[1] Ora, este é o Criador; pelo seu amor é nosso Pai; pelo seu poder é nosso Senhor; pela sua sabedoria é aquele que nos criou e modelou; é precisamente com ele que nos tornamos inimigos pela desobediência ao seu mandamento.
[2] Eis, então, por que, nos últimos tempos, o Senhor nos restabeleceu na amizade, pela sua encarnação, tornando-se mediador entre Deus e o homem, propiciando-nos o Pai contra o qual pecáramos, reparando a nossa desobediência com a sua obediência, dando-nos a graça da conversão e da submissão ao nosso Criador.
[3] Eis por que nos ensinou a dizer na nossa oração: “perdoa-nos as nossas dívidas”, justamente por ser nosso Pai, com quem éramos devedores por ter transgredido o seu mandamento.
[4] Ora, quem é este? Pai desconhecido que nunca deu nenhum preceito ou o Deus pregado pelos profetas, com quem éramos devedores por ter transgredido o seu mandamento?
[5] Este mandamento fora dado ao homem por meio do Verbo. Com efeito, diz: “Adão escutou a voz do Senhor Deus”.
[6] O Verbo pode, pois, dizer corretamente ao homem: “São-te perdoados os teus pecados: aquele contra quem pecáramos no início, no fim concedia a remissão dos pecados”.
[7] Mas se fosse um aquele de quem transgredimos o mandamento e outro a dizer: “São-te perdoados os teus pecados”, este último nem seria bom nem verídico nem justo.
[8] Como se pode dizer bom quem não te dá o que é seu? Como se pode chamar justo quem se apropria do que é dos outros? Como se poderia dizer que os pecados foram verdadeiramente perdoados, a não ser que o perdão nos seja concedido pelo que foi ofendido, “pelas vísceras de misericórdia do nosso Deus, em que nos visitou” pelo seu Filho?
[9] Por isso, depois da cura do paralítico, “os que viram glorificaram a Deus que dera tal poder aos homens”.
[10] O povo que assistiu qual Deus glorificou? Seria o Pai desconhecido inventado pelos hereges? E como poderiam glorificar aquele que sequer conheciam?
[11] Está claro que os israelitas glorificavam o Deus pregado pelos profetas, que é também o Pai de nosso Senhor: eis por que ele ensinava os homens com verdade, por meio dos milagres que fazia, a glorificar a Deus.
[12] Fosse um o Pai de quem ele vinha e outro aquele que os homens glorificavam, ao ver os seus milagres, teria tornado os homens mal agradecidos com o Pai que o enviara a fazer o milagre.
[13] Mas visto que o Unigênito viera do verdadeiro Deus para a salvação dos homens e que, com os milagres que fazia, convidava os incrédulos a dar glória ao Pai, por isso dizia aos fariseus, que não admitiam a vinda do Filho de Deus e não criam no perdão que ele concedia: “Para que saibais que o Filho do homem tem, na terra, o poder de perdoar os pecados”; e depois de falar assim deu ordem ao paralítico que tomasse o leito em que jazia e fosse para sua casa.
[14] Com este milagre confundiu os incrédulos, indicando que era a voz de Deus pela qual o homem recebera os mandamentos que, depois, transgrediu, tornando-se pecador: a paralisia era a consequência dos pecados.
[15] Por isso, ao perdoar os pecados sarou um homem e ao mesmo tempo revelou claramente quem ele era.
[16] Com efeito, se somente Deus pode perdoar os pecados e se o Senhor os perdoava sarando um homem, está claro que ele era o Verbo de Deus, feito Filho do homem, porque recebera do Pai o poder de perdoar os pecados, como homem e como Deus; como homem participou dos nossos sofrimentos e como Deus perdoa as dívidas que tínhamos com Deus, nosso criador.
[17] Eis por que Davi predisse: “Felizes aqueles aos quais foram perdoadas as iniquidades e cobertos os seus pecados! Feliz o homem aos quais o Senhor não culpa de pecado!” descrevendo antecipadamente o perdão que recebemos pela sua vinda, com a qual destruiu o título da nossa dívida, pregando-o na cruz, para que, como pelo lenho nos tornamos devedores a Deus, pelo lenho recebêssemos o perdão de nossa dívida.
[18] Isso foi mostrado simbolicamente, entre muitos outros, também pelo profeta Eliseu.
[19] Um dia, os profetas que estavam com ele cortavam lenha para fazer umas choupanas, quando o machado soltou-se do cabo e caiu no Jordão, e não conseguiam encontrá-lo.
[20] Tendo chegado àquele lugar, Eliseu soube o que acontecera, então lançou um pedaço de madeira na água e logo o ferro do machado veio à tona e os que o tinham perdido puderam recolhê-lo da superfície da água.
[21] Com este gesto o profeta indicava que o firme Verbo de Deus que perdêramos negligentemente por causa do lenho e que não encontrávamos, o teríamos encontrado pela economia do lenho.
[22] Também João Batista compara o Verbo de Deus a machado, quando diz: “O machado já está posto às raízes das árvores”.
[23] E Jeremias diz a mesma coisa: “O Verbo do Senhor é como machado de dois gumes que racha a pedra”.
[24] Foi assim que nos foi manifestado este Verbo escondido, como acabamos de dizer.
[25] De fato, como o tínhamos perdido por causa do lenho, pelo lenho voltou a ser visto por todos, mostrando em si mesmo a altura, o comprimento e a largura, e como disse um dos anciãos, recolheu pela extensão de suas mãos dois povos para um só Deus.
[26] Duas mãos, porque havia dois povos dispersos até as extremidades da terra, mas no meio, uma só cabeça, porque “há um só Deus que é sobre todos, por meio de todos e em todos”.

