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[1] Como a carne é capaz de corrupção assim o é de incorrupção; como é capaz de morte o é também de vida. Estas coisas se excluem mutuamente e não ficam juntas no mesmo indivíduo, mas uma afasta a outra, e onde há uma não há outra.

[2] Por isso, se a morte, apoderando-se do homem, afasta-lhe a vida e faz dele morto, com maior razão a vida, apoderando-se do homem, afasta-lhe a morte e o restituirá vivo a Deus.

[3] Se a morte fez morrer o homem, por que a vida, ao sobrevir, não o vivificaria? Como diz o profeta Isaías: “No seu poder a morte devorou”; e ainda: “Deus enxugará todas as lágrimas de todos os rostos”.

[4] Ora a primeira vida foi expulsa porque foi conferida por meio de um sopro e não pelo Espírito.

[5] Uma coisa é o sopro de vida que faz o homem psíquico e outra coisa é o Espírito vivificante que o torna espiritual.

[6] Por isso Isaías diz: “Assim fala o Senhor, que fez o céu e o firmou, que consolidou a terra e o que ela encerra, que deu o sopro ao povo que a habita e o Espírito aos que a pisam”: ele afirma que o sopro foi dado indistintamente a todos os que vivem na terra, ao passo que o Espírito foi dado exclusivamente aos que calcam aos pés as concupiscências terrenas.

[7] Eis por que Isaías, retomando a distinção feita, acrescenta: “De mim sai o Espírito e eu sou o Autor de todo sopro”, atribuindo ao Espírito lugar junto a Deus, o qual, nos últimos tempos, o efundiu sobre o gênero humano pela adoção, mas situa o sopro indiferentemente sobre todas as criaturas e o mostra como coisa feita.

[8] Ora, o que foi feito é distinto daquele que o fez; o sopro é coisa situada no tempo, enquanto o Espírito é eterno.

[9] O sopro tem momento de força, demora um pouco de tempo e depois desaparece, deixando sem respiração o ser em que antes se encontrava. O Espírito, ao contrário, depois de ter envolvido o homem por fora e por dentro, durará para sempre e nunca o abandonará.

[10] “Mas, diz o Apóstolo, referindo-se somente a nós, homens, não precede o que é espiritual, mas, antes, o que é psíquico e depois o espiritual”. Nada de mais certo, porque era necessário que o homem fosse primeiramente modelado e só depois recebesse a alma e somente depois dela recebesse a comunhão do Espírito.

[11] Eis por que também “o primeiro Adão foi feito alma vivente pelo Senhor, e o segundo Adão foi feito Espírito vivificante”.

[12] Por isso, como o homem, feito pessoa animada, voltando-se ao mal, perdeu a vida, assim, ele, convertendo-se ao bem e recebendo o Espírito vivificante, reencontrará a vida.

[13] O que morreu não é diferente do que é vivificado, como não é diferente o que se perdeu do que é encontrado, e o Senhor veio procurar aquela ovelha que se perdera.

[14] O que morreu? Evidentemente a substância da carne que perdera o sopro de vida e se tornou sem sopro e morta.

[15] O Senhor veio para vivificá-la, a fim de que, como em Adão todos morremos, porque psíquicos, todos vivamos no Cristo, porque espirituais, após ter rejeitado não a obra plasmada por Deus, mas as concupiscências da carne e recebido o Espírito Santo.

[16] Como diz o Apóstolo na sua carta aos Colossenses: “Fazei morrer os vossos membros terrestres…” e ele mesmo expõe o que são esses membros: …“fornicação, impureza, paixão, desejos maus e a cupidez, que é idolatria”.

[17] O Apóstolo fala da rejeição destas coisas e afirma que os que as fazem, como se fossem compostos somente de carne e sangue, não poderão possuir o reino dos céus.

[18] Com efeito, a alma, por se ter inclinado para o pior e rebaixado para as concupiscências terrenas, recebeu o mesmo nome deles.

[19] E o Apóstolo nos manda rejeitar todas essas coisas na mesma carta, quando diz: “Despojando o homem velho com as suas ações…”

[20] Ao dizer isso, não rejeitava a antiga obra plasmada, pois se assim fosse nos deveríamos matar todos para cortar toda ligação com a nossa vida atual.

[21] Mas o próprio Apóstolo, a mesma pessoa que foi formada no seio materno e dele saiu, escrevia na carta aos Filipenses: “Viver na carne é fruto de uma obra”.

[22] O fruto da obra do Espírito é a salvação da carne.

[23] Qual o fruto mais visível do Espírito invisível do que tornar perfeita a carne e capaz da incorrupção?

[24] Se, portanto, “para mim, agora, viver na carne é fruto de uma obra”, com certeza não desprezava a substância da carne, quando diz: “Despojando o homem velho com as suas ações”, mas queria indicar a rejeição da nossa antiga maneira de viver, envelhecida e corrompida.

[25] Por isso acrescenta: “E revestindo o homem novo, que se renova no conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou”.

[26] Ao dizer: “Que se renova no conhecimento”, indica que o homem que anteriormente se encontrava na ignorância, isto é, que ignorava a Deus, se renova pelo conhecimento dele; porque é o conhecimento de Deus que renova o homem.

[27] Ao dizer: “Segundo a imagem daquele que o criou”, indica a recapitulação deste homem que no início foi feito à imagem de Deus.

[28] Que o Apóstolo seja a mesma pessoa que foi gerada no seio da mãe, isto é, a antiga substância da carne, ele próprio o diz na carta aos Gálatas: “Quando, porém, aquele que me separou desde o seio materno e me chamou por sua graça, houve por bem revelar em mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios”…

[29] Era o mesmo que tinha nascido do seio materno, como dissemos, e anunciava a boa nova do Filho de Deus; era o mesmo que, antes, por ignorância, perseguia a Igreja de Deus e depois, recebida a revelação no colóquio com o Senhor, como dissemos no terceiro livro, pregava o Filho de Deus, Jesus Cristo, crucificado sob Pôncio Pilatos, quando o novo conhecimento eliminou a precedente ignorância.

[30] Do mesmo modo os cegos curados pelo Senhor perderam a cegueira recebendo o perfeito funcionamento dos seus olhos pelo qual viam com os mesmos olhos que antes não conseguiam ver, tendo desaparecido somente a obscuridade da vista sem que mudasse a sua natureza, a fim de que agradecessem com os mesmos olhos que antes não viam, àquele que lhes concedera a visão; igualmente se verificou na cura da mão ressequida e em todas as outras curas, em que não eram mudados os membros recebidos no nascimento, mas os mesmos recobravam a saúde.

[31] Com efeito, o Verbo de Deus, criador de todas as coisas, que desde o princípio criara o homem, encontrando estragada pela malícia a sua obra, sarou-a de todas as maneiras possíveis, quer cada membro em particular da forma com que fora feito no princípio, quer conferindo de uma só vez ao homem a saúde perfeita e a integridade, preparando-o perfeito para si em vista da ressurreição.

[32] Por qual motivo sararia os membros do corpo e os restabeleceria na sua forma primeira se o que curava não se salvasse?

[33] Se tivesse procurado vantagem somente temporária, os que foram curados por ele não teriam recebido grande benefício.

[34] Ora, como ainda podem dizer que a carne não pode receber dele a vida quando recebeu dele a cura?

[35] A vida adquire-se pela cura e a incorruptibilidade pela vida. Portanto, quem dá a cura dá também a vida, e quem dá a vida concede também a incorruptibilidade à sua criatura.

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