[1] Assim pois, visto que neste mundo alguns acorrem à luz e se unem a Deus pela fé, ao passo que outros se afastam da luz e se separam de Deus, o Verbo de Deus veio para dar a cada um a morada apropriada: a uns, na luz, para que gozem dos bens que ela contém, e a outros, nas trevas, a fim de partilhar as penas que encerram.
[2] É por isso que o Senhor diz que chamará os da sua direita para o reino do Pai e mandará os da sua esquerda para o fogo eterno, porque eles, sozinhos, se privaram de todos os bens.
[3] Eis por que o Apóstolo diz: “Visto que não acolheram o amor da verdade a fim de serem salvos, por isso Deus lhes manda o poder da sedução para que acreditem na mentira e sejam condenados todos os que não acreditaram na verdade, mas antes consentiram na iniquidade”.
[4] Com efeito, virá aquele que deve vir, o Anticristo, e voluntariamente recapitulará em si a apostasia e por sua vontade e arbítrio fará tudo o que fará, sentar-se-á no templo de Deus, para que os seus seguidores o adorem como Cristo: assim será justamente lançado ao lago de fogo.
[5] Deus, na sua previdência, conhece todas as coisas, fará vir em tempo oportuno aquele que deve ser o tal “para que acreditem na mentira e sejam condenados todos os que não acreditaram na verdade, mas antes consentiram na iniquidade”.
[6] A sua vinda é anunciada por João, desta forma: “A besta que eu vi parecia pantera, seus pés eram como de urso e a sua boca como a boca de leão; e o dragão lhe entregou o seu poder, seu trono e grande autoridade; uma de suas cabeças parecia mortalmente ferida, mas a ferida mortal foi curada.”
[7] “Cheia de admiração, a terra inteira seguia a besta e adorou o dragão por ter entregue a autoridade à besta, e adorou a besta dizendo: Quem é comparável à besta e quem pode lutar contra ela?”
[8] “Foi-lhe dada uma boca para proferir palavras insolentes e blasfêmias e, também, poder para agir durante quarenta e dois meses.”
[9] “Ela então abriu a boca em blasfêmias contra Deus, blasfemando contra o seu nome, sua tenda e os que habitam no céu.”
[10] “Foi-lhe dada autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação.”
[11] “Adoraram-na, então, todos os habitantes da terra, cujo nome não está escrito, desde a fundação do mundo, no livro da vida do Cordeiro imolado.”
[12] “Se alguém tem ouvidos, ouça: Se alguém está destinado à prisão, irá à prisão; se alguém deve morrer pela espada é preciso que morra pela espada.”
[13] “Nisto repousa a perseverança e a fé dos santos”.
[14] João fala depois do escudeiro da besta, que chama pseudoprofeta: “Falava, ele diz, como um dragão.”
[15] “Toda a autoridade da primeira besta, ela a exerce diante desta.”
[16] “Ela faz com que a terra e seus habitantes adorem a primeira besta, cuja ferida mortal fora curada.”
[17] “Ela opera grandes maravilhas até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens.”
[18] “E seduz os habitantes da terra”.
[19] Não se julgue que faça isso graças a poder divino, mas o faz graças a operação de mágica.
[20] E não é de se admirar se, com a ajuda dos demônios e dos espíritos apóstatas, opera prodígios que hão de seduzir os habitantes da terra.
[21] “E os incitará, continua João, a fazerem uma imagem em honra da besta, e infundirá espírito na imagem, de modo que a imagem fale e mate todos os que não a adorarem.”
[22] “Faz também com que todos recebam uma marca na fronte ou na mão direita, para que ninguém possa comprar e vender, se não tiver a marca, o nome da besta ou o número de seu nome: e seu número é seiscentos e sessenta e seis”, isto é, seis centenas, seis dezenas e seis unidades, que é a recapitulação de toda a apostasia perpetrada durante seis mil anos.
[23] Quantos foram os dias empregados a criar este mundo, tantos serão os milênios da sua duração total.
[24] Eis por que o livro do Gênesis diz: “Assim foram concluídos os céus e a terra e toda a sua ornamentação. Deus concluiu no sexto dia toda a obra que fizera e no sétimo dia descansou de todas as obras que fizera”.
[25] Esta é descrição do passado, tal como aconteceu, e ao mesmo tempo uma profecia para o futuro: com efeito, “se um dia do Senhor é como mil anos”, se a criação foi acabada em seis dias, está claro que a consumação das coisas acontecerá no sexto milênio.
[26] Eis por que durante todo este tempo, o homem, modelado no princípio pelas mãos de Deus, isto é, o Filho e o Espírito, vai crescendo na imagem e semelhança de Deus; descartada a palha, — que é a apostasia, — o trigo é recolhido no celeiro, — isto é, aqueles cuja fé frutifica para Deus.
[27] Por isso também é necessária a tribulação para os que se salvam, a fim de que, de certo modo moídos e amassados pela paciência e assados pelo Verbo de Deus, se tornem prontos para a festa de núpcias do Rei.
[28] Como disse alguém dos nossos condenado às feras, por causa do testemunho que prestou a Deus: “Eu sou o trigo de Cristo moído pelos dentes das feras para me tornar o pão puro de Deus”.

