[1] Sendo homens reais também real deve ser a sua recolocação, e não cairão no nada, mas antes, progredirão no ser.
[2] Porque nem a substância nem a matéria da criação serão destruídas — é verdadeiro e estável quem as fez — mas passará a figura deste mundo, isto é, aquilo em que se deu a transgressão, porque o homem envelheceu nele.
[3] Eis por que esta figura foi feita temporária, visto que Deus já sabia de todas as coisas, como demonstramos no livro precedente, onde explicamos, enquanto possível, o por que da criação de um mundo temporário.
[4] Mas quando esta figura tiver passado e o homem estiver maduro para a incorruptibilidade a ponto de não poder mais envelhecer, haverá novo céu e nova terra, em que morará o homem novo, conversando com Deus de maneira sempre nova.
[5] E isto durará para sempre e sem fim, como diz Isaías: “Como o céu novo e a terra nova que criarei durarão para sempre diante de mim, diz o Senhor, assim perdurará a vossa descendência e o vosso nome”.
[6] E, como dizem os presbíteros, será então que os que forem julgados dignos de estar no reino dos céus entrarão aí, enquanto outros gozarão das delícias do paraíso e outros ainda possuirão o esplendor da cidade; mas Deus será visto de todos os lugares conforme o merecimento dos que o verão.
[7] Esta será a diferença das moradas entre os que frutificaram o cem por um, o sessenta por um e o trinta por um: os primeiros serão elevados aos céus, os segundos permanecerão no paraíso e os outros morarão na cidade.
[8] Foi este o motivo pelo qual o Senhor disse que há muitas moradas na casa de seu Pai.
[9] Com efeito, tudo é de Deus que dá a todos a sua morada; como diz o seu Verbo, o Pai as distribuirá em conformidade com os merecimentos presentes e futuros.
[10] Este é o salão de festa em que tomarão lugar e se banquetearão os convidados às núpcias.
[11] Estes são, na palavra dos presbíteros, discípulos dos apóstolos, a ordem e a disposição dos que se salvam, e os degraus pelos quais passarão: pelo Espírito subirão ao Filho e, depois, pelo Filho, ao Pai, quando o Filho entregar a sua obra ao Pai, conforme disse o Apóstolo: “É necessário que ele reine até que todos os seus inimigos sejam postos para escabelo dos seus pés; e o último inimigo a ser vencido será a morte”.
[12] Nos tempos do reino o homem justo que vive na terra esquecerá de morrer.
[13] Mas, continua o Apóstolo, quando ele disser: Tudo está submetido, evidentemente excluir-se-á aquele que tudo lhe submeteu.
[14] E quando todas as coisas lhe tiverem sido submetidas, então o próprio Filho se submeterá àquele que tudo lhe submeteu, para que Deus seja tudo em todos”.
[15] Por isso João previu de forma precisa a primeira ressurreição, que é a dos justos, e a herança da terra que se deve realizar no reino, de pleno acordo com o que os profetas já tinham profetizado acerca desta ressurreição.
[16] E é exatamente também o que o Senhor ensinou, quando prometeu beber a nova taça com os discípulos, no reino.
[17] Também quando disse: “Virão dias em que os mortos que estão nos sepulcros ouvirão a voz do Filho do homem e ressuscitarão para a vida os que tiverem praticado o bem e os que tiverem feito o mal ressuscitarão para a condenação”.
[18] Com estas palavras afirma que os que tiverem feito o bem serão os primeiros a ressuscitar para ir no lugar do repouso e que em seguida ressuscitarão os que devem ser julgados.
[19] É o que já está escrito no Gênesis, segundo o qual a consumação deste mundo realizar-se-á no sexto dia, isto é, no sexto milênio.
[20] Haverá depois o sétimo dia, o dia do repouso, acerca do qual Davi diz: “Este é o lugar do meu repouso e os justos entrarão aí”; este sétimo dia é o sétimo milênio, o do reino dos justos em que os justos se prepararão para a incorruptibilidade após o que será renovada a criação por meio daqueles aos quais foi reservada esta tarefa.
[21] E o Apóstolo afirmou que a futura criação seria liberta da escravidão da corrupção para tomar parte da liberdade gloriosa dos filhos de Deus.
[22] Em tudo isto é indicado um só e idêntico Pai; aquele que modelou o homem; aquele que prometeu aos pais a herança da terra; aquele que a concederá na ressurreição dos justos e cumprirá as suas promessas no reino de seu Filho; aquele, enfim, que, na sua bondade, dará o que olho não viu nem ouvido ouviu nem passou pela cabeça de nenhum homem.
[23] Com efeito, único é o Filho que cumpriu a vontade do Pai, único é o gênero humano em que se cumprem os mistérios de Deus, que os anjos desejam ver, porque não conseguem perscrutar a Sabedoria de Deus pela qual a sua criatura, conformada e incorporada ao Filho, é levada à perfeição.
[24] De forma que, enquanto o Primogênito, isto é, o Verbo desce na criatura e a assume, por sua vez a criatura se apossa do Verbo e sobe até Deus, ultrapassando os anjos e tornando-se à imagem e semelhança de Deus.

