Skip to main content
search

[1] Visto que alguns se deixam induzir ao erro por causa de discurso herético e ignoram as disposições de Deus e o mistério da ressurreição dos justos e do reino que será o prelúdio da incorruptibilidade — reino pelo qual os que serão julgados dignos se acostumarão paulatinamente a possuir Deus —, é necessário dizer sobre isso que os justos, ressuscitando, à aparição de Deus, nesta criação renovada, primeiramente receberão a herança que Deus prometeu aos pais e reinarão nela, e somente depois se realizará o juízo de todos os homens.

[2] Com efeito, é justo que recebam o prêmio do sofrimento naquela mesma natureza em que sofreram e foram provados de todos os modos, e que naquela mesma em que foram mortos por amor a Deus e suportaram a escravidão, recebam a vida e reinem.

[3] É necessário que a própria natureza seja reconduzida ao seu estado primitivo para servir, sem limites, aos justos.

[4] É o que o Apóstolo afirma na epístola aos Romanos, com estas palavras: “A criação em expectativa, anseia pela revelação dos filhos de Deus, porque foi submetida à vaidade, não por seu querer, mas por vontade daquele que a submeteu na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus”.

[5] Desta forma, continua igualmente válida a promessa que Deus outrora fez a Abraão: “Levanta os olhos e, do lugar onde estás agora, olha para o norte e o sul, para o oriente e para o mar ocidental: toda a terra que vês, eu a darei a ti e a tua posteridade para sempre”.

[6] E a seguir, diz: “Levanta-te e anda pelo seu comprimento e largura, porque eu ta darei”.

[7] Contudo Abraão não recebeu na terra nenhuma herança, sequer do tamanho de uma pegada, mas andou sempre nela como estrangeiro e hóspede de passagem.

[8] E quando morreu Sara, sua mulher, e os heteus queriam dar-lhe gratuitamente um lugar para sepultá-la, não aceitou, mas comprou de Efron, filho de Seor, a gruta e o campo por quatrocentos siclos de prata, na espera do cumprimento da promessa de Deus para que não parecesse que recebia dos homens o que Deus lhe tinha prometido dar-lhe, dizendo: “À tua posteridade darei esta terra, do rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”.

[9] A propriedade da terra que Deus lhe tinha prometido e que não recebeu durante toda a sua estada aqui na terra, é necessário que a receba com a sua posteridade, isto é, os que temem a Deus e crêem nele, na ressurreição dos justos.

[10] A sua posteridade é a Igreja que, por meio do Senhor, recebe a filiação adotiva de Abraão, como dizia João Batista: “Deus pode fazer surgir destas pedras filhos a Abraão”.

[11] Também o Apóstolo na sua epístola aos Gálatas diz: “Vós, irmãos, sois filhos segundo a promessa como Isaac”.

[12] Na mesma epístola diz claramente que os que crêem em Cristo, receberam, por intermédio de Cristo, a promessa feita a Abraão: “As promessas foram feitas a Abraão e à sua descendência”.

[13] Não diz: “e aos descendentes”, como referindo-se a muitos, mas como a um só: “e à tua descendência”, que é Cristo.

[14] E para confirmar tudo isso, diz ainda: “Foi assim que Abraão creu em Deus e isto lhe foi levado em conta de justiça. Sabei, portanto, que os que são pela fé, são filhos de Abraão. Prevendo que Deus justificaria pela fé os gentios, a Escritura preanunciou a Abraão: em ti serão abençoadas todas as nações. De modo que os que são pela fé são abençoados juntamente com Abraão, que teve fé”.

[15] Portanto, os que são pela fé são abençoados juntamente com Abraão, que teve fé, e são os filhos de Abraão.

[16] Ora, Deus prometeu a herança da terra a Abraão e sua posteridade; mas, se nem Abraão nem a sua posteridade, que são os justificados pela fé, recebem agora a herança na terra, eles a receberão na ressurreição dos justos, porque Deus é verídico e estável em todas as coisas.

[17] É por isso que o Senhor dizia: “Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra”.

VCirculi

Author VCirculi

More posts by VCirculi
Close Menu