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[1] Como mentiu no princípio, assim mente, no fim, quando diz: “Tudo isto foi posto em meu poder e eu o darei a quem quero”, porque não foi ele a estabelecer os reinos deste mundo, e sim Deus, pois “o coração do Rei está na mão do Senhor”.

[2] Pela boca de Salomão o Verbo diz ainda: “É por mim que reinam os reis, e que os príncipes decretam a justiça; por mim os grandes são exaltados e os chefes governam a terra”.

[3] O apóstolo Paulo fala no mesmo sentido: “Sede submissos a todas as autoridades superiores, porque não há autoridade que não venha de Deus e as que existem foram estabelecidas por Deus”.

[4] E diz ainda a respeito delas: “Não é sem motivo que a autoridade porta a espada: com efeito, ela é ministra de Deus e toma vingança enérgica contra o malfeitor”.

[5] Ele não fala nem das potências angélicas, nem dos principados invisíveis, como alguns têm a ousadia de interpretar, mas de autoridades humanas; e a prova disso está nestas palavras: “É por isso que pagais os impostos, porque eles são ministros de Deus que se desincumbem com zelo do seu ofício”.

[6] O Senhor confirmou isso tudo ao não fazer o que o diabo lhe sugeria e, por sua vez, dando ordens que se pagasse o imposto aos coletores para si e para Pedro, porque “são ministros de Deus e se desincumbem com zelo do seu ofício”.

[7] Com efeito, o homem quando se separou de Deus, chegou a tal ponto de crueldade que considerou como inimigos até os parentes e se lançou, sem medo, a toda espécie de desordens, homicídios e cupidez.

[8] Por isso Deus lhe impôs o temor dos homens, visto que não conheciam o temor de Deus, para que submetidos a uma autoridade humana e educados pelas suas leis, chegassem a certa justiça e usassem de moderação uns com os outros por medo da espada posta ostensivamente diante de seus olhos, de acordo com o que diz o Apóstolo: “Não é à toa que ela traz a espada; ela é instrumento de Deus para fazer justiça e punir quem pratica o mal”.

[9] Por este motivo, os magistrados não devem prestar contas nem podem ser punidos pelo que fazem quando são revestidos das leis como de indumento de justiça, mas são punidos por tudo o que fazem em detrimento da justiça agindo de maneira iníqua, ilegal e tirânica, porque o justo julgamento de Deus se aplica a todos os homens da mesma forma e sem falhas.

[10] Foi Deus que estabeleceu os reinos terrenos para o bem das nações e não o diabo, que nunca sossega nem deixa sossegada alguma nação, para que, pelo temor desta autoridade, os homens não se entredevorem como peixes, mas refreiem pela força das leis a grande injustiça dos gentios.

[11] É neste sentido que “os magistrados são os ministros de Deus”.

[12] Se, portanto, os que recolhem os nossos impostos “são os ministros de Deus e se desincumbem com zelo do seu ofício”, e…

[13] …se “todas as autoridades que existem foram estabelecidas por Deus”, está claro que o diabo mentia ao dizer: “Foram-me entregues e as dou a quem quero”.

[14] Por ordem de quem nascem os homens é o mesmo por ordem de quem são estabelecidos reis convenientes àqueles que são governados por eles, num tempo determinado.

[15] De fato, alguns são estabelecidos para correção e bem dos seus súditos e pela manutenção da justiça, outros para incutir medo, para o castigo e a repressão; outros, ainda, para o escárnio, a insolência e o orgulho conforme os súditos os merecem; porque, como dissemos, o justo juízo de Deus se aplica a todos os homens da mesma forma.

[16] O diabo, porém, não sendo mais que anjo apóstata, pode fazer somente o que fez desde o início, isto é, seduzir e induzir a mente dos homens a transgredir os mandamentos de Deus e tornar paulatinamente cego o coração dos que se esforçam por servi-lo, para que esqueçam o verdadeiro Deus e adorem a ele como Deus.

[17] É como se um rebelde, depois de se ter apossado com a força de uma região, espalhasse o temor entre seus habitantes e usurpasse para si as honras reais dos que não sabem que é rebelde e ladrão.

[18] Assim é com o diabo; ele era um dos anjos prepostos aos ventos da atmosfera, assim como Paulo o dá a conhecer na carta aos Efésios, que, por inveja dos homens, se tornou apóstata da lei de Deus: a inveja aliena de Deus.

[19] E, como a sua rebelião fosse denunciada pelo homem, que se tornou a pedra de toque de suas disposições, mais e mais cresceu nele a sua aversão pelo homem, invejoso que era da sua vida, e decidiu que o sujeitaria ao seu poder apóstata.

[20] Mas o Verbo de Deus, o Artífice de todas as coisas, vencendo-o na sua humanidade e denunciando a sua rebelião, submeteu-o, por sua vez, ao homem, dizendo: “Eis que vos dou o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo o poder do inimigo”, de forma que, tendo dominado o homem por meio da apostasia, assim por meio do homem que voltava a Deus, fosse eliminada a sua apostasia.

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