[1] Com efeito, se o Pai não julga, é porque ou não lhe importa nada tudo o que fazemos ou o aprova.
[2] Assim, se ele não julga, todos os homens serão iguais e estarão todos na mesma condição.
[3] Então a vinda de Cristo seria supérflua e sem sentido se não viesse para julgar.
[4] Porque “veio separar o homem de seu pai, a filha de sua mãe e a sogra da nora”; veio tomar um e deixar outro de dois que se encontram na mesma cama e de duas mulheres ocupadas a moer juntas, tomar uma e deixar a outra; veio para ordenar aos ceifadores, no fim dos tempos, que juntem primeiro o joio, amarrem-no em feixes e queimem-no no fogo inextinguível e depois recolham o trigo nos celeiros; e finalmente veio reunir os cordeiros no reino preparado para eles e enviar os cabritos para o fogo eterno, que o Pai preparou para o diabo e os seus anjos.
[5] O que dizer? Que o Verbo veio para a ruína e a ressurreição de muitos: para a ruína dos que não crêem nele e que ameaçou, no dia do juízo, de uma pena mais severa do que aquela de Sodoma e Gomorra; e para a ressurreição dos que crêem e obedecem à vontade de seu Pai que está nos céus.
[6] Se o Filho veio para todos igualmente, mas julga e distingue os que crêem dos que não crêem — porque espontaneamente os que crêem fazem a sua vontade e espontaneamente os que não crêem não recebem os seus ensinamentos — está claro que o Pai criou todos iguais, cada um possuindo o seu poder de decisão e seu livre-arbítrio, mas vê tudo e providencia para todos e “faz nascer o sol sobre os maus e os bons e faz chover sobre os justos e os injustos”.
[7] E a todos os que guardam o seu amor oferece a sua comunhão; a comunhão de Deus é vida, é luz, é gozo dos bens que vêm dele.
[8] Para aqueles, porém, que por sua própria vontade se afastam dele, confirma a separação que escolheram; a separação de Deus é a morte, a separação da luz são as trevas, é a perda de todos os bens que vêm dele.
[9] Os que, portanto, pela sua apostasia, perderam tudo o que acabamos de dizer, sendo privados de todos os bens, estão imersos em todos os castigos, não porque Deus não tivesse no princípio a intenção de puni-los, mas o castigo veio como consequência da privação de todos os bens.
[10] Os dons de Deus são eternos e sem fim e a privação deles é também eterna e sem fim, como os que se autocegaram por uma luz violenta ou o foram por outros, estão privados permanentemente do gozo da luz, não porque a própria luz cegue, mas porque sua cegueira aumenta a sua desgraça.
[11] Por isso o Senhor dizia: “Quem crê em mim não é julgado”, isto é, não é separado de Deus, porque está unido a Deus pela fé.
[12] E acrescentava: “Mas quem não crê já está condenado porque não creu no nome do Unigênito Filho de Deus”, isto é, separou-se de Deus por sua livre decisão.
[13] “Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz.
[14] Quem faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, a fim de que as suas obras não sejam desmascaradas.
[15] Mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que se manifeste que as suas obras são feitas em Deus”.

