[1] Podemos encontrar a prova de que o Apóstolo não falava da substância da carne e do sangue quando dizia que eles não podem herdar o reino de Deus, pelo fato de que se serviu constantemente das palavras carne e sangue a respeito de nosso Senhor Jesus Cristo, quer para afirmar a sua natureza humana — ele próprio se chamava filho do homem —, quer a salvação da nossa carne.
[2] Se, com efeito, a carne não devia ser salva, o Verbo de Deus não se teria feito carne e, se não se devia pedir conta do sangue dos justos, o Senhor não teria tido sangue.
[3] Mas, com efeito, desde o princípio o sangue tem voz, como o mostram as palavras que Deus disse a Caim, depois que matou seu irmão: “A voz do sangue de teu irmão chega até mim”.
[4] E a Noé e aos que estavam com ele disse que pediria conta do sangue deles: “Pedirei conta do vosso sangue a todas as as feras”.
[5] E ainda: “Será derramado o sangue de quem derramou o sangue de um homem”.
[6] E àqueles que derramariam o seu sangue disse: “Pedir-se-á conta de todo o sangue inocente derramado sobre a terra desde o sangue de Abel, o justo, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o templo e o altar; na verdade, eu vos digo, tudo isto acontecerá a esta geração”.
[7] Com isso deixava entender que teria recapitulado em si o derramamento de todo o sangue dos justos e dos profetas, desde o início, e que se pediria conta do sangue deles na sua pessoa.
[8] Ora, não se pediria conta dele se não devesse ser salvo, como também o Senhor não teria recapitulado em si mesmo tudo isso se ele próprio não assumisse carne e sangue em conformidade com a obra modelada no princípio, salvando assim na sua pessoa, no fim, o que no princípio perecera em Adão.
[9] Se o Senhor se tivesse encarnado por conta de outra economia e se tivesse assumido carne de outra substância não teria recapitulado em si o homem e até nem poderia ser chamado carne, porque somente seria carne se derivasse daquela obra primitiva modelada do limo da terra.
[10] Se o Senhor tivesse que assumir a carne tirada de outra substância, já desde o princípio o Pai usaria essa substância para modelar a sua obra.
[11] Contudo, o Verbo salvador se tornou aquilo mesmo que era o homem que se perdeu para salvá-lo, operando assim em si mesmo a comunhão com o homem e a sua salvação.
[12] O que se perdera tinha carne e sangue, porque foi usando o limo da terra com que Deus plasmou o homem e era justamente por este homem que se devia realizar a economia da vinda do Senhor.
[13] Neste sentido, o Apóstolo escreve aos colossenses: “E vós também éreis uma vez afastados e éreis inimigos do seu pensamento pelas obras más, porém agora sois reconciliados no seu corpo de carne por meio de sua morte para vos apresentar diante dele santos, sem mancha e inocentes”.
[14] Vós sois reconciliados, ele diz, no seu corpo de carne, porque a carne justa reconciliou a carne que era presa do pecado e a introduziu na amizade de Deus.
[15] Se alguém diz que a carne do Senhor era diversa da nossa porque ela não pecou e não foi encontrado engano na sua alma, enquanto nós somos pecadores, tem razão.
[16] Mas se afirma que a carne do Senhor era de substância diferente da nossa, a palavra do Apóstolo relativa à reconciliação perderá para ele o sentido.
[17] Reconciliação se faz com quem se esteve alguma vez na inimizade.
[18] Ora, se o Senhor tomou carne de outra substância não reconciliou com Deus aquilo que pela transgressão se tornou inimigo de Deus.
[19] Mas pela comunhão que temos com ele o Senhor reconciliou o homem com Deus Pai, reconciliando-nos com ele próprio por meio de seu corpo de carne e resgatando-nos com seu sangue, conforme o Apóstolo diz aos efésios: “Nele recebemos a redenção adquirida pelo seu sangue, a remissão dos pecados”.
[20] E ainda: “Vós que outrora estáveis afastados vos tornastes próximos, graças ao sangue de Cristo”.
[21] E mais: “Na sua carne destruiu a inimizade, a lei dos mandamentos expressa em preceitos”.
[22] Ademais, em toda a carta, o Apóstolo afirma expressamente que nós fomos salvos pela carne de nosso Senhor e pelo seu sangue.
[23] Portanto, se a carne e o sangue são a causa da nossa salvação, não é propriamente da carne e do sangue que está escrito que não podem herdar o reino de Deus, mas das obras da carne de que falamos, porque são elas que aliciando o homem para o pecado o privam da vida.
[24] Por isso, na carta aos Romanos diz: “Portanto, que o pecado não impere mais em vosso corpo mortal sujeitando-vos a ele, nem entregueis vossos membros, como armas de injustiça, ao pecado, mas oferecei-vos a Deus como vivos ressuscitados dos mortos, e oferecei vossos membros como armas de justiça para Deus”.
[25] Com os mesmos membros com os quais servíamos ao pecado e dávamos frutos de morte, ele quer que sirvamos à justiça e demos frutos de vida.
[26] Lembra-te, amigo caríssimo, que foste remido pela carne de nosso Senhor e comprado pelo seu sangue; “permanece unido à cabeça, da qual recebe coesão e crescimento todo o corpo” da Igreja, isto é, à vinda na carne do Filho de Deus; confessa a sua divindade e com igual firmeza a sua humanidade; serve-te das provas tiradas das Escrituras e assim poderás facilmente refutar, como demonstramos, todas as opiniões extemporâneas inventadas pelos hereges.

