[1] Estultos os que afirmam que Deus veio a mundo não seu, como se desejasse as coisas alheias, para apresentar o homem feito por outro a um deus que nem o fez, nem o criou, nem participou de alguma forma na sua produção.
[2] Sua vinda não seria justa, se como eles pretendem, veio a mundo não seu; nem nos resgatou verdadeiramente com seu sangue, se não se fez verdadeiramente homem.
[3] Mas, de fato, restaurou na obra por ele modelada o privilégio original do homem de ter sido feito à imagem e semelhança de Deus; por isso, ele não se apossou fraudulentamente das coisas dos outros, mas retomou o que era seu com toda justiça e bondade.
[4] Com justiça em relação à Apostasia, porque nos resgatou dela ao preço de seu sangue; com bondade em relação a nós, os resgatados, porque não lhe demos nada antecipadamente, nem ele nos pede nada, como se precisasse, mas somos nós que precisamos da comunhão com ele: por isso, entregou-se a si mesmo por pura bondade, para nos reunir no seio do Pai.
[5] Estultos, completamente, os que rejeitam toda a economia de Deus, negam a salvação da carne, desprezam a sua regeneração, declarando ser ela incapaz de receber a incorruptibilidade.
[6] Mas se esta não se salva, então nem o Senhor nos resgatou no seu sangue, nem o cálice eucarístico é comunhão de seu sangue, nem o pão que partimos é a comunhão com seu corpo.
[7] Pois o sangue não pode brotar a não ser das veias, da carne e do resto da substância humana e é justamente por se ter tornado tudo isso que o Verbo de Deus nos remiu com seu sangue, como diz o seu Apóstolo: “Nele temos a redenção por seu sangue e a remissão dos pecados”.
[8] É por sermos seus membros que somos nutridos por meio das coisas criadas: ele próprio põe à nossa disposição as criaturas, fazendo o sol levantar-se e chover, como quer; ele ainda reconheceu como seu próprio sangue o cálice tirado da natureza criada, com o qual fortifica o nosso sangue, e proclamou ser seu próprio corpo o pão tirado da natureza criada com o qual se fortificam os nossos corpos.
[9] Se, portanto, o cálice que foi misturado e o pão que foi produzido recebem a palavra de Deus e se tornam a Eucaristia, isto é, o sangue e o corpo de Cristo, e se por eles cresce e se fortifica a substância da nossa carne, como podem pretender que a carne seja incapaz de receber o dom de Deus, que consiste na vida eterna, quando ela é alimentada pelo sangue e pelo corpo de Cristo, e é membro deste corpo?
[10] Como diz o bem-aventurado Apóstolo na carta aos Efésios: “Somos membros de seu corpo, formados pela sua carne e pelos seus ossos”; e não fala de algum homem pneumático e invisível — “porque o espírito não tem ossos nem carne” — mas da estrutura do homem verdadeiro, feito de carne, nervos e ossos, alimentado pelo cálice que é o sangue de Cristo e é fortificado pelo pão que é o seu corpo.
[11] Como a cepa de videira plantada na terra frutifica no seu tempo e o grão de trigo caindo na terra, decompondo-se, ressurge multiplicado pelo Espírito de Deus que sustenta todas as coisas e que, pela inteligência, são postas ao serviço dos homens e, recebendo a palavra de Deus, se tornam eucaristia, isto é, o corpo e o sangue de Cristo, da mesma forma os nossos corpos, alimentados por esta eucaristia, depois de ser depostos na terra e se terem decomposto, ressuscitarão, no seu tempo, quando o Verbo de Deus os fará ressuscitar para a glória de Deus Pai, porque ele dará a imortalidade ao que é mortal e a incorruptibilidade ao que é corruptível, pois o poder de Deus se manifesta na fraqueza.
[12] Não é pois de nós mesmos que temos a vida e, por isso, não nos podemos orgulhar nem nos elevar contra Deus, cultivando pensamentos de ingratidão, e, sabendo por experiência que é da sua grandeza e não da nossa natureza que temos a capacidade da vida eterna, não nos afastemos daquela glória de Deus como é em si mesmo, nem ignoremos a nossa natureza; para que aprendamos qual o poder de Deus e quais benefícios o homem recebe e não nos enganemos na compreensão do ser e do como as coisas existem, isto é, de Deus e do homem.
[13] Ademais, como dizíamos anteriormente, não permitiu Deus que acontecesse a nossa dissolução, a fim de que instruídos por todas as coisas estejamos bem atentos a tudo, sem ignorar nem a Deus nem a nós mesmos?

