[1] Agora recebemos uma parte de seu Espírito para nos predispor e preparar à incorruptibilidade, habituando-nos paulatinamente a compreender e a trazer Deus.
[2] É a isto que o Apóstolo chama penhor, isto é, parte daquela glória prometida por Deus, quando na carta aos Efésios diz: “É nele que também vós, depois de ter ouvido a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, é nele que, depois de ter crido, fostes marcados com o selo do Espírito Santo da promessa, que é o penhor de nossa herança”.
[3] Se, portanto, esse penhor que habita em nós nos torna espirituais e se o que é mortal é absorvido pela imortalidade — “Pois vós, diz, não estais na carne, mas no Espírito, se o Espírito de Deus habita em vós” — e se, por outro lado, isto se realiza, não pela rejeição da carne, e sim pela comunhão do Espírito — pois aqueles aos quais escrevia não eram seres desencarnados, mas pessoas que tinham recebido o Espírito de Deus “no qual gritamos: ‘Abba’, Pai!” —, se portanto, já agora, por ter recebido este penhor, “gritamos: Abba, Pai!”, o que acontecerá quando, ressuscitados, o veremos face a face?
[4] Quando de todos os membros brotará copiosamente o hino de exultação, glorificando aquele que os ressuscitou da morte, dando-lhes a vida eterna?
[5] Se este penhor, envolvendo o homem em si, já lhe faz dizer: “Abba, Pai!”, o que não fará toda a graça do Espírito que Deus dará aos homens?
[6] Ela nos tornará semelhantes a ele e cumprirá a vontade do Pai, pois fará o homem à imagem e semelhança de Deus.
[7] Os que possuem, pois, o penhor do Espírito, não servem mais às concupiscências da carne, submetem-se ao Espírito e vivem em tudo conforme à razão, são justamente chamados espirituais pelo Apóstolo, porque o Espírito de Deus habita neles.
[8] Ora, espíritos desprovidos de corpo não são homens espirituais, mas a nossa natureza, isto é, a união da alma e do corpo que recebe o Espírito de Deus, constitui o homem espiritual.
[9] Aqueles, porém, que recusam os conselhos do Espírito e se submetem aos prazeres da carne e vivem de modo contrário à razão e se abandonam sem freios às suas paixões, como os que não recebem nenhuma inspiração do Espírito e vivem como porcos ou cães, justamente são chamados carnais pelo Apóstolo, porque só têm sensibilidade para as coisas carnais.
[10] Já os profetas, por estes mesmos motivos, equipararam-nos aos animais irracionais.
[11] Assim, por causa de sua conduta contrária à razão, diziam: “Tornaram-se como garanhões no cio, cada um relinchando para a mulher de seu próximo”; e ainda: “O homem que fora cumulado de honra, se tornou semelhante aos jumentos”; é por sua culpa que o homem se torna semelhante aos jumentos emulando sua vida irracional.
[12] Também nós costumamos chamar essas pessoas jumentos e brutos.
[13] Tudo isso foi prefigurado pela Lei que descreve os homens por meio de animais: declarando puros os animais com o casco partido em duas unhas e que ruminam e impuros aqueles aos quais faltavam as duas coisas ou uma delas.
[14] Então, quais são os homens puros?
[15] Os que caminham firmemente, na fé, para o Pai e o Filho — essa é a estabilidade dos que têm unha dupla — e que meditam as palavras do Senhor, dia e noite, para se adornar de boas obras — esta é a virtude dos ruminantes.
[16] Impuros, ao contrário, são os que não têm duas unhas e não ruminam, isto é, os que não têm fé em Deus e não meditam as suas palavras: essa é a abominação dos pagãos.
[17] Os animais que ruminam, mas não têm duas unhas, também são impuros: esta é a imagem dos judeus, os quais têm as palavras de Deus em sua boca, mas não afundam a estabilidade de suas raízes no Pai e no Filho; por isso a sua raça é instável.
[18] Com efeito, os animais com uma unha só escorregam facilmente e os que têm duas unhas são mais estáveis, porque elas se sucedem uma à outra conforme a marcha e uma sustenta a outra.
[19] Também são impuros os animais com duas unhas, mas não ruminam: é o símbolo de quase todos os hereges, de todos os que não meditam as palavras de Deus e não se adornam com as obras da justiça.
[20] O Senhor diz a eles: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo?”
[21] Estes dizem que creem no Pai e no Filho, mas não meditam as palavras de Deus como convém e não se adornam com as obras de justiça, mas, como dissemos, abraçaram a maneira de viver dos porcos e dos cães, abandonando-se à impureza, à gula e a todas as paixões.
[22] Os que não têm o Espírito divino por causa da sua incredulidade e luxúria e de várias maneiras recusam o Verbo que lhes dá a vida e, sem refletir, vivem nas suas paixões, o Apóstolo os chama justamente carnais e psíquicos, os profetas chamam-nos jumentos e feras e, na linguagem corrente, animais e irracionais, e a Lei os declara impuros.

