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[1] Que nos digam os nossos adversários, ou melhor, os adversários da sua salvação, com quais corpos ressuscitaram a filha defunta do sumo sacerdote, o filho da viúva que, morto, era levado para a sepultura, perto da porta da cidade, e Lázaro que já se encontrava há quatro dias no sepulcro?

[2] Certamente com os mesmos em que morreram, do contrário não seriam as mesmas, as pessoas mortas e as que ressuscitaram.

[3] Com efeito, diz a Escritura: “O Senhor pegou a mão do morto e lhe disse: Jovem, eu te digo, levanta-te; e o morto sentou-se; e ordenou que lhe dessem de comer, e o entregou à sua mãe”.

[4] E: “Chamou Lázaro com voz forte, dizendo: Lázaro, sai para fora. E o morto saiu, diz a Escritura, tinha os braços e as pernas amarrados com panos”.

[5] É o símbolo do homem enredado nos pecados. Por isso o Senhor diz: “Desamarrem-no e deixem-no ir”.

[6] Como os que foram curados o foram nos membros que foram doentes e os mortos ressuscitaram nos seus próprios corpos, recebendo a cura e a vida dadas pelo Senhor — prefigurando assim as coisas eternas pelas temporais e mostrando que era ele que tinha o poder de dar a cura e a vida à obra que modelara, para que se acreditasse na palavra relativa à sua ressurreição — assim no fim, ao som da última trombeta, à voz do Senhor, ressuscitarão os mortos.

[7] Como ele mesmo diz: “Virá a hora em que todos os mortos que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do homem e sairão, os que fizeram o bem, para a ressurreição de vida, e os que fizeram o mal para a ressurreição de condenação”.

[8] Estultos e verdadeiramente infelizes são, pois, os que não querem enxergar coisas tão evidentes e claras, mas fogem da luz da verdade, cegando-se a si mesmos como o infeliz Édipo.

[9] Como no ginásio, um lutador principiante, lutando com outro, lhe agarra com todas as forças uma parte do corpo e é justamente derrubado por ela e ao cair pensa ter ganho a luta por se ter agarrado tenazmente ao primeiro membro que encontrou, além do tombo leva o ridículo, assim acontece com os hereges.

[10] Tirando duas palavras da frase de Paulo “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”, não captaram o pensamento do Apóstolo nem o sentido destas palavras: tirando duas palavras do seu contexto encontram a morte, tentando, por aquilo que está em seu poder, destruir toda a economia de Deus.

[11] Se pretendem que esta palavra indique precisamente a carne e não as obras da carne, como demonstramos, fazem com que o Apóstolo se contradiga a si mesmo, porque, logo em seguida, na mesma carta, o Apóstolo, referindo-se à carne, diz: “De fato, é necessário que este ser corruptível seja revestido da incorruptibilidade e que este ser mortal seja revestido de imortalidade.

[12] Quando este ser mortal for revestido da imortalidade, então se cumprirá a Escritura: A morte foi absorvida pela vitória. Morte, onde está o teu aguilhão? Morte, onde está a tua vitória?”

[13] Estas palavras estão certas quando esta carne mortal e corruptível, entregue à morte e humilhada pelo poder dela, revestida de incorruptibilidade e de imortalidade voltará à vida, porque, então, verdadeiramente será vencida a morte, quando esta carne que estava em seu poder se lhe subtrairá.

[14] Ele diz ainda aos filipenses: “A nossa vida está no céu, de onde esperamos como Salvador o Senhor Jesus que transformará o nosso pobre corpo, tornando-o conforme ao seu corpo glorioso, pela ação do seu poder”.

[15] Qual é este pobre corpo que o Senhor transformará tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso? Evidentemente, o corpo carnal que é aviltado no sepulcro.

[16] A transformação dele consiste nisto: que de mortal e corruptível é tornado imortal e incorruptível, não pela sua natureza, mas por obra do Senhor que pode revestir de imortalidade o que é mortal e de incorruptibilidade o que é corruptível.

[17] Por isso diz na segunda carta aos Coríntios: “Para que o que é mortal seja absorvido pela vida. Ora, quem nos dispôs para isto é Deus, que nos deu o penhor do Espírito”.

[18] É evidente que aqui ele fala da carne, pois nem a alma nem o espírito são mortais.

[19] O que é mortal será absorvido pela vida quando a carne, já não morta, mas perpetuamente viva e incorrupta, glorificará a Deus que, deste modo, nos tornou perfeitos.

[20] Para obter esta perfeição, oportunamente exorta os coríntios: “Glorificai a Deus nos vossos corpos”, pois Deus é o autor da incorruptibilidade.

[21] A prova de que fala do corpo de carne e não de outro corpo qualquer está no que diz aos coríntios de forma precisa e sem ambiguidade: “Sem cessar e por toda parte trazemos em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.

[22] Embora estejamos vivos somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal”.

[23] Que o Espírito está ligado à carne ele o diz na mesma carta: “De fato, vós sois uma carta de Cristo, redigida por nós, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, os vossos corações”.

[24] Ora, se já agora, corações de carne podem receber o Espírito, não há que se admirar se na ressurreição recebem a vida dada pelo Espírito.

[25] O Apóstolo escreve aos filipenses a respeito desta ressurreição: “Tornado semelhante a ele na sua morte a fim de alcançar, se possível, a ressurreição dos mortos”.

[26] Em qual carne mortal pode-se entender que se manifeste a vida, a não ser nesta carne que morre por causa da confissão de Deus?

[27] Assim como ele mesmo diz: “Se é com entendimento humano que em Éfeso combati com as feras, que me adianta se os mortos não ressurgem?

[28] Se os mortos não ressuscitam, nem o Cristo ressuscitou; e se Cristo não ressuscitou, são ilusórias a nossa pregação e a vossa fé.

[29] E até se deve dizer que somos testemunhas falsas acerca de Deus, porque testemunhamos que ressuscitou o Cristo quando não é verdade.

[30] Se o Cristo não ressuscitou a vossa fé é ilusória e vós ainda estais nos vossos pecados.

[31] Assim, os que morreram em Cristo estão perdidos.

[32] Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.

[33] Mas de fato o Cristo ressuscitou dos mortos, primícia dos que adormeceram.

[34] Porque, por um homem veio a morte e por um homem vem a ressurreição dos mortos”.

[35] Portanto, como já dissemos, ou afirmam que em todos estes textos o Apóstolo se contradiz quanto às palavras “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus”, ou são obrigados a procurar explicações falsas e forçadas para torcer-lhes ou mudar-lhes o sentido.

[36] Que sentido poderão dizer que tenha quando procuram explicar de outra forma estas palavras: “É necessário que este ser corruptível seja revestido da incorruptibilidade e que este ser mortal seja revestido da imortalidade”; e estas outras: “Para que a vida de Jesus se manifeste na nossa carne mortal”, e todas as outras em que o Apóstolo proclama abertamente a ressurreição e a incorruptibilidade da carne?

[37] Eles se veem obrigados a torcer a interpretação de tantos textos por não querer entender corretamente uma só frase.

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