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[1] Por isso o Senhor, pouco antes da paixão, para anunciar a Abraão e aos que estavam com ele, a abertura da herança, deu graças sobre o cálice, bebeu dele e o passou aos seus discípulos, dizendo: “Bebei todos vós, este é o meu sangue do Novo Testamento, que será derramado por muitos, para remissão dos pecados. Eu vos digo: eu já não beberei do fruto desta videira, até o dia em que o beberei novamente convosco no reino de meu Pai”.

[2] Ele renovará a herança da terra e restaurará o ministério da glória dos filhos de Deus, como diz Davi: “Ele renovará a face da terra”.

[3] Prometendo beber do fruto da videira com os seus discípulos, mostrou juntamente a herança da terra na qual se bebe o novo fruto da videira e a ressurreição carnal dos seus discípulos.

[4] A carne que ressuscita renovada é a mesma que recebe a bebida nova, pois não se poderia entender que ele beba do fruto da videira num lugar supraceleste, nem que os que bebem não tenham um corpo de carne.

[5] Pertence à carne e não ao espírito a bebida que se extrai da videira.

[6] Por isso o Senhor dizia: “Quando ofereces um almoço ou um jantar não convides os ricos nem os amigos, vizinhos ou conhecidos para que eles te convidem em troca e te recompensem; mas convida coxos, cegos e mendigos e serás feliz, porque eles não têm com que te recompensar; receberás a recompensa no reino dos justos”.

[7] E continua dizendo: “Quem abandonará campos, ou casa, ou pais, ou irmãos, ou filhos por minha causa, receberá o cêntuplo neste mundo e herdará a vida eterna no futuro”.

[8] Onde estão o cêntuplo nesta vida, os almoços oferecidos aos pobres, e os jantares restituídos?

[9] Isto acontecerá nos tempos do reino, isto é, no sétimo dia que foi santificado quando Deus descansou de toda obra que tinha feito; o verdadeiro sábado dos justos, no qual não executarão nenhuma obra terrena, mas estarão diante de mesa preparada por Deus que os alimentará com todas as iguarias.

[10] Realiza-se também a bênção de Isaac ao filho menor Jacó: “Eis que a fragrância de meu filho é como a fragrância de um campo de trigo maduro, abençoado pelo Senhor”.

[11] O campo é o mundo, por isso acrescenta: “Que Deus te conceda o orvalho do céu, a fertilidade da terra, a abundância de trigo e de vinho. Que as nações te sirvam e os príncipes se prostrem diante de ti. Sê o senhor de teu irmão e que os filhos de teu pai se prosternem diante de ti. Seja maldito quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar!”

[12] Se estas palavras não se referem ao reino definitivo, encontrar-se-ão dificuldades e contradições consideráveis, justamente aquelas nas quais se encontram e se debatem os judeus.

[13] De fato, Jacó, durante a sua vida, não somente não viu as nações servi-lo, mas, depois da bênção, ele teve que partir para servir o tio Labão, o sírio, durante vinte anos.

[14] E não somente não se tornou o senhor do irmão, mas foi ele que se prostrou diante de Esaú, quando, da Mesopotâmia, voltou para o pai, e lhe ofereceu muitos presentes.

[15] E como recebeu aqui a herança da abundância do trigo e do vinho ele que, por causa da carestia que assolou a terra onde vivia, teve que emigrar para o Egito e submeter-se ao faraó, que então reinava no Egito?

[16] Ora, a bênção de que se falava, sem dúvida se refere aos tempos do reino, em que reinarão os justos, depois de ter ressuscitado dos mortos, quando a criação, libertada e renovada, produzirá abundantemente toda espécie de alimentos, pelo orvalho do céu e a fertilidade da terra.

[17] Isto pode ser confirmado pelo fato de que os presbíteros que conheceram pessoalmente João, o discípulo do Senhor, lembravam tê-lo ouvido referir o que o Senhor ensinava sobre estes tempos, com estas palavras: “Virão dias em que crescerão videiras com dez mil cepas e sobre cada cepa dez mil ramos; sobre cada ramo dez mil rebentos; sobre cada rebento dez mil cachos; em cada cacho dez mil grãos; e de cada grão esmagado se farão vinte e cinco metretas de vinho.

[18] E quando algum dos santos for apanhar um cacho, outro lhe dirá: eu sou melhor, apanha-me e bendize ao Senhor por mim!

[19] Da mesma forma um grão de trigo produzirá dez mil espigas, cada espiga terá dez mil grãos e cada grão produzirá vinte e cinco libras de farinha pura.

[20] Também os outros frutos, sementes e ervas terão abundância igual, conforme a sua natureza; e todos os animais se servirão deste alimento, que receberão da terra, viverão em paz e harmonia entre si e estarão completamente submetidos aos homens”.

[21] Eis o que Pápia, discípulo de João, amigo de Policarpo, homem venerável, atesta por escrito no seu quarto livro — existem cinco livros compostos por ele — quando diz: “Tudo isto é crível para os que têm fé.

[22] A Judas, o traidor que não acreditava e que perguntava: Como o Senhor poderia criar tais frutos?, o Senhor respondeu: Vê-lo-ão os que viverão naquele tempo”.

[23] Isaías, profetizando sobre estes tempos, dizia: “O lobo pastará com o cordeiro, o leopardo se deitará com o cabrito. O bezerro, o leão e o novilho pastarão juntos e um menino pequeno os guiará.

[24] A vaca e o urso pastarão juntos e juntas se deitarão as suas crias. O leão se alimentará de forragem como o boi.

[25] A criança de peito porá a mão na cova das serpentes, na cova dos seus filhotes, e não lhe farão mal e não poderão mais fazer morrer ninguém sobre a minha montanha santa”.

[26] E diz o mesmo, noutro lugar: “Os lobos e os cordeiros pastarão juntos e o leão comerá feno como o boi; para a serpente, a terra será como pão; não se fará mal nem violência no meu monte santo, diz o Senhor”.

[27] Eu sei que alguns se esforçam por aplicar estes textos de maneira metafórica àqueles homens selvagens, que, provindo de povos diversos e dedicados a ocupações de toda espécie, abraçaram a fé e vivem de acordo com os justos.

[28] Mas se isto vale para homens que chegaram a uma mesma fé, provenientes de vários povos, realizar-se-á também para estes animais, na ressurreição dos justos, como foi dito: Deus é rico em todas as coisas e é preciso que quando o mundo for restabelecido no seu estado primeiro, todos os animais selvagens obedeçam ao homem, lhe sejam submissos e voltem ao primeiro alimento que Deus lhes deu, assim como estavam submetidos a Adão antes da sua desobediência e comiam dos frutos da terra.

[29] Por outro lado, não é este o momento para provar que o leão se alimentará de feno, porque isso somente significa a riqueza e a fartura dos frutos: porque, se um animal como o leão se alimentará da palha, o que não alimentará o trigo cuja simples palha é suficiente para alimentar os leões?

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