mais conheceu os pensamentos do Senhor?” Ou “quem mais foi o seu conselheiro?”

[9] Por outro lado, não era possível aprender a não ser vendo o nosso Mestre e percebendo com nossos ouvidos a sua voz, para que imitando as suas ações e praticando as suas palavras tivéssemos comunhão com ele e dele, que é perfeito desde antes da criação, recebêssemos nós, criados há pouco, o crescimento; dele que é o único bom e excelente, recebêssemos a semelhança com ele; daquele que possui a incorruptibilidade, recebêssemos este dom, depois de sermos predestinados a ter a semelhança com ele; os que ainda não existíamos, fôssemos criados, segundo a presciência do Pai e no tempo determinado, pelo ministério do Verbo.

[10] Ele que é perfeito em tudo, Verbo onipotente e homem verdadeiro, que nos resgatou ao preço de seu sangue, como era conveniente ao Verbo, entregando-se como resgate em favor dos que se tornaram escravos.

[11] Sendo injustamente dominados, quando pertencíamos, por natureza, ao Deus onipotente, pela Apostasia que, contra a natureza, nos alienara e tornara seus discípulos, o Verbo onipotente e fiel, na sua justiça, voltou-se contra a própria Apostasia, resgatando o que era seu, não pela violência, como a que fizera no início, dominando sobre nós e apoderando-se insaciavelmente do que não era dela, mas pela persuasão, como era conveniente a Deus, e sem violência, tomou o que queria, para que, ao mesmo tempo, fosse salvaguardada a justiça e não perecesse a antiga obra modelada por Deus.

[12] Se, portanto, é pelo seu próprio sangue que o Senhor nos resgatou, se deu a sua alma pela nossa alma e sua carne pela nossa carne, se efundiu o Espírito do Pai para operar a união e a comunhão de Deus e dos homens, fazendo descer Deus até os homens pelo Espírito e elevando os homens até Deus pela sua encarnação, se nos concedeu, na sua vinda, com toda certeza e verdade, a incorruptibilidade pela comunhão que temos com ele, perdem todo o seu valor os ensinamentos dos hereges.

[13] Estultos são os que dizem que ele se manifestou somente de maneira aparente, pois não foi na aparência, e sim na realidade e verdade que se realizaram todas estas coisas.

[14] Se ele tivesse aparecido como homem sem o ser verdadeiramente, não teria permanecido o que realmente era, o Espírito de Deus, porque o Espírito é invisível, nem haveria nenhuma verdade nele, pois não teria sido o que aparecia.

[15] Dissemos precedentemente que Abraão e os outros profetas o viam de modo profético, profetizando em visões o futuro: se, portanto, também agora apareceu deste modo, sem ser realmente o que parecia, foi uma espécie de aparição profética que foi apresentada aos homens e devemos esperar por outra vinda do Senhor na qual se cumpra o que foi visto profeticamente.

[16] Como também dissemos que é a mesma coisa afirmar que se mostrou de maneira aparente e que não recebeu nada de Maria, porque não teria nem o sangue, nem a carne reais com os quais nos resgatou, se não recapitulasse em si mesmo a antiga obra modelada, isto é, Adão.

[17] Estultos são os discípulos de Valentim que afirmam isso para excluir a salvação vinda da carne e rejeitar a obra de Deus.

[18] Estultos também os ebionitas que se recusam a admitir nas suas almas, pela fé, a união de Deus com o homem e permanecem no velho fermento de seu nascimento.

[19] Eles não querem entender que o Espírito Santo sobreveio em Maria e que o poder do Altíssimo a cobriu com sua sombra e que, por isso, quem nasceu dela é o Filho de Deus altíssimo, o Pai de todas as coisas, que operou a encarnação de seu Filho, fazendo aparecer um novo nascimento, a fim de que, tendo nós herdado a morte pelo nascimento anterior, por este, herdássemos a vida.

[20] Eles recusam a mistura do vinho celeste e querem somente ser a água deste mundo, não aceitando que Deus se misture com eles e querendo permanecer neste Adão, vencido e afastado do paraíso.

[21] Eles não consideram que, como no início da nossa formação em Adão o sopro de vida vindo de Deus, unindo-se à obra modelada, vivificou o homem e o tornou animal racional, assim, no fim, o Verbo do Pai e o Espírito de Deus, unindo-se à antiga substância da obra modelada, isto é, Adão, tornaram o homem vivente e perfeito, capaz de entender o Pai perfeito, a fim de que, como todos nós morremos no homem animal assim todos sejamos vivificados no homem espiritual.

[22] Adão nunca fugiu das mãos de Deus às quais o Pai dizia: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”.

[23] E eis por que no fim, “não pela vontade da carne nem pela vontade do homem, mas pela vontade do Pai”, as suas mãos tornaram o homem vivente, de forma que Adão se tornasse à imagem e semelhança de Deus.

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