[1] Ora, até sem se darem conta, os que imaginam um Pai além do Demiurgo e lhe atribuem o título de bom, fazem deste Pai um ser fraco, inoperante e negligente, para não dizer ciumento e invejoso, dizendo que ele não vivifica os nossos corpos.
[2] Afirmando que algumas coisas conhecidas por todos são imortais, como o espírito, a alma e coisas desta espécie, e que abandona as outras que não podem ser vivificadas a não ser que Deus lhe dê a vida, apresentam a prova de que o seu Pai é fraco, ocioso, negligente e invejoso.
[3] Ora, se o Demiurgo vivifica desde agora os nossos corpos mortais e lhes promete a ressurreição por meio dos profetas, como o mostraremos, qual deles se mostra mais poderoso, forte e bom?
[4] O Demiurgo que vivifica todo o homem ou o seu pretenso Pai que finge vivificar as coisas imortais e que possuem a vida por sua própria natureza e negligentemente abandona à morte, antes de vivificá-las com bondade, as que precisam de seu socorro para viver?
[5] O Pai deles não dá a vida porque não quer ou porque não pode?
[6] Se não pode, é porque não é mais poderoso nem mais perfeito do que o Demiurgo, pois o Demiurgo dá, como é fácil ver, o que aquele é incapaz de oferecer.
[7] Se, pelo contrário, recusa-se a dar a vida quando o poderia, está demonstrado que não é Pai bom, mas Pai invejoso e negligente.
[8] Se, por acaso, dizem que há um motivo pelo qual o seu Pai não vivifica os corpos, necessariamente este motivo é mais forte que o Pai, pois limita a sua bondade e então esta parece enfraquecida por este pretenso motivo.
[9] Que os corpos são capazes de receber a vida, todos estão cansados de saber; com efeito, vivem pelo tempo que Deus quer que vivam e por isso não podem dizer que são incapazes de receber a vida.
[10] Se, portanto, não são vivificados, por alguma necessidade ou motivo, os que têm a possibilidade de receber a vida o seu Pai estará submetido a esta necessidade e a este motivo e não será mais livre e autônomo nas suas decisões.

