[1] Portanto, recapitulando todas as coisas, Cristo assumiu também a luta que travamos contra nosso inimigo. Atacou e venceu aquele que no princípio, em Adão, nos reduzira ao cativeiro, e calcou sua cabeça, como lemos no Gênesis: Deus disse à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher e entre tua descendência e a dela; esta te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”.
[2] Desde esse momento, pois, foi anunciado que esmagaria a cabeça da serpente aquele, semelhante a Adão, que devia nascer de Virgem. E é esta a descendência de que fala o Apóstolo na carta aos Gálatas: “A lei foi estabelecida até que chegasse a descendência a quem a promessa fora feita”. E ainda explica mais claramente na mesma carta ao dizer: “Quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”.
[3] O inimigo não teria sido vencido com justiça se não tivesse nascido de mulher o homem que o venceu, pois fora por meio de mulher que ele dominara o homem, opondo-se a ele desde o princípio.
[4] Por este motivo é que o próprio Senhor declara ser o Filho do homem, recapitulando em si o primeiro homem a partir do qual fora modelada a mulher. E assim como pela derrota de um homem nossa raça desceu para a morte, pela vitória de outro homem subimos novamente à vida, e, como a morte triunfara sobre nós por um homem, assim todos nós triunfamos da morte por um homem.
[5] O Senhor não teria recapitulado em si a antiga e primeira inimizade contra a serpente e não teria cumprido a promessa do Criador e nem o seu mandamento se tivesse vindo de outro Pai.
[6] Mas, sendo um só e idêntico aquele que, no princípio, nos modelou e, no fim, enviou seu Filho, o Senhor cumpriu verdadeiramente o seu mandamento nascendo de mulher, aniquilando o nosso adversário e completando no homem a imagem e semelhança de Deus.
[7] Por isso não o destruiu com outros meios a não ser pelas palavras da Lei e se serviu exatamente do mandamento do Pai como ajuda para destruir e desmascarar o anjo apóstata.
[8] Primeiramente jejuou por quarenta dias, a exemplo de Moisés e Elias, depois teve fome, para que entendêssemos que a sua humanidade era verdadeira e indiscutível, pois é próprio do homem ter fome quando não toma alimentos, e para que o adversário tivesse um ponto onde atacá-lo.
[9] Mas se a primeira vez por meio do alimento conseguiu seduzir o homem saciado e o levou a transgredir o mandamento de Deus, a segunda vez não conseguiu convencer o homem faminto a usar do alimento que vem de Deus.
[10] Com efeito, como o tentador lhe dissesse: “Se tu és o Filho de Deus, dize que estas pedras se tornem pão”, o Senhor o afastou com a ajuda do mandamento da Lei, respondendo-lhe: “Está escrito: não é somente de pão que vive o homem”.
[11] E às palavras “e és o Filho de Deus” opôs o silêncio; assim deixou às escuras o tentador com a confissão de sua humanidade e, por meio da palavra do Pai, afastou o primeiro assalto. Assim a saciedade que o homem experimentou no paraíso por causa da comida do casal foi curada pela penúria que sofreu neste mundo.
[12] Então, derrotado por meio da Lei, serviu-se da Lei, para, de maneira enganadora, desferir novo ataque. Levando-o ao pináculo mais alto do templo, disse-lhe: “Se és o Filho de Deus, atira-te para baixo. Porque está escrito: Ele dará ordem a seus anjos a teu respeito e eles te tomarão pelas mãos, para que não tropeces em alguma pedra”.
[13] Ele escondia a mentira sob as palavras da Escritura, como fazem todos os hereges, porque, se estava escrito que dará ordem a seus anjos a teu respeito, nenhuma Escritura dizia: “atira-te para baixo”, mas o diabo dava, por sua conta, esta sugestão.
[14] E o Senhor confundiu-o, mais uma vez, por meio da Lei: “Também está escrito: Não tentarás ao Senhor teu Deus”.
[15] Com estas palavras da Lei mostrou que o homem tem o dever de não tentar a Deus, e que ele, que estava diante do diabo como homem, nunca tentaria o Senhor seu Deus. Assim a intenção soberba da serpente foi destruída pela humildade que estava no homem.
[16] Já duas vezes o diabo fora vencido por meio da Escritura e convencido a sugerir coisas contrárias ao mandamento de Deus; estava provado que era inimigo de Deus, pelas suas próprias palavras.
[17] Grandemente confundido, se recolheu, de certa forma em si mesmo para reunir todo o poder de mentira e, pela terceira vez, “mostrou-lhe todos os reinos do mundo, com o seu esplendor”, dizendo, como lembra Lucas: “Eu te darei tudo isto, porque me foi entregue e eu o dou a quem quero, se, prostrado, me adorares”.
[18] Então o Senhor mostrando quem era o tentador, disse: “Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto”, revelando ao mesmo tempo o nome e a natureza dele: com efeito, a palavra Satanás, em hebraico, significa apóstata.
[19] Com esta terceira vitória, o Senhor afastava de si, definitivamente, o seu adversário derrotado pela Lei, e a transgressão do mandamento de Deus, perpetrada em Adão, era anulada pelo mandamento da Lei que o Filho do Homem observou para não transgredir o mandamento de Deus.
[20] Quem é o Senhor Deus a quem Cristo dá testemunho, que ninguém deve tentar, que devemos adorar e a quem unicamente devemos servir? Sem dúvida é o Deus que deu a Lei, porque estes preceitos estavam na Lei e pelas palavras da Lei o Senhor demonstra que a Lei, da parte do Pai, anuncia o verdadeiro Deus e que o anjo apóstata de Deus é vencido pela palavra da Lei, é apresentado tal como é e derrotado pelo Filho do homem que obedecia ao mandamento de Deus.
[21] Com efeito, no princípio, convenceu o homem a transgredir o mandamento do Criador e assim o submeteu ao seu poder que consiste na transgressão e na apostasia, com as quais o prendeu.
[22] Era preciso, pois, que, por sua vez, este apóstata fosse vencido pelo homem e fosse preso pelas mesmas amarras com as quais prendeu o homem, para que o homem, assim liberto, pudesse voltar ao seu Senhor, deixando para ele as amarras com as quais fora preso, isto é, a transgressão.
[23] O acorrentamento dele foi a libertação do homem, porque “ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar os seus pertences, se primeiro não amarrar o homem forte”.
[24] Quando o Senhor o convenceu a dar conselhos contrários à palavra de Deus que fez todas as coisas e o submeteu por meio do mandamento, que é a Lei de Deus; como homem que era, demonstrou que o diabo era trânsfuga e violador da Lei, apóstata de Deus; como Verbo o amarrou para sempre, como um seu fugitivo e se apossou dos pertences dele, isto é, dos homens que mantinha em poder dele e usava injustamente.
[25] Justamente foi levado do prisioneiro o que injustamente aprisionara o homem; e o homem, antes escravo, foi subtraído ao poder do seu dono, pela misericórdia de Deus Pai, que teve piedade da obra por ele modelada, deu-lhe a salvação e o reintegrou pelo Verbo, isto é, pelo Cristo, para que o homem aprendesse, por sua própria experiência, que não conquista a incorruptibilidade por si mesmo, mas a recebe por dom de Deus.

