[1] O Apóstolo mostra com toda clareza que o homem foi deixado na sua fraqueza para que, enchendo-se de soberba, não se afastasse da verdade.
[2] Com efeito, ele diz na segunda carta aos Coríntios: “Para que não me enchesse de soberba pela sublimidade das revelações, foi-me dado um aguilhão na carne, um anjo de Satanás, para me esbofetear. A esse respeito três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim; e me disse: Basta-te a minha graça, porque a força manifesta todo o seu poder na fraqueza. Por conseguinte, com todo ânimo prefiro gloriar-me das minhas fraquezas para que pouse sobre mim a força de Cristo”.
[3] Pois bem, dirá alguém, o Senhor quis que seu Apóstolo fosse assim esbofeteado e suportasse tal fraqueza? Sim, responde o Verbo, a força manifesta todo o seu poder na fraqueza, tornando melhor aquele que, pela fraqueza, conhece o poder de Deus.
[4] Como o homem poderia saber que é fraco e mortal por natureza, ao passo que Deus é imortal e poderoso se não tivesse experimentado o que está em ambos?
[5] Aprender na paciência a própria fraqueza não é mal, mas, antes, é bem para ele o não se equivocar a respeito da própria natureza.
[6] Encher-se de soberba contra Deus e presumir possuir sua glória, com grande ingratidão do homem, seria grande mal, que o privaria do amor e da verdade e do amor para com o seu Criador.
[7] Porém, com a experiência dos dois produziu nele o verdadeiro conhecimento de Deus e do homem e aumentou o seu amor por Deus.
[8] E onde há aumento de amor, será conferida também pelo poder de Deus glória mais abundante aos que o amam.
[9] Desprezam o poder de Deus e não prestam atenção à verdade os que olham para a fraqueza da carne e não consideram o poder daquele que a ressuscita da morte.
[10] Com efeito, se ele não vivificasse o que é mortal e não levasse à incorruptibilidade o que é corruptível deixaria de ser poderoso.
[11] Mas devemos constatar que ele é poderoso em todas estas coisas e a nossa origem no-lo deve dar a compreender: pois foi tomando um pouco de lodo da terra que Deus modelou o homem.
[12] Ora, é muito mais difícil e incrível que tenha feito existir do nada ossos, nervos e veias, e todos os elementos que constituem o organismo humano, dando-lhe o ser, criando-o animal vivo e racional do que reconstituí-lo, quando, depois de criado, se tenha decomposto na terra, pelos motivos apresentados acima, se bem que tenha acabado naqueles elementos dos quais foi feito no princípio, quando nada era feito.
[13] De fato, aquele que no princípio e quando quis fez o que não existia, com maior razão, querendo, pode ressuscitar os que já tiveram a vida concedida por ele.
[14] Por outro lado, a carne se encontrará capaz de receber e conter o poder de Deus como no princípio recebeu a sua arte.
[15] Uma coisa se tornou olho para ver; outra, ouvido para escutar; outra, mão para tocar e trabalhar; outra, nervos esticados para conter os membros; outra, artéria e veias caminho do sangue e do respiro; outra, as diferentes vísceras; outra, o sangue, ponto de ligação da alma e do corpo.
[16] E que mais? É impossível enumerar os elementos deste corpo criado que somente podiam ser feitos pela profunda sabedoria de Deus.
[17] O que participa da arte e da sabedoria de Deus, participa também do seu poder.
[18] A carne não é, portanto, estranha à sabedoria e ao poder de Deus, mas o poder daquele que dá a vida se manifesta na fraqueza, isto é, na carne.
[19] Digam-nos, os que afirmam que a carne é incapaz de receber a vida que Deus dá: fazem esta afirmação estando atualmente vivos e participando da vida ou reconhecem que estão completamente privados de vida e presentemente mortos?
[20] Se estiverem mortos, como podem movimentar-se, falar e fazer tudo o que os vivos fazem, mas não os mortos?
[21] Se, presentemente, estão vivos, se todo o seu corpo participa da vida, como podem dizer que a carne é incapaz de participar da vida, visto que reconhecem ter a vida neste momento?
[22] É como se segurassem entre as mãos uma esponja embebida em água ou uma tocha acesa e depois dissessem que a esponja não pode reter a água ou a tocha a chama.
[23] Da mesma forma, enquanto asseguram estar vivos e se gloriam de trazer a vida em seus membros, contradizendo-se a si mesmos, dizem que seus membros são incapazes de receber a vida.
[24] Se esta vida temporal, muito menos vigorosa do que a vida eterna, é bastante forte para vivificar os nossos membros mortais, por que a vida eterna, que é muito mais eficaz, não vivificaria a carne que já se exercitou e acostumou a viver?
[25] Que a carne é capaz de receber a vida mostra-se pelo fato de ela viver: de fato, vive enquanto Deus quer que viva.
[26] E que Deus seja capaz de dar a vida é evidente: nós vivemos porque ele nos dá a vida.
[27] Posto que Deus pode dar a vida à obra modelada por ele e a carne é capaz de receber esta vida, o que ainda lhe impossibilita receber a incorruptibilidade que é a vida sem término nem fim que Deus lhe comunica?

