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[1] O Senhor realizou esta economia tão prodigiosa não por meio de criaturas feitas por outros, mas pelas suas criaturas; não pelo que derivava da ignorância ou da degradação, e sim por meio das coisas derivadas da sabedoria e do poder do Pai.

[2] Ele não é injusto para desejar os bens dos outros, nem tão pobre que não possa produzir a vida nos seus e, servindo-se da sua criação, dar a salvação ao homem.

[3] A criação não o poderia sustentar se fosse fruto de ignorância e de degradação, porque o Verbo de Deus, encarnado, foi suspenso ao lenho, como longamente mostramos e como os próprios hereges o confessam crucificado.

[4] Aliás, como poderia o produto da ignorância e degradação sustentar aquele que encerra em si o conhecimento de todas as coisas e que é verdadeiro e perfeito?

[5] Ou como poderia uma criação separada e infinitamente distanciada do Pai, sustentar o Verbo?

[6] Se esta criação foi feita por anjos, quer tivessem ignorado, quer conhecido o Deus que está acima de todas as coisas, visto que o Senhor disse: “Eu estou no Pai e o Pai em mim”, como poderia a criação dos anjos sustentar simultaneamente o Pai e o Filho?

[7] Como poderia uma criação exterior ao Pleroma conter aquele que contém todo o Pleroma?

[8] Sendo isso tudo impossível e não havendo a mínima prova para o defender, somente resta verdadeira a afirmação da Igreja segundo a qual a própria criação de Deus, feita pelo poder, a arte e a sabedoria dele, pode sustentar Deus.

[9] Ela que no plano invisível é sustentada pelo Pai e no plano visível, por sua vez, sustenta o Verbo do Pai.

[10] E esta é a verdade.

[11] O Pai sustenta, ao mesmo tempo, a criação e o seu Verbo e o Verbo, sustentado pelo Pai, dá o Espírito a todos, segundo a vontade do Pai: às coisas criadas, um espírito conforme à criação, isto é, criado; a outros na adoção divina, que é nova geração.

[12] Assim manifesta-se “um só Pai que é sobre todos, por meio de todos e em todos”.

[13] Com efeito, sobre todos, há o Pai e é ele que é a cabeça de Cristo; por meio de todos, há o Verbo que é a cabeça da Igreja; em todos, há o Espírito, e ele é a água viva que o Senhor dá aos que nele crêem com retidão, que o amam, e que sabem que há “um só Pai que é sobre todos, por meio de todos e em todos”.

[14] Também João, o discípulo do Senhor, afirma tudo isso, quando diz no seu Evangelho: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. No princípio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito”.

[15] Ele diz, a seguir, acerca deste mesmo Verbo: “Ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, os que crêem em seu nome”.

[16] Diz ainda, para indicar a sua economia humana: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

[17] E acrescenta: “E nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto ao Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade”.

[18] Com estas palavras afirma claramente para quem quer ouvir, isto é, para quem tem ouvidos, “que há um só Pai que é sobre todos”, e um Verbo de Deus que opera por meio de todos e pelo qual foram feitas todas as coisas, que este mundo é dele e foi feito por ele, segundo a vontade do Pai, e não por anjos, nem pela apostasia, a degradação, a ignorância, nem por alguma Potência, que alguns chamam Prounicos e outros Mãe, nem por algum outro Demiurgo que não conhecia o Pai.

[19] O verdadeiro Criador do mundo é o Verbo de Deus.

[20] Este é nosso Senhor, que nos últimos tempos se fez homem, ele que já estava no mundo e invisivelmente sustenta todas as coisas criadas e está impresso em toda a criação, como Verbo de Deus que tudo governa e dispõe; por isso veio para o que era seu, de forma visível, e se fez carne, foi suspenso no lenho, para recapitular em si todas as coisas.

[21] E os seus, isto é, os homens, não o receberam, assim como Moisés anunciava ao dizer ao povo: “A tua vida será suspensa diante de teus olhos e não acreditarás na tua vida”.

[22] Assim os que não o receberam não receberam a vida.

[23] “Mas a todos que o receberam deu poder de se tornarem filhos de Deus”.

[24] É ele que recebeu do Pai o poder sobre todas as coisas, porque é Verbo de Deus e verdadeiro homem.

[25] Por um lado, manda nos seres invisíveis de maneira espiritual para que cada um deles permaneça na sua ordem; por outro lado, reina de maneira manifesta sobre os seres visíveis e humanos, fazendo vir sobre todos o justo julgamento que merecem.

[26] Esta vinda visível do Verbo, Davi a anunciou, quando disse: “O nosso Deus virá de maneira manifesta e não se calará.”

[27] E depois anunciou o julgamento que ele traria, dizendo: “O fogo arderá diante dele e à sua volta se lançará a tempestade. Chamará os céus do alto e a terra para julgar o seu povo”.

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