[1] Todos eles vieram muito tempo depois dos bispos aos quais os apóstolos confiaram as igrejas.
[2] Também isso nós mostramos, com toda a precisão possível, no nosso terceiro livro.
[3] Todos estes hereges que mencionamos, por serem cegos em relação à verdade, são obrigados a trilhar caminhos diferentes e impraticáveis; por isso, os vestígios de seus ensinamentos, discordes e contraditórios, estão espalhados por todos os lados.
[4] O que não acontece com os que pertencem à Igreja, cujos caminhos percorrem o mundo inteiro conservando a sólida tradição que vem dos apóstolos, mostrando-nos uma única e idêntica fé em todos, porque todos acreditam num só e idêntico Deus Pai, admitem a mesma economia da encarnação do Filho de Deus, reconhecem o mesmo dom do Espírito, observam os mesmos preceitos, conservam a mesma forma de organização da Igreja, esperam a mesma vinda do Senhor e a mesma salvação de todo o homem, isto é, da alma e do corpo.
[5] A pregação da Igreja é, portanto, verdadeira e firme e nela há caminho único e idêntico em todo o mundo.
[6] A ela foi concedida a luz de Deus: “eis por que a sabedoria de Deus com a qual salva os homens é celebrada nas estradas, age corajosamente nas praças, é proclamada do alto dos muros e fala com segurança nas portas da cidade”.
[7] Com efeito, em todo lugar, a Igreja prega a verdade, verdadeiro candelabro de sete braços, trazendo a luz de Cristo.
[8] Os que abandonam a doutrina da Igreja acusam de ingenuidade os santos presbíteros, sem entender que mais vale o homem religioso e simples do que o sofista blasfemo e impudente.
[9] Assim são todos os hereges, os quais, pensando terem encontrado algo superior à verdade, seguindo as doutrinas que apresentamos, andam por caminhos tortuosos, sempre novos e inseguros, mudam continuamente de opinião e, como cegos conduzidos por cegos, fatalmente cairão na fossa da ignorância aberta diante deles, destinados a procurar sempre e nunca encontrar a verdade.
[10] É necessário, portanto, evitar as doutrinas deles e prestar muita atenção para não sermos prejudicados e, sobretudo, refugiar-nos na Igreja, para ser educados no seu seio e nutridos pelas Escrituras do Senhor.
[11] A Igreja é como paraíso plantado neste mundo.
[12] Portanto, comereis do fruto de todas as árvores do paraíso, diz o Espírito de Deus, o que significa: alimentai-vos de todas as Escrituras divinas, mas não o façais com intelecto orgulhoso e não tenhais nenhum contato com a dissensão dos hereges.
[13] Eles afirmam possuírem o conhecimento do bem e do mal e elevam seus pensamentos acima do Deus que os criou, e com a sua inteligência ultrapassam a medida da inteligência.
[14] Eis por que o Apóstolo diz: “Não tenhais pensamentos mais elevados do que é conveniente, mas sejam conservados na medida da prudência”, para que ao comer da sua gnose que entende mais do que é conveniente, não sejamos expulsos do paraíso da vida, aonde o Senhor leva os que obedecem aos seus mandamentos, “recapitulando em si todas as coisas, as que estão nos céus e as que estão sobre a terra”.
[15] As que estão nos céus são espirituais, enquanto as que estão na terra são esta obra que é o homem.
[16] Ora, são estas coisas que ele recapitulou em si, unindo o homem ao Espírito e fazendo o Espírito habitar no homem, tornando-se a cabeça do Espírito e dando o Espírito para que seja a cabeça do homem: com efeito, é ele que nos faz ver, ouvir e falar.

